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Sérgio
Abranches
O
preço da imprecisão
"A
crise pode chegar a
proporções
que qualquer que seja o presidente
eleito talvez não consiga resolvê-la.
Administrar essas expectativas já é
parte das obrigações de todos
os candidatos"
Ilustração Ale Setti
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Há algumas semanas falei a um executivo do mercado que imaginava
que o risco Brasil poderia chegar a 1.500 pontos básicos por causa
da incerteza eleitoral. Ele discordou. Afinal, no início da crise
argentina ele ficou em pouco mais de 1.250, na do México, em torno
de 1.500 e, na moratória russa, foi a 1.400. Na única crise
de confiança doméstica, porém, logo após a
desastrada desvalorização de 1999, chegou a 1.770. Na última
quinta-feira, bateu em 1.593, acima do risco Nigéria, o qual já
contabiliza um calote na dívida.
O que, então, eleva tanto o risco Brasil? Pioraram muito os fundamentos
da economia brasileira? Não. Houve deterioração do
quadro político? Não. O governo conseguiu levar a cabo votações
importantes no Congresso, sem surpresas. A popularidade do presidente
está hoje em seu ponto mais alto, no segundo mandato, tanto na
pesquisa CNI/Ibope quanto na do Datafolha, segundo a qual a avaliação
positiva superou a negativa.
Existem alguns problemas operacionais de mercado que foram agravados por
decisões recentes do Banco Central sobre fundos de renda fixa.
Os agentes econômicos ficaram desconcertados com o viés de
baixa adotado pelo Copom, cuja substância técnica lhes escapou.
Mas a maior parte do risco atual é de origem política determinada,
pelo crescente negativismo das expectativas. Ao saber que a aliança
PT-PL tinha grande chance de ser aprovada em convenção,
o mercado assistiu ao senador José Alencar comemorá-la com
frases de descuidada ambigüidade, em entrevista ao programa Bom
Dia Brasil: "Nós estamos em uma campanha porque não
estamos de acordo com os rumos que o Brasil tem tomado. O Brasil está
muito endividado". Concluiu que "o importante é que façamos
um trabalho de retomada de desenvolvimento, e como as poupanças
brasileiras são pequenas a pública é negativa
então, nós vamos nos basear em poupança privada
e alguma coisa de poupança externa". Quase ninguém entendeu
e, pior ainda, soou como ameaça. Ao responder se era ou não
favorável a metas de inflação, despejou: "Eu sou
a favor das metas de crescimento. As metas de inflação são,
obviamente, um instrumento utilizado pelo Banco Central e que, provavelmente,
pode ser mantido". O que os espectadores intuíram é que
não haverá metas de inflação. Para quem entende
de economia, metas de crescimento em confronto com metas de inflação
significam só mais inflação.
As declarações reacenderam temores que os investidores já
colecionavam por causa de contraditórias declarações
de lideranças do PT sobre política econômica. Sobretudo
pela afirmação de Lula de que respeitaria os contratos à
sua moda e não "à moda deles". Mais ameaçador não
podia ser. É grande o desassossego com a idéia de que possa
haver duas "modas" para honrar contratos: a "deles" e a "petista". Ninguém
se arriscará a esperar para ver como será a nova moda.
Esse nervosismo pode ter conseqüências sérias. A situação
de países que precisam rolar alto volume de dívidas e fechar
a conta do balanço de pagamentos pode deteriorar-se vertiginosamente,
quando se quebra a confiança. A coabitação desconfortável
entre um discurso para "o mercado" e outro, oposto, para a "turma de casa"
provoca perda de credibilidade. E quem a tem perdido mais é o próprio
Lula.
Candidatos a presidente da República e seus vices têm de
ter visão de chefe de Estado, que podem vir a ser. São co-gestores
da estabilidade monetária e da ordem pública. Têm
de esclarecer seus pontos de vista para reduzir a incerteza. Luís
Inácio Lula da Silva não precisa virar um sócio da
banca internacional, para cumprir esse papel. Ao contrário, deve
é tornar mais explícita a ruptura econômica que deseja.
Como tratará da dívida pública? Qual será
sua resposta a uma crise cambial? Que combinação diferente
entre equilíbrio fiscal, inflação e crescimento pretende
adotar? Se for uma equação consistente e franca a exposição
das reais intenções, o risco pode até subir por inconformismo
ideológico, mas retornará a patamares administráveis
tão logo o mercado descubra que não é o fim do mundo.
A ambigüidade e a imprecisão geram incerteza e esta, suspeita.
Dela para a crise de confiança é um passo e desta para a
fuga de capitais, um sopro. A crise pode chegar a proporções
que qualquer que seja o presidente eleito talvez não consiga resolvê-la
sem impor um preço adicional muito elevado à população.
Administrar essas expectativas já é parte das obrigações
do novo presidente e, como não sabemos qual dos candidatos será
eleito, é um dever cívico de todos eles.
Sérgio
Abranches é cientista político (sergioabranches@sda.com.br)
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