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Edição 1 757 - 26 de junho de 2002
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Sérgio Abranches

O preço da imprecisão

"A crise pode chegar a proporções
que qualquer que seja o presidente
eleito talvez não consiga resolvê-la.
Administrar essas expectativas já é
parte das obrigações de
todos os candidatos"


Ilustração Ale Setti


Há algumas semanas falei a um executivo do mercado que imaginava que o risco Brasil poderia chegar a 1.500 pontos básicos por causa da incerteza eleitoral. Ele discordou. Afinal, no início da crise argentina ele ficou em pouco mais de 1.250, na do México, em torno de 1.500 e, na moratória russa, foi a 1.400. Na única crise de confiança doméstica, porém, logo após a desastrada desvalorização de 1999, chegou a 1.770. Na última quinta-feira, bateu em 1.593, acima do risco Nigéria, o qual já contabiliza um calote na dívida.

O que, então, eleva tanto o risco Brasil? Pioraram muito os fundamentos da economia brasileira? Não. Houve deterioração do quadro político? Não. O governo conseguiu levar a cabo votações importantes no Congresso, sem surpresas. A popularidade do presidente está hoje em seu ponto mais alto, no segundo mandato, tanto na pesquisa CNI/Ibope quanto na do Datafolha, segundo a qual a avaliação positiva superou a negativa.

Existem alguns problemas operacionais de mercado que foram agravados por decisões recentes do Banco Central sobre fundos de renda fixa. Os agentes econômicos ficaram desconcertados com o viés de baixa adotado pelo Copom, cuja substância técnica lhes escapou.

Mas a maior parte do risco atual é de origem política determinada, pelo crescente negativismo das expectativas. Ao saber que a aliança PT-PL tinha grande chance de ser aprovada em convenção, o mercado assistiu ao senador José Alencar comemorá-la com frases de descuidada ambigüidade, em entrevista ao programa Bom Dia Brasil: "Nós estamos em uma campanha porque não estamos de acordo com os rumos que o Brasil tem tomado. O Brasil está muito endividado". Concluiu que "o importante é que façamos um trabalho de retomada de desenvolvimento, e como as poupanças brasileiras são pequenas – a pública é negativa – então, nós vamos nos basear em poupança privada e alguma coisa de poupança externa". Quase ninguém entendeu e, pior ainda, soou como ameaça. Ao responder se era ou não favorável a metas de inflação, despejou: "Eu sou a favor das metas de crescimento. As metas de inflação são, obviamente, um instrumento utilizado pelo Banco Central e que, provavelmente, pode ser mantido". O que os espectadores intuíram é que não haverá metas de inflação. Para quem entende de economia, metas de crescimento em confronto com metas de inflação significam só mais inflação.

As declarações reacenderam temores que os investidores já colecionavam por causa de contraditórias declarações de lideranças do PT sobre política econômica. Sobretudo pela afirmação de Lula de que respeitaria os contratos à sua moda e não "à moda deles". Mais ameaçador não podia ser. É grande o desassossego com a idéia de que possa haver duas "modas" para honrar contratos: a "deles" e a "petista". Ninguém se arriscará a esperar para ver como será a nova moda.

Esse nervosismo pode ter conseqüências sérias. A situação de países que precisam rolar alto volume de dívidas e fechar a conta do balanço de pagamentos pode deteriorar-se vertiginosamente, quando se quebra a confiança. A coabitação desconfortável entre um discurso para "o mercado" e outro, oposto, para a "turma de casa" provoca perda de credibilidade. E quem a tem perdido mais é o próprio Lula.

Candidatos a presidente da República e seus vices têm de ter visão de chefe de Estado, que podem vir a ser. São co-gestores da estabilidade monetária e da ordem pública. Têm de esclarecer seus pontos de vista para reduzir a incerteza. Luís Inácio Lula da Silva não precisa virar um sócio da banca internacional, para cumprir esse papel. Ao contrário, deve é tornar mais explícita a ruptura econômica que deseja. Como tratará da dívida pública? Qual será sua resposta a uma crise cambial? Que combinação diferente entre equilíbrio fiscal, inflação e crescimento pretende adotar? Se for uma equação consistente e franca a exposição das reais intenções, o risco pode até subir por inconformismo ideológico, mas retornará a patamares administráveis tão logo o mercado descubra que não é o fim do mundo.

A ambigüidade e a imprecisão geram incerteza e esta, suspeita. Dela para a crise de confiança é um passo e desta para a fuga de capitais, um sopro. A crise pode chegar a proporções que qualquer que seja o presidente eleito talvez não consiga resolvê-la sem impor um preço adicional muito elevado à população. Administrar essas expectativas já é parte das obrigações do novo presidente e, como não sabemos qual dos candidatos será eleito, é um dever cívico de todos eles.


Sérgio Abranches é cientista político (sergioabranches@sda.com.br)

 

 
 
   
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