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É justo colocarem
o Brasil
neste clube?
O mercado
vive mais uma semana
negra, as agências de risco enxergam
um Brasil pior que a Nigéria e até agora
não há calmaria à vista
Denise Ramiro

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O descompasso
entre o Brasil real e seu horroroso clone financeiro chegou ao ponto máximo
na semana passada. O dólar atingiu a cotação mais
alta nos oito anos de governo Fernando Henrique Cardoso, batendo em 2,84
reais, altitude que só visitara nos dias que se seguiram aos atentados
terroristas contra os Estados Unidos em setembro do ano passado. Outro
indicador de desconfiança, o risco país, calculado pelo
banco americano JP Morgan, chegou a 1.706 pontos
colocando o Brasil atrás apenas da falida Argentina como
o país de condições econômicas mais arriscadas
do planeta. A casa dos 1.700 pontos tem também
um componente psicológico perturbador. Pouco antes de o governo
ser obrigado a liberar o câmbio em janeiro de 1999, o risco Brasil
chegou a seu máximo de 1.770 pontos.
Imaginar que se vive agora uma situação de ruptura como
a que levou à flutuação a cotação do
dólar é um evidente exagero. Mas os indicadores da semana
passada são bastante compreensíveis no atual estado de catastrofismo
que domina os mercados.
Na
sexta-feira, o ministro da Fazenda, Pedro Malan, e o presidente do Banco
Central, Armínio Fraga, almoçaram com banqueiros em São
Paulo, dando início a uma ofensiva pessoal para convencer o mercado
de que os fundamentos da economia brasileira são sólidos.
Por enquanto, a iniciativa não deu resultados visíveis.
Como não deram anteriormente as intervenções do Banco
Central no mercado de câmbio nem a liberação dos 10
bilhões de dólares pelo Fundo Monetário Internacional
(FMI). "Se essa situação perdurar mais alguns dias, não
vejo outra saída senão o anúncio de um pacto de governabilidade
entre os candidatos à Presidência da República", diz
o economista Carlos Geraldo Langoni, ex-presidente do Banco Central. Até
as pedras sabem que a crise financeira que vem atemorizando o Brasil é
provocada pelo descasamento entre a realidade econômica e a idéia
que os investidores andam fazendo dela, à luz das pesquisas eleitorais.
Isso provoca distorções que, numa situação
normal, ficariam evidentes. Quando se compara a evolução
do risco país com o valor dos papéis da dívida do
Brasil e da Argentina, por exemplo, fica claro que esses indicadores medem
mesmo é a disposição psicológica dos mercados.
"Um ano antes de quebrar, a Argentina era avaliada pelo mercado pelo dobro
do que valia. Hoje, o Brasil está sendo avaliado pela metade do
que deveria", diz o economista Roberto Gianetti da Fonseca.
Patricia Santos/Folha Imagem

Ciro
Gomes foi o único candidato a melhorar nas pesquisas na semana passada
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Colocar
o Brasil atrás da Nigéria em qualquer ranking econômico
é injusto. O produto interno bruto do Brasil é dezessete
vezes maior que o da Nigéria. A renda per capita dos brasileiros
é de 3.400 dólares, contra ínfimos
260 dólares dos africanos. Também na questão social,
as diferenças são gritantes. O índice de mortalidade
infantil na Nigéria é o dobro do brasileiro e a taxa de
analfabetismo do país africano é quase o triplo. O Brasil
vive um regime democrático sólido, ao contrário da
Nigéria. O país africano está envolvido em guerras
civis e metido em um gravíssimo quadro de corrupção
e conflitos étnicos. A turbulência da semana passada no Brasil
aconteceu sem nenhum fato retumbante para abalar os ânimos. O Banco
Central manteve os juros básicos do país em 18,5%, como
a maioria dos analistas esperava. Uma nova pesquisa eleitoral mostrou
um quadro praticamente inalterado em relação à semana
anterior. Luís Inácio Lula da Silva, o atual bicho-papão
dos mercados, ficou estável, com 38% das intenções
de voto. José Serra, que é visto como o candidato da continuidade
da atual política monetária, também estacionou em
seus 19%. Como novidade, apenas uma leve subida de Ciro Gomes de 9% para
11%. Ou seja, nada que justificasse as ondas de choque que deixaram os
mercados à beira de um colapso na sexta-feira passada.
O comportamento
do mercado está disparatado. Os fundamentos da economia são
muito mais consistentes hoje do que eram três anos atrás.
A inflação está controlada. Em maio, o IPCA, índice
oficial utilizado pelo governo, ficou em apenas 0,2%, contra 0,8% do mês
anterior. O Brasil vem cumprindo as metas fiscais com o FMI com folga.
O emprego industrial no país cresceu 6% em abril, na comparação
com igual período de 2001, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia
e Estatística (IBGE). Não há razão, portanto,
para tanta histeria. Mas também é fato que ela está
aí. "O nervosismo é psicológico, mas ele tem de ceder,
senão pode virar realidade, uma profecia auto-realizável",
diz Odair Abate, economista-chefe do Lloyds TSB. Segundo Abate, quanto
mais tempo a crise se mantiver em seu estado agudo, mais difícil
será para o Brasil escapar de seus efeitos. Os títulos do
governo vão ficando cada dia menos palatáveis. Da mesma
forma, enquanto a tempestade não passar, será quase impossível
para o Banco Central reduzir os juros no país e dar uma folga para
a economia crescer.
Tasso Marcelo/AE

José
Serra bate bola com meninos numa favela carioca: quando ele não cresce,
o mercado reage mal |
Teme-se que o mercado entre naquele conhecido e temido círculo
vicioso de pavor e correria. Na quinta-feira, esse efeito realimentador
teve mais impulsos negativos. Duas das maiores agências avaliadoras
de risco, a Moody's e a Fitch IBCA, referendaram o pessimismo do mercado
e reavaliaram para pior a classificação do Brasil. É
uma inversão preocupante. Em geral, o que ocorre é o oposto:
o mercado reage às decisões dessas agências, tomadas
quase sempre em função dos fundamentos da economia de determinado
país. Dessa vez, elas se mexeram depois dos mercados. Mas na mesma
direção. Na semana passada, o Brasil já começou
a ser apontado, ao lado da Argentina, como a razão da desestabilização
de outros países. Pressionado de um lado pela Argentina e do outro
pelo Brasil, o Uruguai não teve alternativa e decidiu adotar a
livre flutuação do câmbio justamente na quinta-feira
negra. Há vinte anos, as cotações do dólar
no Uruguai eram controladas por um sistema de bandas determinadas diariamente.
Mas, com a desvalorização das moedas do Brasil e da Argentina,
seus principais parceiros comerciais, esse regime passou a ser inviável.
O Uruguai tornou-se dessa forma, desde 1999, a sexta economia sul-americana
a abandonar o controle cambial.
Na mesma
quinta-feira nebulosa que atormentou o mercado brasileiro, o peso mexicano
atingiu o maior nível de desvalorização em dezoito
meses. Os motivos alegados foram a preocupação com o Brasil,
a crise na Argentina e a lenta recuperação da economia dos
Estados Unidos. O que esperar para as próximas semanas? Os analistas
dizem que o coração da turbulência continua sendo
a incerteza política e que o mercado ainda espera a divulgação
dos programas de governo dos partidos, principalmente o do líder
das pesquisas, Lula. Acredita-se que ajudaria a desanuviar a crise a indicação
pelo PT dos nomes de quem poderia assumir postos-chave no Ministério
da Fazenda e no Banco Central a partir do ano que vem, num eventual governo
petista. Mas ninguém espera calmaria. A volatilidade vai continuar.
O Banco Central tem feito o que manda o receituário clássico
para amenizar esse quadro. Está encurtando o prazo dos títulos
públicos oferecidos ao mercado, atendendo à demanda dos
investidores que preferem trocar segurança por uma liquidez maior.
Há duas semanas, o BC aumentou a munição disponível
contra a especulação com dólar, ao anunciar que vai
sacar, ainda neste mês, 10 bilhões de dólares de uma
linha de crédito que tem com o FMI. Também decidiu ampliar
a meta de superávit fiscal para este ano de 3,5% para 3,75% do
PIB. Aumentou ainda o recolhimento compulsório dos depósitos
a prazo das instituições financeiras, que desde a última
segunda-feira passou de 10% para 15%. O Banco Central tem mais bala na
agulha? Armínio Fraga, presidente do BC, não tem dúvida:
"Quem apostar que não tem vai perder".
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