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| ENCICLOPÉDICO
E ANÁRQUICO Roberto Bolaño: seu livro tem assassinatos em série e um escritor de identidade misteriosa. Mas o maior enigma ainda é o título |
Morto aos 50 anos, em 2003, de uma doença hepática, o chileno Roberto Bolaño converteu-se no escritor mais badalado deste início de século. Ganhou certa aura de herói das letras: o latino-americano exilado que levou vida errante até se estabelecer na Espanha e fazer nome como ficcionista. Certos episódios de sua biografia ocupam uma zona indecisa entre a lenda e a realidade como a história de que teria sido preso no Chile, em 1973, logo depois do golpe de estado que levou o general Augusto Pinochet ao poder (amigos de Bolaño ouvidos em uma reportagem do The New York Times acreditam que ele estava a salvo no México ao tempo do golpe). A publicação póstuma de 2666 (tradução de Eduardo Brandão; Companhia das Letras; 856 páginas; 55 reais), romance em que o autor trabalhou nos seus últimos cinco anos, e que acaba de chegar às livrarias brasileiras, provocou uma previsível comoção. Lançada há dois anos nos Estados Unidos, a obra angariou entusiastas de todos os naipes, do escritor cult Jonathan Lethem a Stephen King. A aclamação justifica-se: 2666 é uma narrativa torrencial, caudalosa, um tsunami literário. Dotado de um esplêndido domínio da técnica ficcional, Bolaño é um compulsivo contador de histórias. Narra com volúpia, com um prazer que contagia o leitor.
Que a obra é intrigante, mostra-o já o título, um número ao qual não há referência alguma no texto (em Amuleto, outro livro póstumo, uma via na Cidade do México é comparada a "um cemitério do ano 2666", mas, de novo, não se explica por que esse ano). O copioso texto está dividido em cinco partes relativamente autônomas. Por razões práticas, de mercado, Bolaño que via em 2666 um pecúlio para os dois filhos ainda pequenos pensava em dividir a obra em cinco volumes. Mas os herdeiros, assessorados pelo crítico Ignacio Echevarría, consultor literário da edição póstuma, decidiram respeitar a unidade de 2666, publicando-a como um livro único.
A narrativa começa seguindo a vida acadêmica de quatro críticos obcecados pela obra de um misterioso escritor alemão, Benno von Archimboldi cuja identidade real só se esclarece na parte final. Daí progride para um enredo policial, envolvendo o assassinato de dezenas de mulheres em Santa Teresa, cidade mexicana fictícia inspirada em Ciudad Juarez, na fronteira com os Estados Unidos. É um gigantesco painel ficcional, no qual uma trama puxa a outra. Citações de eventos, livros e figuras históricas sucedem-se vertiginosamente. A certa altura, dois personagens falam sobre fobias, e nada menos do que 31 delas são comentadas. Outro trecho fala de erros ridículos cometidos por escritores, e treze desses cochilos são arrolados (como este, do francês Alphonse Daudet: "O duque apareceu seguido de seu séquito, que ia na frente"). Essa cultura enciclopédica é modulada pelo humor e pela ironia com que Bolaño tratava até mesmo a vida literária como a referência ferina à "coorte de escritores inúteis" cooptados pelo estado no México. 2666 é uma obra desde já consagrada. Merecidamente.