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A dois passos do pódio

Com talento e garra, o Brasil
finalmente joga
um grande
futebol, vence a Inglaterra
de forma empolgante e fica
próximo da sonhada final

Carlos Maranhão, de Tóquio

 
AFP
Reuters
Seaman vê a bola entrar no ângulo e Ronaldinho vibra: a seleção brasileira deu aula de futebol aos ingleses


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Inventado pela Inglaterra, o futebol transformou-se ao longo de sua história no mais apaixonante dos esportes com a contribuição da qualidade técnica dada pela Argentina e pela Itália, das revoluções táticas da Hungria e da Holanda, da força da Alemanha, da bravura do Uruguai e do refinamento da França. Nenhum dos 204 países que hoje o praticam, porém, conseguiu injetá-lo com tantos e tão fabulosos talentos como o Brasil. A explicação para o que está acontecendo na Copa do Mundo é simples assim. Com um time que penou para obter a classificação nas eliminatórias sul-americanas, caiu em descrédito, sumiu da lista dos maiores favoritos para ganhar o título, foi menosprezado pelos críticos e não tinha a confiança de seus torcedores, os canarinhos estão outra vez a dois passos do pódio. A maravilhosa vitória contra os ingleses por 2 a 1, na sexta-feira, em Shizuoka, colocou novamente as coisas no lugar. Foi o quinto triunfo consecutivo da seleção, uma seqüência que, até hoje, ela havia alcançado somente na campanha do tri, 32 anos atrás. "Os brasileiros são brilhantes", rendeu-se o astro David Beckham ao comentar a derrota e a eliminação do confiante English Team nas quartas-de-final.

Emocionado, como os milhões de pessoas que vibraram no meio da madrugada com um dos mais empolgantes triunfos que o Brasil já conquistou em dezessete Mundiais, o técnico Luiz Felipe Scolari derramou-se em elogios à equipe. "Com todo o meu respeito pelas que a antecederam, eu nunca vi uma seleção brasileira com tanta garra e espírito de luta como esta", declarou. Há certo exagero na afirmação, justificada pela euforia da virada. De qualquer ângulo que se olhe – arte, técnica ou aplicação –, os campeões de 1958 e 1970 continuam sendo incomparáveis. Feita essa ressalva, o futebol que deu ao mundo Leônidas da Silva, Zizinho, Nílton Santos, Didi, Garrincha, Pelé, Tostão, Rivelino, Falcão, Zico e Romário, para citar apenas esses onze fora-de-série, pode hoje se orgulhar de Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo e Rivaldo.

 
AFP
Rivaldo chuta: essa ele errou, mas saiu de seus pés o gol que mudou a história da partida

Não que antes não pudesse. Mas havia problemas no percurso. Ronaldinho é o fenômeno mais recente. Ele projetou-se para a fama em 1999, com um gol inesquecível em cima da Venezuela, logo em uma de suas primeiras convocações. Ronaldo, que ganhou a faixa do tetra em 1994 sem ter entrado nenhuma vez em campo, e Rivaldo, presença obrigatória na seleção há oito anos, são fenômenos mais antigos. A questão é que um craque não se consagra definitivamente sem um desempenho estelar na Copa do Mundo. Campeonatos de primeira linha como o italiano e o espanhol transformam seus astros em ídolos internacionais que ganham 1 milhão de dólares por mês e se tornam celebridades de dimensões que extrapolam os estádios, ombreando-se com atores de cinema, roqueiros e top models. Mas é a Copa o único palco que separa os jogadores que entraram na moda daqueles que passam à história do futebol. Existem casos de supercraques que obtiveram esse reconhecimento sem levantar a taça. Os mais notáveis foram o húngaro Puskas, em 1954, e o holandês Cruyff, em 1974. Vítimas de trapaças da bola, tão comuns num jogo que muitas vezes se decide por circunstâncias fortuitas – um lance infeliz, uma bola na trave, um erro do árbitro –, eles foram derrotados na final. Outra exceção é Di Stefano, que antes do aparecimento de Diego Maradona foi o único jogador comparado a Pelé. Argentino, Di Stefano transferiu-se muito jovem para o Real Madrid, naturalizou-se espanhol e não pôde mais defender a seleção de seu país. Pela Espanha, participou discretamente da Copa de 1962.

Todos os outros mitos dos gramados foram coroados no evento que, a cada quatro anos, hipnotiza o mundo durante um mês inteiro, a começar por Pelé, três vezes campeão. Estão nessa galeria o alemão Franz Beckenbauer e o argentino Maradona. É nela que Ronaldinho Gaúcho, Ronaldo e Rivaldo lutam agora para entrar. Ronaldinho, em sua Copa de estréia, alçou sexta-feira o vôo para as estrelas. O Brasil perdia da Inglaterra, que controlava a duríssima partida nos descontos do primeiro tempo, quando ele serviu Rivaldo com um passe daquele gênero em que o craque descobre um espaço vazio que ninguém mais parece ver. Rivaldo, entrando pela direita, acertou um chute com a precisão dos arremates de Puskas – que, dizia-se nos anos 50, tinha mãos dentro das chuteiras. No início do segundo tempo, Ronaldinho Gaúcho desempatou com um gol que, sem dúvida alguma, será incluído na antologia das jóias futebolísticas. "O Cafu tinha me avisado que o goleiro deles se adiantava nas cobranças", conta Ronaldinho, que garante ter percebido o veterano camisa 1 David Seaman, com seu rabo-de-cavalo, postado temerariamente à frente da risca fatal na hora em que ele foi bater uma falta. Queria cruzar? "Não, eu chutei", afirma. Fantástico: a bola ultrapassou a barreira e, com uma descaída caprichosa, encobriu o infeliz Seaman.

 
Fotos AFP
Mills tenta em vão segurar Roberto Carlos: os brasileiros foram mais hábeis e vigorosos

Comemoração no Rio de Janeiro: a torcida descobre que tem um time de primeira linha

Sete minutos mais tarde, Ronaldinho se descontrolou e fez uma falta dupla no zagueiro Mills, merecendo a expulsão. Seu riso nervoso, ao ver o cartão vermelho, mostrou que ele percebeu como, no futebol, a glória pode ser fugidia. Artífice da vitória, arriscava-se a ser o responsável direto por uma previsível reação inglesa. Foi nesse momento que começou a se ver o dedo do técnico Felipão (veja matéria). Suspenso automaticamente da semifinal marcada para as 8 e meia desta quarta-feira, em Saitama, com o vencedor do jogo entre Senegal e Turquia, que seria disputado na manhã de sábado, Ronaldinho Gaúcho voltará ao time na última partida. Pode ser a grande decisão em Yokohama, no Japão, se o Brasil arrancar sua sexta vitória seguida, ou a indesejada disputa pelo terceiro lugar, em Daegu, na Coréia. Ou seja, a consagração definitiva na Copa ainda está ao alcance de seus pés.

Ronaldo Nazário e Rivaldo vivem uma outra situação. Na França, em 1998, apesar de alguns bons momentos, Rivaldo rendeu abaixo do esperado. Ronaldo, que parecia estar destinado a ser o grande nome da competição, pois fora eleito o melhor jogador do mundo, ficou marcado pela convulsão que sofreu horas antes da final perdida no Stade de France. Depois, passou por uma cirurgia no joelho e contusões que levantaram dúvidas sobre seu futuro. Eles ficaram carimbados pela imprensa e pelos torcedores. Rivaldo era o jogador que arrebentava no Barcelona e se apagava na seleção. Ronaldo virara o jogador bichado. "Por mais que eu faça em campo, vão sempre dizer que só jogo bem no meu clube", queixa-se interminavelmente Rivaldo em suas entrevistas. "Eu aprendi a conviver com o sofrimento", diz Ronaldo, que recuperou a alegria de jogar.

 
AP/Richard Lewis

Cafu afasta o perigo na frente do inglês Dyer: o capitão do Brasil foi quase perfeito

O casal de torcedores brasileiros se beija em Londres depois da vitória: para a história

Ronaldo está mais concentrado do que nunca para ganhar esta Copa. Aos amigos, tem dito que colocou esse objetivo na cabeça desde a derrota de 1998. Na França, chegou a alugar um casarão nos arredores de Paris para a família e os agregados. Saía com a então namorada, a modelo Susana Werner, em todas as folgas. Agora ele está sozinho com a seleção. Sua mulher, a ex-jogadora Milene, antiga rainha das embaixadas, só aparecerá no Japão se o Brasil for à final. Para não desviar sua atenção das partidas, Ronaldo deixou de falar com os repórteres no dia anterior aos jogos, quando a seleção costuma fazer o reconhecimento do gramado em que irá atuar. Na saída para a chamada zona mista – a área criada pela Fifa na Copa de 1994 para as entrevistas, nas quais a passagem de Ronaldo, sempre de boné, provoca tumultos e gritarias –, o assessor de imprensa Rodrigo Paiva segue ao seu lado, segurando-lhe o braço, para ajudá-lo a escapar dos microfones. "Não quero ser o artilheiro nem bater recordes", afirma. "Meu propósito é dar tudo o que eu sei e posso para o time ser campeão."

Rivaldo, que nunca conseguiu superar a própria timidez mas hoje se mostra um pouco mais desembaraçado ao falar para os jornalistas e atender torcedores, não esconde sua irritação quando lembram que foi considerado um dos culpados pelo fracasso da seleção brasileira nas Olimpíadas de 1996 ou que poderia ter jogado mais na Copa de 1998. "No passado, os jogadores se reuniam por até três meses nos preparativos da Copa", argumenta. "Durante as eliminatórias, o grupo inteiro ficava junto por várias semanas. Hoje a gente chega direto para jogar e, se alguma coisa não dá certo, nos crucificam." Outro assunto que o aborrece, há vários anos, é qualquer tipo de comparação com Ronaldo. "Somos jogadores de características diferentes", costuma dizer. O que ajudou Rivaldo a superar suas inibições e reencontrar seu futebol na seleção foi a confiança do técnico. Ele não esconde sua gratidão. "Logo que me convocou pela primeira vez tivemos um bom diálogo", conta. "Ele me chamou para uma conversa em particular e pediu que eu não me preocupasse com as críticas. Isso tem sido muito importante para minhas atuações na Copa. Todos nós estamos ganhando confiança a cada partida, e isso é que está por trás de nossas cinco vitórias."

 
AFP
AP
Beckham perde o jogo mas não a pose: o inglês saiu de campo aplaudido Oliver Khan, o melhor goleiro da Copa, é o trunfo da Alemanha. Aqui ele garante a vitória contra os EUA

Na Coréia e no Japão, Ronaldo e Rivaldo estão mostrando o que deles sempre se esperou. Por enquanto, cada um marcou cinco gols, em média um por jogo. Na segunda-feira, foram seus os gols na vitória de 2 a 0 sobre a Bélgica, pelas oitavas-de-final. Antes da rodada de sábado, eram os artilheiros do Mundial ao lado do alemão Klose. Juntos, somam dois terços dos gols brasileiros. Como Romário e Bebeto, os goleadores de 1994, eles se entendem dentro de campo – contra a Inglaterra, armaram uma bela tabela que quase redundou no primeiro gol –, mas, fora daí, cada um fica em seu canto. Ronaldo é amigo de Ronaldinho Gaúcho e de dois reservas: o atacante Kaká, uma espécie de protegido seu, e o goleiro Dida, com quem convive há muitos anos. Do grupo mais chegado a Rivaldo, fazem parte Roberto Carlos e Denilson, seus colegas no futebol espanhol. Sem ser amigos, estão com o foco dirigido para o mesmo ponto: a consagração pessoal. Um depende do outro, e o time depende dos dois. Se eles forem bem-sucedidos, no próximo domingo o Brasil será pentacampeão mundial.

 


Com reportagem de Sérgio Ruiz

   
 
   
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