Na cola dos crentes

Contra o avanço dos evangélicos e para gerar
receita, os católicos reabilitam o dízimo

Manoel Fernandes e Eduardo Junqueira

 
Marcos Issa
Padre Busch: controle do pagamento das contribuições pelo computador

Erguei as mãos e dai glória a Deus é o verso de um dos maiores sucessos musicais do padre Marcelo Rossi, a principal figura do movimento católico Renovação Carismática. Depois de aderir a missas agitadas, com muita dança e cantoria, a sessões de curas e exorcismos e a megacultos em estádios de futebol, a Igreja Católica agora parte para a cobrança do dízimo de seus fiéis. Hábito comum entre os evangélicos, a obrigação sempre foi vista pelos católicos autodenominados "progressistas" como prática repugnante. Seria uma reles "mercantilização da fé". Os carismáticos pensam diferentemente e arrastam seus colegas de batina. "Estamos perdendo a vergonha de falar sobre a importância da contribuição bíblica", diz o padre José Arlindo de Nadai, de Campinas, no interior paulista.

O que demonstrou o sucesso evangélico tanto o financeiro quanto o de público foi que a doação do dízimo em vez de afastar os fiéis os aproxima da Igreja. Cria-se um vínculo semelhante ao do cliente de uma loja. Compra-se a bênção e espera-se pelo atendimento divino. Absurdo? Nem tanto. Os próprios textos sagrados sancionam a cobrança. "Ordeno que tragam todos os seus dízimos aos depósitos do Templo, para que haja bastante comida na minha casa. Ponham-me à prova e verão que eu abrirei as janelas do céu e farei cair sobre vocês as mais ricas bênçãos", lê-se no Livro de Malaquias. Funciona. Enquanto as igrejas evangélicas constroem impérios de comunicação com as doações dos crentes, muitas paróquias estão saindo do vermelho pela primeira vez em trinta anos.

Catolicismo pobre Até 1889, cabia ao Estado arrecadar o dinheiro e repassá-lo ao clero. A queda do Império trouxe dificuldades e a saída foi taxar os ritos, como o casamento, o batismo ou a crisma. Seria até fácil sustentar as igrejas com essas taxas todas, mas, com o afastamento dos fiéis e o conseqüente abandono das cerimônias, o catolicismo brasileiro empobreceu. Para piorar, as doações vindas do exterior caíram pela metade desde 1994, segundo Antoninho Tatto, presidente do grupo Missionários para Evangelização e Animação de Comunidades, da Diocese de Santo Amaro, na capital paulista. A saída foi ressuscitar o dízimo, um hábito que a Igreja Católica no Brasil nunca estimulou.

Um dos cartazes da campanha pelo dízimo: paróquias mais ricas

A palavra dízimo, na sua nova versão, quer dizer algo bem diferente de "a décima parte". Em geral, a contribuição dos católicos varia de 1% a 3% da renda mensal do fiel. Sua importância para as finanças da Igreja está no fato de ser constante. Todo mês, o fiel deixa pingar sua parte nos cofres paroquiais. O resultado já é animador. Na paróquia Nossa Senhora das Dores, em Campinas, o padre José Antônio Busch usa um programa de computador para gerenciar as finanças da paróquia e também as provenientes do dízimo. Em três anos, a receita com a contribuição pulou de 20% do faturamento da igreja para 35%. Outro exemplo: a paróquia de Nossa Senhora da Piedade, na região metropolitana do Recife, obtinha uma receita mensal de 6.000 reais até novembro do ano passado, quase nada proveniente do dízimo. Hoje, arrecada 20.000 reais. A metade vem do dízimo. Casos como esses animaram 1.500 outras igrejas brasileiras a seguir o mesmo caminho. Católicos, abri as mãos para o pagamento do dízimo e dai glória a Deus.

 

 




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