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Eu venci "a coisa"Depois de receber alta do
A briga durou cinco meses, mas o governador de São Paulo, Mário Covas, venceu um câncer em sua bexiga. A vitória deu-se por nocaute. Primeiro, ele foi submetido a uma cirurgia que durou dez horas e reconstruiu o órgão a partir do tecido do intestino. Depois, passou por três sessões de quimioterapia. Na semana passada, de cabelos ralos e 13 quilos mais magro, Covas retornou de vez ao trabalho. Para sua satisfação, os médicos liberaram a sua dieta (já comeu até feijoada). As viagens ao interior do Estado foram retomadas e sua atuação política, reforçada. Durante a convenção de seu partido, o PSDB, ocorrida no penúltimo fim de semana, ele atacou com veemência os adversários de Fernando Henrique Cardoso. Numa visita ao presidente, no Palácio do Planalto, exigiu dos aliados maior apoio ao governo. O governador Mário Covas recebeu VEJA em seu gabinete para uma entrevista de mais de duas horas. Não se recusou a responder a nenhuma pergunta, mas em momento algum citou a palavra câncer. "Tive medo, muito medo", diz. Veja – E então, governador, pronto para voltar ao trabalho? Covas – Prontíssimo. Lila, minha mulher, acha que até fiquei mais alegre, menos "bronquinha", como ela diz. E tenho todas as razões para estar... Não é o que pensam os meus secretários de Estado. Eles acham que a operação não mudou o meu jeito de ser. Dizem que continuo o mesmo mal-humorado de sempre. Veja – Como o senhor avalia o impacto da cirurgia e da quimioterapia para a sua vida pessoal? Covas – Depois de uma situação dessas, comecei a dar valor para certas coisas às quais não prestava a atenção devida. Refiro-me a coisas simples do dia-a-dia, como um abraço e um beijo, um telefonema. Não saberia dar exemplos ao certo. Isso acontece quando você passa por um grande trauma. Quando você passa a ver com clareza que a morte não é uma certeza teórica. Ela é um dado da realidade. As pessoas até fazem seguro de vida para garantir a família, mas, fora isso, ninguém quer pensar como é que vai ser o dia em que ela chegar. Todos se defendem internamente afastando a idéia. Mas eu não tive essa opção. Veja – Como é pensar sobre a morte? Covas – Eu fiquei com muito, muito medo. Veja – O medo surgiu ao ser informado de que tinha um tumor ou ao conhecer os detalhes da cirurgia? Covas – Fiquei assustado ao ser informado do tumor. Eu tinha estado com umas dores na região do rim e feito uma tomografia. Daí os meus médicos vieram em casa me trazer o resultado. Eram quatro. Ora, toda vez que três ou mais médicos vão te procurar, pode escrever. É má notícia. Do contrário, só um deles apareceria para falar comigo. Graças a Deus, a minha família é muito unida e já passou por muita coisa ruim. Perdi uma filha, tive o meu mandato cassado, passei um Natal preso. De sofrimento, a minha família entende. Chamei a minha mulher, meus filhos. Eles estavam comigo todas as horas. Veja – Não deu vontade de ser operado num hospital renomado dos Estados Unidos? Covas – Não tinha nenhuma lógica em fazer isso em outro lugar que não aqui em São Paulo. Eu sou governador do Estado que controla esse hospital, então tenho de ser o primeiro a confiar na qualidade de seu corpo médico. Depois eu tenho uma longa história de Incor, né? Já fui operado do coração lá, já fui operado da vesícula lá, já fiquei internado por causa da erisipela. Já estive lá tantas vezes que, suspeito, sou tido até como um paciente inconveniente. Tanto que toda vez me colocam num quarto cuja vista é uma provocação. Ele fica de frente para o Instituto da Mulher, um monumento ao desperdício erguido no governo Quércia que consumiu dezenas de milhões de dólares e não saiu do esqueleto. Veja – A recuperação foi dolorida? Covas – Fiquei dez horas deitado em uma mesa de aço e acordei na unidade de recuperação pós-cirúrgica. Contava as sondas urinárias fincadas no meu corpo. Eu parecia uma árvore de Natal. Não era fácil, doía muito, me sentia debilitado. É curioso que, em geral, os médicos nunca perguntam se você está sentindo dor. Eles perguntam: "O senhor está desconfortável?" É outro idioma. Veja – Qual a diferença entre essa operação e as anteriores? Covas – A operação do coração foi feita há quase quinze anos. Eu era mais jovem, tinha outra força física. A cirurgia do coração já virou rotina. É muito difícil ouvir falar de alguém que foi operado do coração e não teve sucesso. É tão simples quanto a operação de vesícula, que eu também fiz. Mas a grande diferença é outra. Esta cirurgia era complexa e visava combater um inimigo complicado. Ele se instala dentro de você, toma força, gruda, e quando você descobre ele já está plantado. Veja – A quimioterapia dói? Covas – Na aplicação não. Eu ia para o hospital numa noite, no dia seguinte eles me sedavam, punham um cateter aqui e uma sonda na bexiga. Aí eu ficava três dias tomando aqueles "venenos". A droga produz alguns efeitos no coração, nas mucosas e em outras partes que são mais sensíveis. Para compensar, é preciso tomar também os "contravenenos", que funcionam como uma espécie de proteção. Assim, enquanto os "contravenenos" protegem seu organismo, o "veneno" ataca a coisa. Esse bombardeio de drogas dura 24 horas por dia. Aí te mandam embora. Eu fazia a cada três semanas. Você fica meio baleado na primeira semana. Os primeiros dias são muito pesados, o seu organismo fica desregulado. Depois você vai melhorando. Veja – E seus efeitos colaterais, incomodam? Covas – Você se refere aos cabelos, que caem? Isso não tem a mínima importância. Não me incomoda nada, nada, nada. O médico até sugeriu para a minha mulher que eu encomendasse uma peruca. Só faltava essa agora, eu sair por aí de peruca! Para uma mulher ainda é um problema sério perder o cabelo, mas para homem, não. Daqui a três meses começa a crescer de novo. O maior efeito colateral não está em mim, mas nas pessoas que falam comigo. Veja – Como assim? Covas – Vocês, por exemplo. Estão olhando fixamente para os meus olhos para não ficar olhando para a falta de cabelo na minha cabeça. Elas olham para baixo como se não tivessem notado o cabelo. Sei que a maioria das pessoas se assusta muito com a quimioterapia. Para mim, o pior não foi esse tratamento, mas o exame de ressonância magnética. Aquele em que você fica fechado no tubo. Veja – Por quê? O que tem de ruim nesse exame? Covas – No exame de ressonância magnética, o paciente é colocado numa cama que se move para dentro de um tubo. Nessa passagem, o aparelho faz fotografias da parte interna do corpo. O exame não é dolorido, mas desde que eu era mais moço tenho um pesadelo recorrente: estar dentro de um cano ou tubo que vai se fechando e chega um instante em que não vou nem para a frente nem para trás. Esse pesadelo se repetiu em várias oportunidades da minha vida, e de repente eu estava num negócio que não era muito diferente daquilo. Eu tinha horror à idéia. E disse aos médicos: "Vocês façam o que quiserem, mas não me botem naquele trem". Para me acalmar, os médicos prometeram que a minha cabeça iria ficar de fora. Entretanto me deram uma anestesia e acabei indo lá para dentro. Veja – Por que a decisão de tornar públicos todos os detalhes sobre a sua saúde? Covas – Privacidade é um bem inalienável do ser humano, inclusive dos políticos. Se eu tomo banho de mar ou não tomo banho de mar, não preciso ficar dando satisfação a todo instante. Mas se existe alguma razão que me afasta do governo, que me impede de tomar posse no dia devido, as pessoas têm de saber. Era a minha obrigação. Eu vinha de uma eleição penosa. As pessoas tinham uma relação ainda muito próxima comigo. Além disso, vivi com muita intimidade um episódio parecido com esse meu durante a doença do Tancredo Neves, em 1985. Eu era prefeito de São Paulo, ia todo dia lá no Incor. Veja – Qual é a relação entre a doença de Tancredo e a sua? Ele escondeu a verdade. Covas – Esconder é o pior que se pode fazer. Na semana seguinte, a notícia verdadeira acaba se espalhando. Então eu disse para os médicos: contem tudo. O bom e o ruim. No final, acabou sendo extremamente positivo contar tudo porque criou uma empatia muito grande com a população. Veja – A sua postura de transparência é um exemplo a outras personalidades públicas? Covas – Não, estão superestimando o fato. Não tem nada de extraordinário. Não é porque tornei o fato público que sou melhor do que os outros. Veja – O senhor chegou a temer que a doença impedisse a sua posse? Covas – Consultamos a assessoria jurídica e não havia essa possibilidade. A minha sorte foi ter como companheiro o Geraldinho (o vice-governador Geraldo Alckmin). Para ele, posso entregar o paletó de governador e as coisas vão sair como têm de sair. Esse episódio acabou sendo uma aula sobre a importância do vice. Sobre como é preciso haver uma integração a mais próxima possível entre os dois integrantes de uma chapa. Muitos candidatos preferem pegar para vice alguém que represente uma corrente distinta da sua, o que respeito. Se ele é homem, convida uma mulher para ser vice, se é novo, pega uma pessoa velha, se é velho, pega uma nova, se é do partido A, pega do partido B. Eu prefiro dividir os votos, mas não abro mão de ter ao meu lado uma pessoa que me deixa dormir sossegado. Veja – Quando o senhor reassume integralmente o comando do governo? Covas – É lógico que ainda tento me preservar um pouco, mas não me afastei totalmente. Ficava incomodando os secretários pelo telefone celular, participava de reuniões. Agora, quase um mês depois da última aplicação da quimioterapia, voltei a viajar pelo interior. Veja – Existem restrições médicas para trabalhar? Covas – É lógico que o cardiologista sempre pede para você não comer muita gordura, andar, tudo aquilo que a gente não faz. Se a gente fizesse o que eles mandam, não seria necessário que pedissem. Outro dia fui comer feijoada aqui na Casa Militar, mas não estou fazendo isso escondido. Os médicos não estabeleceram nenhuma restrição. Eu já não bebo mesmo e cigarro já faz mais de dez anos que tive de parar. Ainda sinto vontade, mas não fumo. Veja – Aparentemente, nesse seu retorno ao trabalho há mais alinhamento com o Planalto do que no primeiro mandato. O que mudou? Covas – Não vejo mudança de comportamento da minha parte. A gente só não pode deixar o presidente sofrer certos empurrões, certas encostadas na parede, certas violências, às vezes até contra a sua honra, sem uma resposta. Outro dia li no jornal que o senador João Alberto, do PMDB, considera que sua glória na comissão seria pegar um "tucano grande". Essa notícia foi publicada no dia 2 de maio e não foi desmentida até hoje. É de concluir que, de acordo com o relator, a CPI dos Bancos fracassa se não pegar um tucano gordo. Bom, o tucano mais gordo que eu conheço é o presidente da República. Todos os outros são mais fininhos. Eu até era mais gordo, agora fiquei mais fino. Sou muito zeloso das prerrogativas do Congresso, perdi o mandato por conta disso, justamente por lutar por prerrogativas do Congresso. Então eu dou muito valor. Nunca questionei as CPIs pelo fato de serem CPIs, porque essa é uma prerrogativa que não é discutível. Posso até abrir mão de discutir a razão por que elas foram feitas, embora elas pareçam bastante claras. Mas não posso deixar de negar que no fundo elas acabam se orientando no sentido de deixar o presidente da República mal. Acho que cabe a mim fazer esse tipo de alerta. Cada vez mais o presidente vai depender da lealdade do seu partido. Veja – Quando algum tucano fala da sua candidatura à sucessão do presidente Fernando Henrique... Covas – ...é um total despropósito. Veja – Por causa da doença? Covas – Não. Veja – Então vamos imaginar o seguinte cenário: se o senhor fosse um eleitor e entre os candidatos de uma eleição houvesse um que tivesse passado por um infarto, uma cirurgia cardíaca e vencido um câncer, isso pesaria no seu voto? Covas – Lógico que se algum dia eu for candidato de novo tenho de levar a minha saúde em conta. Não sei que tipo de consideração os outros farão. Tive um infarto antes da eleição para senador (em 1986) e, no entanto, até hoje ninguém obteve a votação que eu consegui. Fui candidato a governador já operado. Agora, à medida que você associa isso à idade, com uma série de outros fatores, pode crescer a preocupação nas pessoas. Eu acho que, nesse aspecto, não mentir favorece muito, porque a população vai ganhando confiança no que você afirma em relação a si próprio. Veja – Muitas pessoas tiram lições de episódios difíceis. O senhor tira alguma lição desse caso? Covas – Vivi momentos duros, mas foram instantes muito dignos. A experiência de enfrentar uma doença dessas eu não desejo para ninguém. Mas acabou sendo uma experiência da qual a gente pode tirar muita coisa boa. A maior lição que fica é a solidariedade. Lila tem quase um caixote de medalhas, de santinhos, de água benta que mandaram do Brasil inteiro. Gente que não me conhece pessoalmente, gente de cidades distantes com mensagens de carinho de partir o coração. O melhor desse episódio é que, apesar de todo o sofrimento, todas as provações, essa é uma história com final feliz. E eu devo muito a esses milhares de amigos que fiz sem conhecer.
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