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A
mágica de Naipaul
De volta ao romance, o ganhador
do Prêmio Nobel de 2001 condensa
os
grandes temas de sua obra
Carlos
Graieb

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Não
foram poucas as vezes em que o escritor britânico V.S. Naipaul,
ganhador do Prêmio Nobel de 2001, declarou que o romance estava
morto. Por quase uma década ele evitou esse gênero, trabalhando
em narrativas de cunho autobiográfico, como O Enigma da Chegada,
ou em livros de viagem, como Além da Fé, que registra
sua passagem por nações muçulmanas. No entanto, como
dizia o filósofo alemão Friedrich Nietzsche, perseguir a
coerência a todo custo só é virtude entre os medíocres.
No ano passado, Naipaul caiu em contradição e voltou a lançar
um romance. Deve-se agradecer a ele por isso. Meia Vida
(tradução de Isa Mara Lando; Companhia das Letras; 195 páginas;
28,50 reais), que agora chega ao Brasil, é uma estupenda síntese
dos temas centrais de sua obra. E essa obra, sem dúvida alguma,
é um dos poucos monumentos literários erigidos na segunda
metade do século XX.
Chris Ison/AP
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| O
escritor V.S. Naipaul: quando a contradição compensa |
Em seu discurso de aceitação do Nobel (leia
o texto),
Naipaul descreveu-se como um homem que cresceu imerso em ignorância.
Descendente de imigrantes indianos, nascido numa ilha pequena e pobre
do Caribe Trinidad , ele não dispôs dos alicerces
que uma cultura sólida oferece. "Toda criança, eu suponho,
vem ao mundo sem saber quem é. Mas esse conhecimento aguarda a
criança francesa, por exemplo. Ele está ao seu redor", disse
Naipaul. Em seu caso, ao contrário, foi preciso elucidar laboriosamente
os elementos que poderiam compor sua identidade. Foi preciso iluminar
"áreas de escuridão" que abarcavam a Índia e o Novo
Mundo, o passado colonial, as religiões hindu e muçulmana,
os fluxos de migração, a Inglaterra para onde o autor se
mudou na juventude. Naipaul fez isso escrevendo; as áreas de escuridão
são os temas de sua obra. "O objetivo sempre foi preencher minha
imagem do mundo, e o propósito veio de minha infância: reconciliar-me
comigo mesmo." É esse tipo de conhecimento e reconciliação
que Willie Chandran, o protagonista de Meia Vida, jamais alcança.
O livro começa na Índia. Descendente de uma linhagem de
sacerdotes e filho de um funcionário do marajá, o pai de
Willie abandona seu posto na burocracia e casa-se com uma mulher de casta
inferior. Por isso, seu filho nasce sem ter um lugar estável em
sua comunidade. Aos 20 anos ele emigra para Londres. Tenta estudar, tenta
escrever, tenta integrar-se à sociedade inglesa, mas continua à
deriva. Conhece, então, Ana. Apaixona-se e parte com ela para a
África apenas para descobrir, dezoito anos depois, que continua
a viver uma vida falsa, "pela metade". Usando a linguagem nua que se tornou
sua marca, Naipaul emprega vários tons de voz para narrar essa
história. Há ricas passagens de comédia social, sobretudo
nos capítulos ambientados na Índia e na Inglaterra. Nos
trechos sobre a África, entra em jogo a ríspida melancolia
que se tornou costumeira nele quando o assunto são as "mal-acabadas
sociedades pós-coloniais". Seja como for, ao fim do livro o leitor
foi conduzido por cinco décadas e três continentes. Foi apresentado
a uma complexa visão de mundo, de história e de política.
E é nisso que consiste a mágica literária de Naipaul.
| Os
Anos de 1890 |
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Descendemos
de uma linhagem de sacerdotes. Éramos ligados a um certo
templo. Não sei quando o templo foi construído, nem
qual governante o construiu, nem há quanto tempo estamos
ligados a ele; não somos pessoas com esse tipo de conhecimento.
Nós, os sacerdotes do templo, e nossas famílias formávamos
uma comunidade. Em certa época, suponho, devemos ter sido
uma comunidade muito rica e próspera. Mas, quando os muçulmanos
conquistaram a terra, todos nós ficamos pobres. As pessoas
a quem servíamos não podiam mais nos sustentar. As
coisas pioraram com a chegada dos ingleses. Existiam leis, mas a
população aumentava. Foi o que meu avô me disse.
Eu não gostava de ouvir as histórias que meu avô
me contava sobre aquela época, os anos de 1890.
Trecho de Meia Vida
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