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A
nossa bandeira
"Gosto
da bandeira brasileira. É a
mais pitoresca do mundo, junto com
a do Nepal. Só a faixinha branca é feia,
com aquele militaresco 'Ordem e
Progresso'. Mas o lema é representativo"
Nunca assisti ao programa do Ratinho. Mas a empregada de meu pai assiste.
Ela contou que o Ratinho se queixou de meu artigo sobre o Hino Nacional,
publicado na semana retrasada. Mais de 400 pessoas mandaram cartinhas
para VEJA, protestando energicamente contra o mesmo artigo. E ainda dizem
que o brasileiro é pouco patriótico. E que sofre de baixa
auto-estima. E que é irreverente.
Uma boa resposta a Ratinho e aos mais de 400 leitores seria bater em outro
símbolo nacional: a bandeira. O problema é que eu gosto
de nossa bandeira. É a mais pitoresca do mundo, junto com a do
Nepal e, talvez, a de Antígua e Barbuda. Foi criada depois do advento
da República, mas se inspira na antiga bandeira do império,
desenhada pelo francês Jean-Baptiste Debret, que chegou ao Brasil
em 1816, com a tarefa de pintar as belezas do país. Foi exatamente
o que ele fez. Pintou negros que pedem esmolas, negros que transportam
brancos em liteiras, negros que apanham de palmatória, negros açoitados
no pelourinho, negros vendidos como escravos. Os republicanos enfearam
a bandeira de Debret, acrescentando a faixinha branca com aquele militaresco
"Ordem e Progresso". Mas o lema é perfeitamente representativo
do espírito nacional, sempre pronto a apoiar a primeira quartelada
que fecha o Congresso e manda todos os antipatriotas para o exílio.
De fato, o site oficial do Exército brasileiro reconstrói
da seguinte maneira nosso último golpe militar: "Eufórico,
o povo vibrou nas ruas com a prevalência da democracia, restabelecida
com a vitória do movimento de março de 1964". Um curioso
conceito de democracia.
A bandeira nacional foi projetada por Teixeira Mendes e Miguel Lemos.
Eles eram positivistas. Daí o "Ordem e Progresso". Miguel Lemos
chegou a fundar a Igreja Positivista do Brasil. Existe até hoje,
com sede no Rio de Janeiro. O secretário-geral é Danton
Voltaire Pereira de Souza. Seu nome é muito apropriado. O positivismo
brasileiro sempre conservou suas raízes francesas, rejeitando a
influência dos Estados Unidos. Para a Igreja Positivista do Brasil,
Paris é a "cidade sagrada", onde morou o fundador do positivismo,
Auguste Comte. O "apartamento sagrado" de Comte, situado à Rua
Monsieur Le Prince, 10, 3° andar, é meta de peregrinação
dos positivistas brasileiros. Os fiéis da Igreja Positivista do
Brasil costumam reunir-se aos domingos, no Templo da Humanidade. Escutam
prédicas e máximas positivistas, como "A mulher deve ser
posta ao abrigo das necessidades materiais para que se possa dedicar às
atividades próprias do lar". Antes disso, hasteiam a bandeira ao
som do hino da bandeira e da Marselhesa, o hino francês.
Pode parecer contraditório que a igreja fundada pelo idealizador
de um dos maiores símbolos nacionais, a bandeira, cultue o hino
de um país estrangeiro. Mas o Brasil é assim: todos os nossos
movimentos nacionalistas tiveram origem no exterior, tanto na política
quanto na cultura. O pior é que essas idéias sempre chegaram
meio deturpadas, meio transviadas. Como o positivismo, que em nenhum lugar
do mundo foi levado muito a sério, mas que no Brasil virou religião.
É
bom desconfiar de quem se diz patriota. Assim como é bom desconfiar
de quem se diz democrático. Aliás, desconfie de tudo.
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