Quando a auto-ajuda ajuda

Conselhos realmente úteis nos livros
que muita gente considera inaproveitáveis

Rachel Verano e Priscila Sérvulo

Egberto Nogueira e Marlos Bakker
Roberto Jayme

O publicitário Duda Mendonça leu O Monte Cinco, de Paulo Coelho, quando estava saindo do segundo casamento. "Percebi que eu estava querendo tudo do meu jeito, e o livro me mostrou que isso não é possível", diz.

O economista Mailson da Nóbrega afirma que o trecho inicial de O Sucesso É Ser Feliz, de Roberto Shinyashiki, mudou sua vida. O livro é um grande êxito editorial, já vendeu mais de 600 000 exemplares em mais de trinta edições. "Eu me enxerguei naquele texto", diz Mailson. "O sucesso não é apenas ser famoso e ganhar dinheiro. É também ter qualidade de vida."

Muita gente não leu, não gostou e considera os livros de auto-ajuda um amontoado de conselhos destinados a iludir gregos e troianos. Outros dizem que, mesmo não tendo preconceito contra eles, preferem outro tipo de leitura. "Tenho pouco tempo para ler", diz o comandante Rolim Amaro, dono da TAM. "Prefiro as biografias de grandes personalidades da História." Rolim já leu pelo menos dez livros sobre a vida do imperador francês Napoleão Bonaparte. Há, finalmente, pessoas insuspeitas que não apenas assumem gostar dos livros de auto-ajuda como admitem sua utilidade para auxiliá-las a promover mudanças importantes em sua vida. "Foi num livro de auto-ajuda que descobri a importância de tirar férias, de almoçar com calma e de me dar o direito aos pequenos prazeres do dia-a-dia", diz o ex-ministro da Fazenda Mailson da Nóbrega, um dos mais sensatos analistas da economia brasileira. "Então, comecei a prestar atenção aos meus próprios hábitos e vi como um comportamento que me parecia normal poderia acabar com minha saúde."

Último dia O trecho que provocou a mudança nos hábitos de Mailson está na crônica que abre o livro O Sucesso É Ser Feliz, do psiquiatra e consultor Roberto Shinyashiki. Conta a história de um executivo superexigente com os subordinados, sem tempo para a família. Depois de um dia típico, de muita correria, ele sofre um infarto. Sente vontade de beijar a mulher, de ver a filha, de brincar com o neto. Mas percebe que não terá tempo de fazer nada daquilo.

Conselheiro Nenhum livro de auto-ajuda é capaz de resolver o problema de quem quer que seja (veja quadro). O que ele pode é apontar um caminho, sugerir uma mudança, exercer o papel do conselheiro. "É uma leitura saudável para quem quer repensar a vida", diz o publicitário Duda Mendonça, um dos maiores marketeiros do Brasil. "Mais importante do que seguir o que esses livros dizem é usá-los como ponto de partida para refletir sobre os próprios problemas." Esse, segundo o publicitário, é o aspecto fundamental. Mendonça estava desfazendo seu segundo casamento quando leu O Monte Cinco, do escritor Paulo Coelho. A obra marcou-o tanto que nos copos que ele mantém em sua lancha estão gravadas frases extraídas do livro.

João Raposo

A modelo Adriane Galisteu tirou vários conselhos práticos de Chic, da consultora de moda Gloria Kalil. "O livro ensina alguns cuidados fundamentais na hora de se vestir, como a combinação de peças e cores", diz Adriane. "É uma obra prática e atraente."

A apresentadora de televisão Eliana Michaelichen diz que livros como Sem Medo de Vencer, de Roberto Shinyashiki, ajudam a lidar com o crescimento profissional. "Eles alertam sempre para a importância da humildade", afirma Eliana.

Dúvidas Não existe uma receita capaz de mostrar qual livro de auto-ajuda será útil e qual nada acrescentará à vida do leitor. A modelo Adriane Galisteu considera de auto-ajuda todo livro capaz de alertá-la para os aspectos sobre os quais não havia parado para pensar. "Toda leitura que me socorre num momento de dúvida é de auto-ajuda", diz ela. Adriane afirma que ninguém a ensinou mais acerca da melhor maneira de se vestir do que o livro Chic, de Gloria Kalil. "O bom desses livros é que eles nos mostram que não somos os únicos a ter dúvidas que podem parecer simples e que nosso problema nem sempre é maior do que o de outras pessoas, como costumamos imaginar."

A utilidade desses livros, dizem os psicólogos, depende exclusivamente do tipo da fase de vida em que a pessoa se encontra. O jogador de vôlei Alexandre Samuel, o Tande, lê todas as noites em companhia de sua mulher, a atriz Lisandra Souto, um trecho de O Segredo de um Casamento Feliz, do psicólogo americano Henry Brandt. Tem gente que duvida da eficácia de uma leitura assim para manter firme um casamento, mas o importante é que o livro faz bem aos dois. A apresentadora Eliana Michaelichen, da TV Record, gosta de leitura que reforce sua auto-estima e a auxilie a ultrapassar barreiras. Um de seus preferidos é Sem Medo de Vencer, de Roberto Shinyashiki. "O crescimento e o sucesso profissional assustam", diz Eliana. "Esse livro me ajudou a lidar com minhas conquistas de maneira equilibrada."

O campeão das livrarias

Divulgação
Covey: 12 milhões de exemplares


Os 7 Hábitos das Pessoas Muito Eficazes,
do escritor americano Stephen Covey, é o livro de auto-ajuda mais vendido em todo o mundo: 12 milhões de exemplares desde que foi lançado, em 1989. Ficou cerca de 270 semanas na lista dos mais vendidos do jornal americano The New York Times e se tornou uma obra de consulta importante para os apreciadores de auto-ajuda. VEJA ouviu Covey sobre seu livro:

Veja Na sua opinião, uma pessoa pode mesmo assimilar novos conceitos e mudar sua atitude em relação à própria vida a partir da leitura de um único livro?

Covey Para haver uma mudança é preciso que o leitor esteja realmente disposto a aceitar os princípios contidos no livro. É preciso que ele tenha o desejo de aprender e realmente queira mudar sua vida. Ou seja, isso depende de cada pessoa. Os conceitos citados em meu livro Os 7 Hábitos das Pessoas Muito Eficazes não proporcionam um aprendizado instantâneo. Eles simplesmente apontam o caminho para iniciar a mudança.

Veja Uma crítica freqüente aos livros de auto-ajuda é que eles fazem sucesso porque lidam com conceitos óbvios, de fácil assimilação. O que o senhor acha disso?

Covey Eu escrevo basicamente sobre o bom senso. Acontece que o bom senso hoje em dia, quando todas as pessoas de uma maneira ou de outra sentem o stress e a pressão do mundo moderno, não é uma prática comum. Para escrever Os 7 Hábitos... passei anos estudando alguns dos melhores pensadores e líderes do mundo. E todos eram apegados a determinados princípios. Mahatma Gandhi, por exemplo, baseou seu movimento nos princípios imutáveis e eternos do respeito, da integridade, do amor, da justiça e da paz. Ele foi fiel a esses princípios e foi neles que encontrou o poder para mudar sua vida, seu país e o mundo. É com conceitos desse tipo que eu trabalho.

Veja O fato de estar baseado nesses princípios ajuda a explicar o sucesso do livro?

Covey Acredito que sim. Princípios como honestidade, integridade, confiança, justiça e respeito transcendem todas as raças, culturas, religiões e políticas. Os sete hábitos são sustentados por princípios que pertencem a toda a humanidade. E é essa a razão que faz o livro ser reconhecido em todo o mundo.

As lições dos livros

Klink, na Antártica: inspiração em aventura do início do século

Conselhos práticos, capazes de ajudar as pessoas a tomar decisões ou a superar obstáculos, não são encontrados apenas nos livros de auto-ajuda. Muitas vezes, eles estão em obras que não têm a intenção de ajudar mas acabam prestando uma orientação fundamental aos leitores. Moral da história: o hábito da leitura presta auxílio fundamental a quem o desenvolve. O comandante Rolim Amaro diz que muitas de suas idéias para administrar a TAM são inspiradas nos livros que lê sobre a vida de Napoleão Bonaparte. Em sua aventura mais recente, a circunavegação da Terra ao redor da Antártica, a menor e a mais perigosa rota de volta ao mundo que existe, o navegador Amyr Klink mais de uma vez se lembrou de um de seus livros de cabeceira, Endurance, da escritora americana Caroline Alexander. "Nos momentos mais tensos de minha viagem me lembrava de alguns trechos do livro", conta Klink. A obra narra a história da expedição liderada pelo irlandês Ernest Shackleton ao continente gelado em 1914. A liderança de Shackleton foi fundamental para que toda a tripulação se salvasse. "Era tranqüilizador saber que homens já haviam passado por momentos mais difíceis e conseguiram sobreviver."

 

 




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