Publicidade
buscas
cidades PROGRAME-SE
Edição 1 757 - 26 de junho de 2002
Diogo Mainardi

estasemana
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Índice
Seções
Brasil
Internacional
Geral
Guia
Artes e Espetáculos

colunas
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Stephen Kanitz
Sérgio Abranches
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo

seções
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Carta ao leitor
Entrevista

Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Arc
Gente
Datas

Para usar
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos

arquivoVEJA
(conteúdo exclusivo para assinantes VEJA ou UOL)
Arquivo 1997-2002
Reportagens de capa
2000|2001|2002
Entrevistas
2000|2001|2002
Busca somente texto
96|97|98|99|00|01|02


Crie seu grupo




 

A nossa bandeira

"Gosto da bandeira brasileira. É a
mais pitoresca do mundo, junto com
a do Nepal. Só a faixinha branca é feia,
com aquele militaresco 'Ordem e
Progresso'. Mas o lema é representativo"

Nunca assisti ao programa do Ratinho. Mas a empregada de meu pai assiste. Ela contou que o Ratinho se queixou de meu artigo sobre o Hino Nacional, publicado na semana retrasada. Mais de 400 pessoas mandaram cartinhas para VEJA, protestando energicamente contra o mesmo artigo. E ainda dizem que o brasileiro é pouco patriótico. E que sofre de baixa auto-estima. E que é irreverente.

Uma boa resposta a Ratinho e aos mais de 400 leitores seria bater em outro símbolo nacional: a bandeira. O problema é que eu gosto de nossa bandeira. É a mais pitoresca do mundo, junto com a do Nepal e, talvez, a de Antígua e Barbuda. Foi criada depois do advento da República, mas se inspira na antiga bandeira do império, desenhada pelo francês Jean-Baptiste Debret, que chegou ao Brasil em 1816, com a tarefa de pintar as belezas do país. Foi exatamente o que ele fez. Pintou negros que pedem esmolas, negros que transportam brancos em liteiras, negros que apanham de palmatória, negros açoitados no pelourinho, negros vendidos como escravos. Os republicanos enfearam a bandeira de Debret, acrescentando a faixinha branca com aquele militaresco "Ordem e Progresso". Mas o lema é perfeitamente representativo do espírito nacional, sempre pronto a apoiar a primeira quartelada que fecha o Congresso e manda todos os antipatriotas para o exílio. De fato, o site oficial do Exército brasileiro reconstrói da seguinte maneira nosso último golpe militar: "Eufórico, o povo vibrou nas ruas com a prevalência da democracia, restabelecida com a vitória do movimento de março de 1964". Um curioso conceito de democracia.

A bandeira nacional foi projetada por Teixeira Mendes e Miguel Lemos. Eles eram positivistas. Daí o "Ordem e Progresso". Miguel Lemos chegou a fundar a Igreja Positivista do Brasil. Existe até hoje, com sede no Rio de Janeiro. O secretário-geral é Danton Voltaire Pereira de Souza. Seu nome é muito apropriado. O positivismo brasileiro sempre conservou suas raízes francesas, rejeitando a influência dos Estados Unidos. Para a Igreja Positivista do Brasil, Paris é a "cidade sagrada", onde morou o fundador do positivismo, Auguste Comte. O "apartamento sagrado" de Comte, situado à Rua Monsieur Le Prince, 10, 3° andar, é meta de peregrinação dos positivistas brasileiros. Os fiéis da Igreja Positivista do Brasil costumam reunir-se aos domingos, no Templo da Humanidade. Escutam prédicas e máximas positivistas, como "A mulher deve ser posta ao abrigo das necessidades materiais para que se possa dedicar às atividades próprias do lar". Antes disso, hasteiam a bandeira ao som do hino da bandeira e da Marselhesa, o hino francês. Pode parecer contraditório que a igreja fundada pelo idealizador de um dos maiores símbolos nacionais, a bandeira, cultue o hino de um país estrangeiro. Mas o Brasil é assim: todos os nossos movimentos nacionalistas tiveram origem no exterior, tanto na política quanto na cultura. O pior é que essas idéias sempre chegaram meio deturpadas, meio transviadas. Como o positivismo, que em nenhum lugar do mundo foi levado muito a sério, mas que no Brasil virou religião.

É bom desconfiar de quem se diz patriota. Assim como é bom desconfiar de quem se diz democrático. Aliás, desconfie de tudo.

 
 
   
  voltar
   
  NOTÍCIAS DIÁRIAS