A pena que fere

Em Panfletos Satíricos, o humor ácido
do escritor irlandês Jonathan Swift

Carlos Graieb


Swift: "Escrevo para envergonhar o mundo, não para diverti-lo"

Se um sujeito metido a profeta dissesse aos contemporâneos do irlandês Jonathan Swift (1667-1745) que, no futuro longínquo, ele seria conhecido popularmente como escritor para crianças, das duas uma: ou ririam dele ou o trancariam num asilo para loucos. Naquele tempo, todos viam em Swift com razão um dos mais virulentos satiristas que já pisaram na Terra. Ele mesmo afirmava escrever para "envergonhar o mundo, não para diverti-lo". O profeta, no entanto, estaria certo. Foi justamente como inócuo autor juvenil que Swift chegou ao século XX. Segundo alguns, a "culpa" por essa estranha reviravolta foi dele mesmo. Sua obra-prima, Viagens de Gulliver, é tão pródiga em aventuras fantásticas que o leitor, maravilhado, se sente diante de um conto de fadas. Na verdade, Swift ganhou fama de autor infantil por causa de seus editores. Depois de passar quase 200 anos como maldito, foi no final do século passado que o escritor irlandês voltou a atrair leitores. E como isso aconteceu? Para não chocar o público, os responsáveis pela publicação de seus livros decidiram lançar versões mutiladas de Viagens de Gulliver, eliminando as passagens mais pesadas e toda a parte final do livro. Várias gerações leram Swift desse modo e, ainda hoje, as edições disponíveis no Brasil são capengas. Felizmente, surge agora uma oportunidade para colocar os pingos nos is. Está saindo Panfletos Satíricos (tradução de Leonardo Fróes; editora Topbooks; 506 páginas; 49 reais), que reúne dezesseis textos do autor. Eles mostram Swift em toda a sua crueza.

Mergulhado em temas como política e religião, ele se dedica ao seu passatempo preferido: denunciar a estupidez. Afinal, a convicção básica por trás de toda a obra de Swift era que o homem não é um animal racional, mas apenas um ser que, "capaz de racionalidade", raramente decide exercê-la. O primeiro texto da coletânea é o mais importante do ponto de vista artístico: Uma História de um Tonel. É uma parábola sobre o desenvolvimento do cristianismo na Europa, na qual Swift defende (sem entusiasmo excessivo) sua própria religião anglicana em detrimento do catolicismo e das crendices individuais. Para o leitor de hoje, o mais importante é a forma desse panfleto. Swift desenvolveu uma divertida técnica de pastiches e paródias, misturando termos da teologia, das ciências e até da alquimia, para zombar de estudiosos que, quase sem exceção, ele considerava impostores. Vale notar, porém, que o conservadorismo intelectual de Swift é seu pior lado e tornou-o cego para a real dimensão de alguns pensadores de sua época, como Isaac Newton.

Alimento nutritivo A técnica de colagens presente em Uma História de um Tonel influenciou alguns dos mais revolucionários escritores deste e de outros séculos, como o irlandês James Joyce (veja quadro). Em outros textos, como Um Argumento contra a Abolição do Cristianismo ou Uma Modesta Proposta, o que sobressai é a limpidez da frase. Swift era um cultor do wit, palavrinha inglesa difícil de traduzir, mas que um contemporâneo seu definiu como "habilidade de transmitir pensamentos profundos em linguagem comum". Não há rebuscamento ou embromação conceitual em Swift. Para veicular suas idéias, ele sempre prefere as imagens vívidas aos conceitos abstratos. No famoso Uma Modesta Proposta, por exemplo, ele lança mão de lógica impecável para sustentar satiricamente que a solução para o flagelo da pobreza está em comer criancinhas. "Uma criancinha sadia e bem criada é, com 1 ano de idade, o alimento mais delicioso, nutritivo e benéfico que existe, seja cozida, grelhada, assada ou ferventada", escreve.

Mesmo para seus admiradores, a fleuma e a ironia de Swift às vezes vão longe demais. O crítico americano Harold Bloom, por exemplo, considera Uma História de um Tonel a melhor prosa da língua inglesa depois de Shakespeare. Ainda assim registra seu incômodo durante a leitura: o texto escrito pelo clérigo irlandês, que mantinha uma amante às escondidas, parece "recriminá-lo" incessantemente. Ao contrário do francês Voltaire, satirista igualmente agudo, mas com riso aberto, Swift parece nos olhar por detrás de seus textos com uma face de pedra. É essa dureza que está presente no tão falado capítulo final de Gulliver, em que se descobre que os monstruosos Yahoos não são outra coisa senão homens. É ela também que transparece nas oportunidades em que o autor afirmou que podia tolerar indivíduos, mas sentia "ódio por todas as nações, profissões e comunidades". De fato, é preciso um estômago de ferro para agüentar a dieta que Swift propõe.

Herdeiros ilustres

Em várias épocas e países, autores do primeiro time se renderam ao criador das Viagens de Gulliver

O filósofo francês Voltaire, fã confesso: "Quanto mais eu leio sua obra, mais me envergonho
da minha"
Em crônicas e romances, Machado de Assis aludiu a Swift, embora lamentasse "o seu humor que não sorri"

O inglês George Orwell: "Se tivesse de salvar apenas seis livros da destruição, um deles seria Viagens de Gulliver"

O argentino Jorge Luis Borges: Swift estava entre os poucos autores de sua "biblioteca pessoal"

O inglês Anthony Burgess: "Ele foi o maior prosador da primeira metade do século XVIII, e talvez do século todo"

 




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