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O enigma DallevoProliferam os boatos de que
o Lauro Jardim
Os telespectadores ainda não notaram mudança alguma na Manchete. A emissora
continua exibindo pela enésima vez a reprise da novela Pantanal,
horas e mais horas de aborrecidos quadros de televendas e uma bateria
de programas religiosos. Desde a semana passada, no entanto, a emissora
está sob novo comando. O presidente Fernando Henrique Cardoso assinou,
na segunda-feira 17, um decreto transferindo a concessão da Manchete da
família Bloch para o paulista Amilcare Dallevo Jr., empresário que, graças
aos sorteios de prêmios via 0900, recebeu um empurrão em seus negócios
nos últimos anos. Ele e a direção da emissora acertaram a venda no início
do mês. Pelo acordo, o empresário assume o total de dívidas da Manchete,
estimado hoje em 329 milhões de reais, segundo o advogado Antônio Sodré,
que assessora Dallevo na operação. Como a princípio se trata de uma quantia
que só grupos empresariais de peso poderiam cacifar, a audácia do pouco
conhecido Dallevo em fechar um negócio tão grandioso surpreendeu meio
mundo. A pergunta que se faz na praça é de onde ele vai tirar a dinheirama
necessária para arcar com um endividamento monstro e para investir numa
emissora hoje sem elenco artístico, programação de boa qualidade e equipamentos
modernos. Dono das empresas Teletv, TecNet e Ômega Produções (veja
quadro abaixo), Dallevo sustenta que dispõe de capacidade financeira
para uma empreitada dessa envergadura. E mais: garante que investirá nos
próximos meses 100 milhões de reais na Manchete para fazê-la voltar a
respirar.
Quando indagado sobre o tamanho de seu bolso, Dallevo não se cansa de repetir que o grupo que comanda faturou 400 milhões de reais no ano passado. Não é uma afirmação que se possa comprovar. Como suas empresas não são de capital aberto, ele está legalmente desobrigado de exibir os números que constam dos balanços. VEJA pediu a Dallevo esses balanços. "Não quero mostrar", diz o empresário. "Minhas obrigações são com a Receita Federal." O que se pode afirmar, com base nas declarações do próprio Dallevo, é que o empresário é um prodígio quase inigualável no mundo dos negócios brasileiro. Segundo ele, o faturamento de suas empresas girava em torno de 5 milhões de dólares em 1992. Isso significa um crescimento de mais de 6500% em apenas seis anos. A falta de informações consistentes sobre a real capacidade financeira de Dallevo vem alimentando a impressão de que ele teria um sócio oculto na empreitada, este, sim, com bala na agulha para comprar uma emissora de televisão. "Não tenho planos de me associar com ninguém", disse Dallevo a VEJA, na sexta-feira passada. As sucessivas negativas do empresário, no entanto, são insuficientes para acabar com os boatos. Um deles é de que seu sócio seria um grupo americano que controla cassinos nos Estados Unidos. Esse grupo estaria interessado, primeiramente, em entrar firme na jogatina eletrônica via televisão, um mercado que tende a crescer no Brasil, apesar dos obstáculos legais que enfrenta. Seu segundo propósito seria fazer com que a Manchete funcionasse como um instrumento de pressão e propaganda para a legalização do jogo no país. O outro rumor, que circula inclusive nos corredores da Rede Globo, é que a empresa espanhola Telefónica secunda Dallevo na transação.
O interesse da Telefónica numa rede de televisão brasileira seguiria uma lógica empresarial. Sempre que se oferece a oportunidade, a companhia procura expandir-se por outras áreas da comunicação eletrônica. Na própria Espanha, ela investe pesado no ramo televisivo. O rumor conta também com a versão de que Dallevo figuraria apenas como o dono da concessão, enquanto caberia a outra empresa produzir e comercializar a programação da emissora. A ela estariam ligados os espanhóis. A boataria em torno da venda da Manchete para a Telefónica ganhou um ingrediente saboroso na semana passada, com a inclusão do nome do ex-ministro das Comunicações Luiz Carlos Mendonça de Barros. Enquanto esteve à frente do Ministério das Comunicações, e mesmo depois de sair do governo, Mendonça de Barros ocupou-se em boa medida da venda da Manchete. Seu envolvimento com a transação começou quando ele foi procurado por Pedro Jack Kapeller, que herdou a emissora de seu tio Adolpho Bloch, morto em 1995. O empresário queria a renovação das concessões da rede (cinco, no total), vencidas havia três anos. Era difícil porque a televisão estava – e está – cheia de dívidas. Para não ter de cassar as concessões, Mendonça de Barros decidiu preparar um documento dando noventa dias para a Manchete colocar os pagamentos em dia. Do contrário, seria decretada a "peremptoriedade das concessões". Em português: a Manchete teria as concessões cassadas. Esse documento seria renovado pelo seu sucessor no ministério, Pimenta da Veiga, por mais noventa dias, prazo que venceu no último dia 18. Um mês depois de sair do ministério, alvejado pelas fitas do grampo no BNDES, Mendonça de Barros foi procurado por Kapeller. Ele sugeriu ao ex-ministro que assumisse a presidência da Manchete para viabilizar sua venda. Mendonça de Barros recusou o convite, justificando que não ficaria bem para um ex-ministro das Comunicações virar presidente de uma empresa de comunição, ainda mais quando ela está enrolada em dívidas com o governo como a Manchete. Mas deixou uma porta aberta ao dizer a Kapeller que, como a venda da Manchete interessava ao governo federal, ele poderia ajudar. Kapeller contou então ao ex-ministro que um grupo formado pelos ex-executivos da Rede Globo Miguel Pires Gonçalves e Antônio Athayde estava se organizando para adquirir a emissora. Mendonça de Barros os procurou. Aconselhou-os a preparar um projeto que, se fosse razoável, poderia ser apresentado a investidores. Ao ver o projeto, porém, Mendonça de Barros espantou-se com a ousadia dos ex-globais. Eles previam investimentos da ordem de 300 milhões de dólares, fora a quitação das dívidas da emissora. Ou seja, um montante na casa dos 500 milhões de dólares. Além disso, o projeto era de alto risco por uma razão que ultrapassa o aspecto financeiro: só seria viável se a emissora conseguisse em poucos meses um substancial aumento nos indicadores de audiência. Depois de examinar o projeto, e julgá-lo fora da realidade, o ex-ministro pulou fora. Tempos depois, Mendonça de Barros foi procurado pelo advogado Antônio Sodré, que falava em nome de Dallevo. Sodré queria conhecer a opinião do ex-ministro sobre a viabilidade da compra da Manchete por seu cliente. Nesse encontro, ele teria dito ao advogado que tudo dependia da magnitude do investimento que se desejava fazer. A conversa com o advogado morreu aí. Quando seu nome apareceu na semana passada, em meio ao boato de que funcionava como um vínculo entre a Telefónica e Dallevo, Mendonça de Barros disse a amigos que, ao visitar em Madri Escom Villanueva, o presidente da empresa, ouviu do espanhol que a Telefónica tinha de fato interesse em outras mídias. Villanueva lhe disse que havia comprado uma emissora de TV na Espanha e que estudava fazer isso também na América Latina. Ainda que breve, o envolvimento do ex-ministro Mendonça de Barros na venda da Manchete existiu. E despertou preocupações em Brasília. Pouco antes da concretização do negócio com Dallevo, um senador avisou ao presidente Fernando Henrique Cardoso que o ex-ministro estava mexendo no assunto, o que poderia causar constrangimentos ao governo. "Minha participação na venda da Rede Manchete é muito menor do que as pessoas estão comentando", diz Mendonça de Barros. "E, no que diz respeito ao grupo Teletv, meu papel é zero. Não tenho nada a ver com isso." Os boatos sobre a sociedade de Dallevo com a Telefónica incluem também o Banco Pactual. Depois de buscar os conselhos de Mendonça de Barros, Kapeller encarregou o banco de tentar a venda da Manchete. O Pactual preparou um relatório alentado sobre a emissora e, por intermédio do executivo Osvaldo Assis, o apresentou a grandes empresas da telecomunicação no Brasil, entre elas a companhia espanhola. Com a compra da emissora finalmente acertada, a novela se encerrou. Ou, como tudo no caso da Manchete, um novo folhetim pode ter começado.
Com reportagem de Consuelo Dieguez,
do Rio de Janeiro,
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