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Edição 1 757 - 26 de junho de 2002
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A mágica de Naipaul

De volta ao romance, o ganhador
do Prêmio Nobel de 2001 condensa
os grandes temas de sua obra

Carlos Graieb


Veja também
A íntegra do discurso de Naipaul na aceitação do prêmio Nobel de 2001 (em inglês)

Não foram poucas as vezes em que o escritor britânico V.S. Naipaul, ganhador do Prêmio Nobel de 2001, declarou que o romance estava morto. Por quase uma década ele evitou esse gênero, trabalhando em narrativas de cunho autobiográfico, como O Enigma da Chegada, ou em livros de viagem, como Além da Fé, que registra sua passagem por nações muçulmanas. No entanto, como dizia o filósofo alemão Friedrich Nietzsche, perseguir a coerência a todo custo só é virtude entre os medíocres. No ano passado, Naipaul caiu em contradição e voltou a lançar um romance. Deve-se agradecer a ele por isso. Meia Vida (tradução de Isa Mara Lando; Companhia das Letras; 195 páginas; 28,50 reais), que agora chega ao Brasil, é uma estupenda síntese dos temas centrais de sua obra. E essa obra, sem dúvida alguma, é um dos poucos monumentos literários erigidos na segunda metade do século XX.


Chris Ison/AP
O escritor V.S. Naipaul: quando a contradição compensa


Em seu discurso de aceitação do Nobel (
leia o texto), Naipaul descreveu-se como um homem que cresceu imerso em ignorância. Descendente de imigrantes indianos, nascido numa ilha pequena e pobre do Caribe – Trinidad –, ele não dispôs dos alicerces que uma cultura sólida oferece. "Toda criança, eu suponho, vem ao mundo sem saber quem é. Mas esse conhecimento aguarda a criança francesa, por exemplo. Ele está ao seu redor", disse Naipaul. Em seu caso, ao contrário, foi preciso elucidar laboriosamente os elementos que poderiam compor sua identidade. Foi preciso iluminar "áreas de escuridão" que abarcavam a Índia e o Novo Mundo, o passado colonial, as religiões hindu e muçulmana, os fluxos de migração, a Inglaterra para onde o autor se mudou na juventude. Naipaul fez isso escrevendo; as áreas de escuridão são os temas de sua obra. "O objetivo sempre foi preencher minha imagem do mundo, e o propósito veio de minha infância: reconciliar-me comigo mesmo." É esse tipo de conhecimento e reconciliação que Willie Chandran, o protagonista de Meia Vida, jamais alcança.

O livro começa na Índia. Descendente de uma linhagem de sacerdotes e filho de um funcionário do marajá, o pai de Willie abandona seu posto na burocracia e casa-se com uma mulher de casta inferior. Por isso, seu filho nasce sem ter um lugar estável em sua comunidade. Aos 20 anos ele emigra para Londres. Tenta estudar, tenta escrever, tenta integrar-se à sociedade inglesa, mas continua à deriva. Conhece, então, Ana. Apaixona-se e parte com ela para a África – apenas para descobrir, dezoito anos depois, que continua a viver uma vida falsa, "pela metade". Usando a linguagem nua que se tornou sua marca, Naipaul emprega vários tons de voz para narrar essa história. Há ricas passagens de comédia social, sobretudo nos capítulos ambientados na Índia e na Inglaterra. Nos trechos sobre a África, entra em jogo a ríspida melancolia que se tornou costumeira nele quando o assunto são as "mal-acabadas sociedades pós-coloniais". Seja como for, ao fim do livro o leitor foi conduzido por cinco décadas e três continentes. Foi apresentado a uma complexa visão de mundo, de história e de política. E é nisso que consiste a mágica literária de Naipaul.

 
Os Anos de 1890


Descendemos de uma linhagem de sacerdotes. Éramos ligados a um certo templo. Não sei quando o templo foi construído, nem qual governante o construiu, nem há quanto tempo estamos ligados a ele; não somos pessoas com esse tipo de conhecimento. Nós, os sacerdotes do templo, e nossas famílias formávamos uma comunidade. Em certa época, suponho, devemos ter sido uma comunidade muito rica e próspera. Mas, quando os muçulmanos conquistaram a terra, todos nós ficamos pobres. As pessoas a quem servíamos não podiam mais nos sustentar. As coisas pioraram com a chegada dos ingleses. Existiam leis, mas a população aumentava. Foi o que meu avô me disse. Eu não gostava de ouvir as histórias que meu avô me contava sobre aquela época, os anos de 1890.


Trecho de Meia Vida

 

   
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