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Edição 1 757 - 26 de junho de 2002
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Roberto Pompeu de Toledo

O risco país e o
medo de eleições

Lá é possível ter paz num país onde
o perigo que oferece é medido como
a pressão de um paciente?

Ah, esses argentinos... A expressão "risco país", ou "riesgo país", na versão local, a certa altura ficou tão popular quanto "muchas gracias" ou "buenos días". Todo mundo sabia, e sabe ainda, o que era "riesgo país", o padeiro da esquina e a dona-de-casa, a vendedora da Calle Florida e o passeador de cães da Recoleta. Acompanhava-se, e acompanha-se ainda, o "riesgo país" como se acompanham os jogos do Boca Juniors. Ah, esses argentinos... Só eles mesmos, surrealistas a ponto de achar que Evita ficou mais bonita e Gardel passou a cantar melhor depois de mortos, e passageiros de uma montanha-russa política que os fez sofrer, no espaço de três décadas, a barbárie da ditadura e uma guerra contra a Inglaterra, os surtos de hiperinflação e o embuste dos planos econômicos, os sinais cruéis da decadência e os presidentes que se não agüentam no cargo, para tomar uma expressão técnica, nascida nas oficinas dos analistas de investimento dos Estados Unidos, e incorporá-la ao vocabulário do dia-a-dia. Eis senão quando...

– Muito prazer, risco país.

Eis senão quando o "riesgo país" se traveste em "risco país" e, cá como lá, irrompe no território das expressões familiares, imprevisto como um terremoto, incômodo como um intruso. E damo-nos conta de que a banalização da expressão, longe de caracterizar mais um idiossincrático exotismo dos irmãos platinos, apenas fez sua entrada em cena por aquelas bandas para, como as frentes frias com origem no Pólo Sul, não demorar a deslocar-se no nosso rumo. O "risco país" assentou praça no Jornal Nacional e raro é o dia em que lá não dá o ar de sua graça. Mais um pouco, e não será motivo de surpresa flagrá-lo na conversa dos motoboys que aguardam abrir o sinal, ou na das babás com os vendedores de pipoca, nos parques. Eis-nos às voltas com mais uma daquelas expressões aterrorizantes que, como "ataque especulativo", "bola da vez" ou – para de novo lembrar o país de Piazzolla e Maradona – "argentinização", vêm umas se somando às outras, de uns tempos para cá, no cotidiano sobressaltado dos brasileiros.

Basta! Assim como no Afeganistão dos talibãs havia o Ministério para a Propagação da Virtude e Prevenção do Vício, deveria ser criado, no Brasil, um Departamento da Conveniência ou Inconveniência das Palavras. O Decoinp, sigla do órgão, decidiria, em reuniões periódicas como as do Copom, que palavras ou expressões seriam aceitas na linguagem comum e quais seriam barradas. Pois é de clareza meridiana que, mais que o déficit fiscal e a dívida interna, impõe-se temer as palavras. As coisas não são coisas enquanto não são nomeadas. O que não se expressa não se conhece. Vive na inocência do limbo, no sono profundo da inexistência. Uma vez identificado, batizado e devidamente etiquetado, o "risco país" passou a existir. E lá é possível viver num país em risco? Lá é possível dormir em paz num país submetido à medição do perigo que oferece com a mesma assiduidade com que a um paciente se tira a pressão? É como viajar num navio onde se apregoasse, num escandaloso placar luminoso, sujeito a tantas oscilações como as das ondas do mar, o "risco naufrágio". Ou como trabalhar num prédio onde sinais sonoros, emitidos com freqüência igual à dos bipes do relógio, apregoassem o "risco desmoronamento".

Conviver com o risco país é como deitar-se com uma cobra debaixo da cama, ou uma aranha no teto, ou ter a dupla e simultânea companhia da cobra e da aranha, uma embaixo da cama e outra no teto, e tem mais: ele nos foi lançado vida adentro no exato momento em que se desencadeava a campanha presidencial. E, qual um jogador bêbado, entrou em campo, para desconcerto da torcida, sem saber para que time joga. A oposição afirma que sua preeminência se deve à imprudência e à imperícia do governo. O governo argumenta que a responsabilidade exclusiva é dos programas aventureiros com os quais acenam os oposicionistas. Não: o risco país não é um jogador. É a bola, chutada impiedosamente de um lado para o outro do campo eleitoral.

Para terminar, transcreve-se aqui trecho de um texto intitulado "O que é uma eleição no Brasil", assinado por um certo C. de Macedo, datado de 1859, e publicado num almanaque na época:

"Ninguém ousará negar que uma eleição entre nós importa sempre uma calamidade ao país. Quem não tem visto, quem não tem experimentado essa febre ardente, com seus delírios e tresvarios, com suas noites de insônia, com seus dias de constante preocupação, essa febre que semilha a hidrofobia em seu período mais impetuoso, o mais horripilante e mais medonho? Quem – espectador ou ator – não tem visto essa luta (...) em que os combustíveis se amontoam aos mil, e a explosão a mais terrível pode a todo momento ser operada pela centelha a mais desprezível – luta de desgraças, de desolações, de lágrimas e, não poucas vezes, de sangue?"

Como se queria demonstrar, não é de hoje, nem privativo da entidade conhecida como "mercado", o medo pânico de eleições.

   
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