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Edição 1 757 - 26 de junho de 2002
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É justo colocarem o Brasil
neste clube?

O mercado vive mais uma semana
negra, as agências de risco enxergam
um Brasil pior que a Nigéria e até agora
não há calmaria à vista

Denise Ramiro


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O descompasso entre o Brasil real e seu horroroso clone financeiro chegou ao ponto máximo na semana passada. O dólar atingiu a cotação mais alta nos oito anos de governo Fernando Henrique Cardoso, batendo em 2,84 reais, altitude que só visitara nos dias que se seguiram aos atentados terroristas contra os Estados Unidos em setembro do ano passado. Outro indicador de desconfiança, o risco país, calculado pelo banco americano JP Morgan, chegou a 1.706 pontos – colocando o Brasil atrás apenas da falida Argentina como o país de condições econômicas mais arriscadas do planeta. A casa dos 1.700 pontos tem também um componente psicológico perturbador. Pouco antes de o governo ser obrigado a liberar o câmbio em janeiro de 1999, o risco Brasil chegou a seu máximo de 1.770 pontos. Imaginar que se vive agora uma situação de ruptura como a que levou à flutuação a cotação do dólar é um evidente exagero. Mas os indicadores da semana passada são bastante compreensíveis no atual estado de catastrofismo que domina os mercados.

Na sexta-feira, o ministro da Fazenda, Pedro Malan, e o presidente do Banco Central, Armínio Fraga, almoçaram com banqueiros em São Paulo, dando início a uma ofensiva pessoal para convencer o mercado de que os fundamentos da economia brasileira são sólidos. Por enquanto, a iniciativa não deu resultados visíveis. Como não deram anteriormente as intervenções do Banco Central no mercado de câmbio nem a liberação dos 10 bilhões de dólares pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). "Se essa situação perdurar mais alguns dias, não vejo outra saída senão o anúncio de um pacto de governabilidade entre os candidatos à Presidência da República", diz o economista Carlos Geraldo Langoni, ex-presidente do Banco Central. Até as pedras sabem que a crise financeira que vem atemorizando o Brasil é provocada pelo descasamento entre a realidade econômica e a idéia que os investidores andam fazendo dela, à luz das pesquisas eleitorais. Isso provoca distorções que, numa situação normal, ficariam evidentes. Quando se compara a evolução do risco país com o valor dos papéis da dívida do Brasil e da Argentina, por exemplo, fica claro que esses indicadores medem mesmo é a disposição psicológica dos mercados. "Um ano antes de quebrar, a Argentina era avaliada pelo mercado pelo dobro do que valia. Hoje, o Brasil está sendo avaliado pela metade do que deveria", diz o economista Roberto Gianetti da Fonseca.

 
Patricia Santos/Folha Imagem

Ciro Gomes foi o único candidato a melhorar nas pesquisas na semana passada

Colocar o Brasil atrás da Nigéria em qualquer ranking econômico é injusto. O produto interno bruto do Brasil é dezessete vezes maior que o da Nigéria. A renda per capita dos brasileiros é de 3.400 dólares, contra ínfimos 260 dólares dos africanos. Também na questão social, as diferenças são gritantes. O índice de mortalidade infantil na Nigéria é o dobro do brasileiro e a taxa de analfabetismo do país africano é quase o triplo. O Brasil vive um regime democrático sólido, ao contrário da Nigéria. O país africano está envolvido em guerras civis e metido em um gravíssimo quadro de corrupção e conflitos étnicos. A turbulência da semana passada no Brasil aconteceu sem nenhum fato retumbante para abalar os ânimos. O Banco Central manteve os juros básicos do país em 18,5%, como a maioria dos analistas esperava. Uma nova pesquisa eleitoral mostrou um quadro praticamente inalterado em relação à semana anterior. Luís Inácio Lula da Silva, o atual bicho-papão dos mercados, ficou estável, com 38% das intenções de voto. José Serra, que é visto como o candidato da continuidade da atual política monetária, também estacionou em seus 19%. Como novidade, apenas uma leve subida de Ciro Gomes de 9% para 11%. Ou seja, nada que justificasse as ondas de choque que deixaram os mercados à beira de um colapso na sexta-feira passada.

O comportamento do mercado está disparatado. Os fundamentos da economia são muito mais consistentes hoje do que eram três anos atrás. A inflação está controlada. Em maio, o IPCA, índice oficial utilizado pelo governo, ficou em apenas 0,2%, contra 0,8% do mês anterior. O Brasil vem cumprindo as metas fiscais com o FMI com folga. O emprego industrial no país cresceu 6% em abril, na comparação com igual período de 2001, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Não há razão, portanto, para tanta histeria. Mas também é fato que ela está aí. "O nervosismo é psicológico, mas ele tem de ceder, senão pode virar realidade, uma profecia auto-realizável", diz Odair Abate, economista-chefe do Lloyds TSB. Segundo Abate, quanto mais tempo a crise se mantiver em seu estado agudo, mais difícil será para o Brasil escapar de seus efeitos. Os títulos do governo vão ficando cada dia menos palatáveis. Da mesma forma, enquanto a tempestade não passar, será quase impossível para o Banco Central reduzir os juros no país e dar uma folga para a economia crescer.


Tasso Marcelo/AE

José Serra bate bola com meninos numa favela carioca: quando ele não cresce, o mercado reage mal


Teme-se que o mercado entre naquele conhecido e temido círculo vicioso de pavor e correria. Na quinta-feira, esse efeito realimentador teve mais impulsos negativos. Duas das maiores agências avaliadoras de risco, a Moody's e a Fitch IBCA, referendaram o pessimismo do mercado e reavaliaram para pior a classificação do Brasil. É uma inversão preocupante. Em geral, o que ocorre é o oposto: o mercado reage às decisões dessas agências, tomadas quase sempre em função dos fundamentos da economia de determinado país. Dessa vez, elas se mexeram depois dos mercados. Mas na mesma direção. Na semana passada, o Brasil já começou a ser apontado, ao lado da Argentina, como a razão da desestabilização de outros países. Pressionado de um lado pela Argentina e do outro pelo Brasil, o Uruguai não teve alternativa e decidiu adotar a livre flutuação do câmbio justamente na quinta-feira negra. Há vinte anos, as cotações do dólar no Uruguai eram controladas por um sistema de bandas determinadas diariamente. Mas, com a desvalorização das moedas do Brasil e da Argentina, seus principais parceiros comerciais, esse regime passou a ser inviável. O Uruguai tornou-se dessa forma, desde 1999, a sexta economia sul-americana a abandonar o controle cambial.

Na mesma quinta-feira nebulosa que atormentou o mercado brasileiro, o peso mexicano atingiu o maior nível de desvalorização em dezoito meses. Os motivos alegados foram a preocupação com o Brasil, a crise na Argentina e a lenta recuperação da economia dos Estados Unidos. O que esperar para as próximas semanas? Os analistas dizem que o coração da turbulência continua sendo a incerteza política e que o mercado ainda espera a divulgação dos programas de governo dos partidos, principalmente o do líder das pesquisas, Lula. Acredita-se que ajudaria a desanuviar a crise a indicação pelo PT dos nomes de quem poderia assumir postos-chave no Ministério da Fazenda e no Banco Central a partir do ano que vem, num eventual governo petista. Mas ninguém espera calmaria. A volatilidade vai continuar. O Banco Central tem feito o que manda o receituário clássico para amenizar esse quadro. Está encurtando o prazo dos títulos públicos oferecidos ao mercado, atendendo à demanda dos investidores que preferem trocar segurança por uma liquidez maior. Há duas semanas, o BC aumentou a munição disponível contra a especulação com dólar, ao anunciar que vai sacar, ainda neste mês, 10 bilhões de dólares de uma linha de crédito que tem com o FMI. Também decidiu ampliar a meta de superávit fiscal para este ano de 3,5% para 3,75% do PIB. Aumentou ainda o recolhimento compulsório dos depósitos a prazo das instituições financeiras, que desde a última segunda-feira passou de 10% para 15%. O Banco Central tem mais bala na agulha? Armínio Fraga, presidente do BC, não tem dúvida: "Quem apostar que não tem vai perder".


 
 
   
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