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Edição 1 757 - 26 de junho de 2002
Entrevista: Michael Dell

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O mago do
computador

O dono da maior empresa de PCs
do mundo fala de novidades e dá
dicas para o Brasil se tornar uma
plataforma de exportação

Eduardo Salgado

 
Divulgação

"Não sei se todos precisam. Mas estou certo de que todo mundo vai querer comprar os equipamentos sem fio"

O americano Michael Dell fundou a Dell Computer Corporation em 1984, aos 20 anos, com o investimento de míseros 1.000 dólares. Hoje comanda um império que fatura 31,2 bilhões de dólares por ano, valor comparável ao PIB de um país pequeno, como o Marrocos. Membro do Conselho para a Ciência e Tecnologia, órgão ligado diretamente ao presidente americano, Dell está na lista dos executivos mais influentes dos Estados Unidos organizada pela revista Time e pelo canal de televisão CNN. Graças a suas seis fábricas de computadores, uma delas no Brasil, ele é hoje o mais rico entre os americanos com menos de 40 anos. Com uma fortuna avaliada em 11 bilhões de dólares, está colocado em 18º lugar no ranking mundial dos bilionários. Mesmo com a responsabilidade de administrar 34 800 funcionários, aos 37 anos Dell não perdeu o ar jovial. Pratica esportes e dá risadas quando se entusiasma com a conversa. Casado com Susan e pai de quatro filhos, falou a VEJA da sede da empresa em Round Rock, no Estado do Texas, por videoconferência.  

Veja – As vendas de computadores pessoais caíram de 130 milhões em 2000 para 125 milhões no ano passado. Por quê?
Dell – Não podemos esquecer que as maiores economias do mundo estavam em desaceleração. No ano passado, o volume de produção do setor caiu 5%. A Dell, graças a sua estratégia de negócio, conseguiu crescer 15%. Os maiores compradores de computadores são as empresas, que são extremamente sensíveis aos altos e baixos da economia. Quando os negócios vão mal, adiam investimentos. Isso afeta em particular o setor de tecnologia da informação. Por outro lado, no longo prazo, estamos tranqüilos. A base da produtividade são os investimentos em tecnologia da informação. Ou as empresas colocam dinheiro nos equipamentos ou perdem espaço.

Veja – Em quanto tempo um PC fica velho e precisa ser trocado por um novo?
Dell – Isso é tremendamente relativo. Para quem está no mercado financeiro, o computador fica obsoleto exatamente no momento em que um novo é lançado. O sucesso dos profissionais dessa área depende dos equipamentos que usam. Qualquer coisa abaixo do melhor desempenho possível é péssima. Para os usuários comuns e empresas de outros setores da economia talvez não seja tão premente estar sempre com os computadores mais modernos. O ciclo de substituição nas empresas continua sendo de cerca de três anos. Para quem tem computador em casa, ele é um pouco mais longo. O que acontece é que novos programas vão sendo desenvolvidos e exigindo máquinas de melhor desempenho. Com o tempo, a necessidade de trocar de computador acaba aparecendo. Mas tudo se resume aos anseios de cada um, ao que cada pessoa quer de sua máquina. Os equipamentos sem fio devem fazer com que muita gente decida comprar um novo computador.  

Veja – O futuro é dos equipamentos sem fio?
Dell – Eles são uma tendência, com certeza. Teremos também maior ênfase no desenvolvimento da capacidade de armazenagem e da velocidade. Nos últimos anos, apenas as maiores companhias tiveram dinheiro e condições para comprar servidores de alto desempenho e com grande poder de armazenagem. Isso está mudando. As pequenas empresas estão começando a ter acesso a essas vantagens. Esse fator pode parecer irrelevante, mas não é. Será um dos grandes propulsores da economia.

Veja – E o que mudará para as pessoas que têm computador em casa?
Dell – As vantagens serão na mesma direção. Com a internet, aumentou a demanda por computadores capazes de armazenar arquivos pesados com várias imagens. Hoje as pessoas querem cores, sons, fotografias. Com a queda no preço dos equipamentos, mais e mais gente terá acesso a isso. A velocidade é outro fator importantíssimo. Um computador comum há três ou quatro anos tinha 200 MHz. Hoje o mercado oferece 2,4 GHz. Essa mudança deixou os computadores quinze vezes mais rápidos. Os usuários podem mexer em fotos digitais de qualidade muito maior.

Veja – Quais são as vantagens dos equipamentos sem fio para os usuários comuns?
Dell – A tecnologia sem fio permite que as pessoas levem suas informações a qualquer lugar. Um dos usos mais populares dessa tecnologia nos Estados Unidos é a chamada rede local. São empresas, escolas, universidades, aeroportos, cafés e hotéis que permitem que se usem impressoras ou se tenha acesso à internet sem utilizar cabos. Ou seja, uma pessoa chega ao aeroporto, senta-se em qualquer lugar, liga seu laptop e tem acesso à internet. Um vendedor ou executivo vai a uma reunião fora da empresa e usa seu laptop sem fio para acessar o banco de dados de sua companhia. Outro uso da tecnologia é o serviço de longo alcance, com aparelhos como celulares acoplados a computadores. Esse sistema é um pouco mais lento, mas pode ser acessado de qualquer lugar.

Veja – As pessoas realmente precisam de tudo isso?
Dell – Não sei se todas precisam, mas estou certo de que todo mundo vai querer comprar os equipamentos sem fio. Para algumas pessoas, essa tecnologia é questão de dinheiro. Ter a informação necessária na hora certa. De maneira geral, sempre se ganha à medida que os equipamentos ficam mais portáteis, menores, mais fáceis de carregar de um lado para outro. Neste ano estive em Munique, na Alemanha, e o hotel em que me hospedei oferecia acesso sem fio à internet. Foi superconveniente. Aposto que em alguns anos os equipamentos sem fio serão extremamente populares.

Veja – Já houve casos de criminosos que foram a aeroportos para interceptar e roubar informações de quem estava usando computadores sem fio. Até que ponto essa tecnologia é segura?
Dell – Temos como codificar os dados, o que acaba com as chances dos criminosos. Isso pode ser usado dentro das empresas e também fora. Ou seja, tem solução.

Veja – Quais são os mercados mais promissores para o setor de computadores?
Dell – O Brasil certamente é um dos mercados com ótimas perspectivas de crescimento nos próximos anos. O país tem uma população enorme e grande potencial para se industrializar ainda mais. Tanto o Brasil quanto o restante da América do Sul apresentam oportunidades significativas. A Ásia também é promissora. Nos Estados Unidos e na Europa, existe espaço para crescimento. É uma questão de ganhar fatias maiores do mercado. Mas, como já é alto o número de pessoas com computador no Primeiro Mundo, as oportunidades de longo prazo estão nos países em desenvolvimento.

Veja – A Dell montou sua fábrica brasileira no Rio Grande do Sul com os olhos no Mercosul. Como a crise na Argentina afeta os planos de investimentos no Brasil?
Dell – Nosso foco é o Brasil, mas certamente temos presença em vários outros países da região, como a Argentina. A crise não influencia o montante que havíamos planejado investir no Brasil. Prometemos colocar cerca de 128 milhões de reais no país entre 1999 e 2004 e estamos seguindo nessa direção. Afeta, sim, os planos de investimentos que tínhamos para a Argentina. Investiríamos somente se aparecessem oportunidades.

Veja – Qual é sua rotina de trabalho?
Dell – Eu me levanto às 6 horas. Saio para correr ou andar de bicicleta e chego ao escritório por volta das 8. Trabalho até as 6 da tarde, volto para casa e janto com minha família. Trabalho um pouquinho mais e vou para a cama dormir. Isso quando não estou viajando. Passo, no mínimo, um mês por ano fora dos Estados Unidos.

Veja – A maioria das pessoas sonha em ganhar milhões para não fazer mais nada. Por que o senhor ainda pega no pesado?
Dell – Para quem nunca trabalhou numa grande companhia que não pára de crescer, é difícil explicar quanto é divertido. Mas eu garanto que é realmente o máximo. Adoro analisar as oportunidades de crescer, de expandir os negócios para novas regiões. Valorizo as chances que tenho de aprender cada vez mais. Não dá para ficar parado à beira da piscina. Não se trata de dinheiro apenas. Se quisesse, poderia ter me aposentado há quinze anos. Não tenho a menor intenção de tornar-me um novo Henry Ford. Trabalho para que a economia seja mais eficiente.

Veja – Que tipo de conselho o senhor daria a um jovem que sonha em ser um milionário?
Dell – Antes de mais nada, acho que querer ser milionário não é um bom objetivo na vida. Meu único conselho é: ache aquilo que você realmente ama fazer. Exerça a atividade pela qual você tem paixão. É dessa forma que temos as melhores chances de sucesso. Se você faz algo de que não gosta, dificilmente será bom. Não há sentido em ter uma profissão somente pelo dinheiro.

Veja – É mais difícil fazer fortuna ou se manter rico?
Dell – Acho que é mais difícil gastar todo o dinheiro.

Veja – Quais são as virtudes das pessoas bem-sucedidas?
Dell – As pessoas de sucesso geralmente são realistas, determinadas, focam seus esforços em seus objetivos e têm percepção fora do comum. Certamente, os bem-sucedidos possuem vários defeitos. O mais grave talvez seja que muitos têm ambição demais e habilidade de menos. Muita gente acaba esquecendo por que se tornou bem-sucedida. Isso pode ser o começo do fim.

Veja – A maioria das crianças brasileiras não tem acesso a um computador em casa. Como o país pode mudar isso?
Dell – Com educação. A escola é fundamental para proporcionar os novos instrumentos e desenvolver habilidades. É o único lugar em que as crianças menos favorecidas podem ter acesso às novas tecnologias. Assim como a escola treina os alunos em matemática e português, também deve oferecer os instrumentos necessários para as crianças poderem progredir profissionalmente. O Estado tem um papel importantíssimo nesse processo.

Veja – A Coréia do Sul e a Malásia tornaram-se importantes fabricantes de componentes para a indústria da informática. Por que o Brasil não seguiu o mesmo caminho?
Dell – Esses dois países beneficiaram-se da posição geográfica. Estão perto do Japão, Taiwan e Cingapura, que já tinham desenvolvido o setor de computação. O Brasil tem muito boas chances de ser a plataforma de exportação para a região da América Latina. Para ser uma plataforma voltada para o resto do mundo, terá de atrair investimentos nas áreas de pesquisa e desenvolvimento. Em nosso setor, a produção local de semicondutores também é crucial.

Veja – O que as empresas brasileiras interessadas em se expandir no exterior devem levar em conta?
Dell – Cada vez que se entra num país novo encontra-se uma cultura diferente, uma nova maneira de fazer negócios. É preciso entender essas diferenças e adaptar-se a elas. Há valores que não mudam. São independentes da cultura e da posição geográfica do país. Se uma empresa tiver um bom produto e oferecer um ótimo serviço, pode fazer dinheiro em qualquer lugar do mundo. Obviamente, precisará efetuar adaptações para atender ao gosto local. Terá de contratar uma equipe do lugar para estabelecer um relacionamento com os consumidores. Mas os valores são universais. Estamos presentes na China, onde vendemos nossos produtos e temos fornecedores. Com base em minha experiência pessoal, posso dizer que quem quiser entrar na China terá de beber muito chá.

Veja – Fala-se bastante sobre o potencial do mercado chinês, mas não são muitas as empresas estrangeiras que de fato estão ganhando rios de dinheiro na China. Por que o senhor instalou uma fábrica lá?
Dell – A China está passando por uma enorme transformação. De uma economia essencialmente planejada para uma mais aberta, com mais companhias privadas e competição. Para obter sucesso, tivemos de nos adaptar às práticas locais. Na maioria dos mercados em que atuamos, os consumidores têm cartões de crédito. Isso não é comum na China. Lá, as pessoas ou têm o dinheiro em espécie ou um cartão do banco. Como nosso forte é vender pelo telefone ou pela internet, tivemos de achar uma alternativa. Acabamos fazendo um acordo com o Banco da China, que tem agências por todo o país.

Veja – Quais os conselhos que o senhor daria às empresas brasileiras que ainda não investem em ciência e tecnologia?
Dell – Empresas de todos os setores podem beneficiar-se de investimentos em ciência e tecnologia. O mercado global é cada dia mais competitivo. Não dá para levar em conta as concorrentes que estão em seu Estado ou em sua região. Se há como ser mais produtivo, é melhor não jogar fora essa oportunidade.  

Veja – Nos primeiros meses deste ano a economia americana teve desempenho positivo. O senhor está otimista?
Dell – Ficarei muito surpreso se o ritmo atual de crescimento for mantido no restante do ano. Mas não tenho dúvidas de que a economia americana já começou a reagir. Com certeza, estamos no caminho certo. O consumo aumentou e a economia dá claros sinais de recuperação.

 
 
   
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