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Edição 1 757 - 26 de junho de 2002
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Calma, pessoal!

"É estranho um país onde para saber
o juro é necessário contratar um
especialista para estimar a inflação"




Ilustração Ale Setti


Alguns economistas estão espalhando pânico, dizendo que a dívida interna é impagável qualquer que seja o vencedor na próxima eleição. "Juros de 18,5% sobre uma dívida que chega a 55% do PIB são uma bomba-relógio" é o principal argumento. Vejamos alguns dados que infelizmente ninguém está espalhando e darão um certo contraponto.

A dívida interna no governo Fernando Henrique Cardoso aumentou de fato mais que 50%, mas este governo também elevou em 100% o imposto de renda sobre os ganhos financeiros. Pagam-se em torno de 40% de imposto sobre os juros recebidos, os 20% de imposto na fonte incidem hoje sobre os juros mais inflação, e não sobre o juro real, como antigamente, algo que todo mundo está esquecendo de mencionar.

Ficou mais fácil para o governo pagar esses juros, não mais difícil. Um aplicador médio paga imposto de renda mais CPMF, o que reduz o custo líquido para o governo para 14,5% ao ano, e não esses 18,5% que estão aí.

Qual a lógica de embutir 40% de imposto na taxa de juro, para depois recolher de volta esses mesmos 40% como imposto? Eu, honestamente, não sei. Só sei que assusta o mundo inteiro.

O segundo ponto que quero lembrar a todos que estão em pânico é que esses 18,5% considerados exorbitantes não são juros, mas sim a soma de juros e inflação. E inflação não é juro, mas uma amortização antecipada da dívida. Supondo que a inflação futura seja entre 6% e 8%, a dívida interna será corroída por essa mesma inflação, e será mais fácil de ser paga. Se, por hipótese, pagarmos esses juros com inflação por trinta anos, a dívida interna brasileira será corroída todo ano, até ser totalmente corroída, e cairá para 0% do PIB, ou quase zero. Você acredita naqueles que estão espalhando que 0% da dívida seja impagável?

Qual a lógica dos economistas em dificultar a vida de todos e do governo em particular, incluindo a inflação nos juros pagos a curto prazo, e facilitar a vida dos governos de oposição que pagarão a dívida a longo prazo corroída pela mesma inflação? Eu não entendo essa lógica, mas é isso que os economistas do mundo vêm fazendo desde 1932.

Subtraindo a inflação futura de 8% e os 4% de imposto, o custo efetivo para o governo dessa dívida interna cai para 6,5% de juros ao ano, um número bem mais realista e confortador que os juros mais inflação e impostos de 18,5% publicados nos jornais.

Algum leitor acredita que 6,5% ao ano de juros, o juro da caderneta, seja uma taxa impagável a longo prazo? Pode até ser, se o governo não conseguir esse retorno em termos de impostos futuros, mas ultimamente a arrecadação só tem aumentado.

Para acalmar os que lêem o noticiário econômico, não é correto associar, como fazem os economistas, esses juros de 18,5% ao ano com essa dívida de 55% do PIB. Estão usando dois pesos e duas medidas. Se você usar os juros dos economistas de 18,5% ao ano, tem de associar uma dívida de longo prazo de somente 0% do PIB, pois ela será corroída pela inflação embutida nos juros. Você pode continuar achando que o juro é absurdamente alto, mas tem de ter a honestidade intelectual de avisar os jornalistas e a opinião pública de que parte desses juros está amortizando a dívida dos futuros governos.

Se você usar os juros dos administradores, que é o juro real de 6,5% ao ano, a dívida permanece em 55% do PIB, pois não será mais corroída ano após ano. Agora você terá de julgar se 6,5% é elevado ou não, e se sobraria um pouco mais de dinheiro para reduzir a dívida amortizando-a ao longo dos anos. Cada um avalie por si.

Temos duas formas legítimas de observar o mesmo peso financeiro, mas estamos misturando o pior peso dos dois. No mundo nominal do economista o juro é alto, mas a dívida é corroída. No mundo real do administrador o juro é baixo, só que o valor da dívida tem de ser devolvido como contraído. O que não é correto é usar o maior peso de cada medida, 18,5% de juros e 55% de dívida, e assustar a galera, o que eleva o juro.

Alguns leitores estarão discordando de minha estimativa de inflação, que seria muito alta. Pode ser, o tempo dirá. Mas não é estranho um país onde para saber o juro é necessário contratar um especialista para estimar a inflação? Essa incerteza não aumenta o juro desnecessariamente? Voltarei ao assunto no mês que vem.

 

Stephen Kanitz é administrador (www.kanitz.com.br)

 
Stephen Kanitz é administrador (www.kanitz.com.br)

 
 
   
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