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O dinheiro
de Santo André
Irmão
do ex-prefeito Celso Daniel diz para
promotores que um esquema de propina foi
parar nas mãos da cúpula do PT
Dida Sampaio/AE
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Luiz Carlos Murauskas/Folha Imagem
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Dirceu
(à esq.), sobre as acusações do irmão
do prefeito (à dir.): "Cabe à Justiça
comprovar as
denúncias"
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Veja também |
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Após
cinco meses de trabalho, uma equipe de promotores de Santo André,
cidade da região do ABC paulista, desvendou um esquema de cobrança
de propina que envolvia funcionários da prefeitura local, que é
comandada pelo PT. Na última semana, a investigação
transbordou os limites do município e virou assunto nacional depois
que surgiram indicações de que parte do dinheiro arrecadado
de forma criminosa junto a empresários locais pode ter financiado
campanhas de candidatos do partido. Mais grave: de acordo com um dos depoimentos
colhidos pelos promotores, o montante coletado ilegalmente em Santo André
teria sido entregue ao deputado federal José Dirceu, presidente
do PT e coordenador da campanha de Lula. O esquema teria arrecadado 1,2
milhão de reais no ano passado. Quem apontou para a existência
de um dinheiroduto que arrecadava recursos em Santo André e o entregava
a caciques petistas foi o médico João Francisco Daniel,
irmão do ex-prefeito da cidade Celso Daniel, assassinado em janeiro.
De acordo com o relato de Francisco Daniel aos promotores, seu irmão
tinha conhecimento da extorsão. Ainda segundo Francisco Daniel,
tanto a campanha da prefeita Marta Suplicy, de São Paulo, quanto
a atual campanha de Lula receberam recursos oriundos do esquema. "O PT
é igual aos outros. Age igual nas eleições, com caixa
dois, no esquema de arrecadação", afirma o médico.
José Luis da Conceição/Ag. Estado

Celso
Daniel: o amigo na mira |
Entre as
prefeituras do PT, Santo André não é um município
qualquer. A cidade está entre as 25 maiores do Brasil. Foi na região
que nasceram o PT e a CUT e que Lula começou sua carreira política.
Além desse aspecto simbólico, Santo André sempre
foi considerada uma vitrine da administração petista. Os
projetos administrativos desenvolvidos no município servem de referência
para as prefeituras do partido espalhadas pelo Brasil. As primeiras suspeitas
de que havia algo de errado atrás da cidade-modelo surgiram após
o assassinato do ex-prefeito Celso Daniel, ocorrido durante um seqüestro.
Num primeiro momento, a polícia chegou a investigar Sérgio
Gomes da Silva, o empresário que dirigia o carro que levava Celso
Daniel na hora do seqüestro, para verificar se ele teria alguma conexão
com o crime. Sérgio tinha sido segurança do ex-prefeito.
Depois, tornou-se seu amigo íntimo. Havia denúncias de que
ele enriquecera rapidamente mantendo negócios ilegais com a prefeitura.
Nada foi apurado contra ele no caso do assassinato. Ao fim da investigação,
a polícia concluiu que se tratava de um seqüestro comum.
No caso
da cobrança de propina que se investiga agora, a situação
de Sérgio Gomes da Silva ficou diferente. Na semana passada, ele
foi apontado pelo Ministério Público como o chefe da quadrilha
que tomava dinheiro de empresas de ônibus de Santo André.
O médico Francisco Daniel disse que, em virtude de seu parentesco
com o prefeito, foi procurado por um empresário que reclamava de
achaques praticados por Sérgio Gomes da Silva. Segundo seu relato,
um empresário do setor de ônibus contou a ele ter sido obrigado
a aceitar um acordo para pagar 40.000 reais
por mês. Francisco Daniel pediu ao irmão que agendasse um
encontro entre o empresário e o setor de transportes da prefeitura.
Mais tarde, em um encontro informal, o ex-secretário de Comunicação
da prefeitura, Gilberto Carvalho, teria explicado a ele como funcionava
o esquema. "Ele disse que o dinheiro da propina era todo para fazer a
campanha do partido", conta o médico. O irmão do ex-prefeito
relatou aos promotores detalhes de conversa que teria tido com a ex-mulher
do prefeito, Miriam. "Ela me disse que Celso sempre soube de tudo, mas
tolerava porque se tratava de arrecadação para campanha."
A ex-mulher teria revelado uma mudança no humor do prefeito em
relação a esse assunto. "Quando ele descobriu que o dinheiro
estava enriquecendo seus colaboradores, disse que tomaria providência",
contou.
Armando Favaro/AE

Sérgio
Gomes: enriquecimento rápido e influência no governo petista |
No meio da
tempestade causada pelas denúncias contra o PT, seu presidente,
José Dirceu, qualificou as acusações de "caluniosas"
e declarou-se "tranqüilo, sereno e absolutamente inocente". Lula
não teve a mesma serenidade do colega petista. "As denúncias
fazem parte do esquema de terrorismo do próprio governo contra
o processo eleitoral brasileiro", disse o candidato. Talvez fosse mais
adequado considerar o caso ainda prematuro e evitar acusar o governo pelas
denúncias partidas de Santo André, até mesmo por
uma questão de bom senso. Afinal, é hábito dos políticos
acusar sempre os adversários de complô quando alguma coisa
aparece contra eles ou seu partido.
A ligação
da propina com a cúpula do PT é uma conclusão que,
por enquanto, se baseia apenas na declaração do irmão
de Celso Daniel. Francisco Daniel não tem prova do que afirmou.
Ele contou ao Ministério Público aquilo que teria ouvido
de pessoas próximas ao prefeito assassinado. Quanto ao esquema
de recolhimento das propinas, os promotores reuniram provas contundentes.
O dono de uma empresa de ônibus confirmou em seu depoimento que
pagava uma caixinha, entregou documentos com detalhes do funcionamento
do caixa dois das empresas de ônibus e revelou o nome de todos os
participantes do esquema. Com base nessas informações, os
promotores pediram a prisão de seis acusados. A nova tarefa é
buscar evidências para confirmar ou não as denúncias
feitas por Francisco Daniel sobre a conexão nacional do crime.
Na quinta-feira, as duas pessoas que teriam dado detalhes sobre o esquema
a Francisco Daniel negaram tudo. A ex-mulher do prefeito, Miriam Belchior,
e o ex-secretário de Comunicação da prefeitura, Gilberto
Carvalho, assinaram uma nota conjunta em que acusam Francisco Daniel de
representar interesses de empresários de ônibus.
Rogério Monteiro

O prefeito
Palocci: molho de tomate com ervilha |
O PT é
o partido que mais cresceu no Brasil nas últimas eleições.
Na propaganda petista na TV, o locutor repete a todo instante que um em
cada quatro brasileiros vive sob administração petista.
Metade das cidades com mais de 200.000 eleitores
está experimentando um governo do PT e cinco Estados são
governados por petistas. Um dos pontos mais repetidos no discurso petista
é a honestidade dos integrantes do partido. O PT, de fato, conseguiu
por muito tempo um índice superior ao dos outros partidos nesse
item, especialmente nos tempos em que estava só na oposição.
Mas o processo de expansão acelerada da legenda, com a conquista
de câmaras, prefeituras e até de governos, encarregou-se
de providenciar vários casos de corrupção sob o guarda-chuva
petista. No mês passado, a Justiça cancelou uma licitação
de 1,2 milhão de reais para a compra de cestas básicas na
cidade de Ribeirão Preto, governada pelo prefeito Antônio
Palocci, um dos coordenadores da campanha de Lula. O edital exigia que
entre os produtos da cesta constasse um "extrato de tomate peneirado com
ervilha". Investigações demonstraram que apenas uma companhia,
gaúcha, produzia o tal extrato. Com a licitação suspensa,
a prefeitura realizou compras de emergência sem concorrência
pública, que também estão sendo investigadas por
ordem da Justiça. A empresa que vendeu os produtos fica em Santo
André, e há a suspeita de que ela participe de um cartel
formado para fraudar licitações em Ribeirão Preto.
Em Mato Grosso do Sul, dois secretários do governador Zeca do PT
foram acusados de desviar recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador e
se demitiram. No Rio Grande do Sul, uma CPI acusou o governador Olívio
Dutra de ter sido conivente com um esquema de arrecadação
ilegal de fundos para o PT. O Ministério Público de Brasília
investiga se o ex-governador do Distrito Federal Cristovam Buarque recebeu
fundos arrecadados ilegalmente para fazer sua campanha em 1998.
Há
uma coisa que faz um caso de corrupção no PT se tornar especial.
O partido costuma falar muito alto quando o assunto é maracutaia
na casa dos outros. Na semana passada, viu-se que, sob os holofotes, os
dirigentes petistas apelam para a desqualificação do trabalho
de investigação, estratégia que o PT sempre combateu:
"Há nítidos indícios de que a maneira pela qual foi
conduzida a investigação em pauta e a divulgação
da mesma têm objetivos flagrantemente políticos de macular
lideranças do PT e seu presidente nacional, José Dirceu,
em um momento em que o Partido dos Trabalhadores se converte na grande
alternativa de mudança de que o Brasil necessita".
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