J. R. Guzzo
Preço a pagar
"O
ponto que merece todos os olhares é simples:
para ser grande, como a UE
quer, é preciso pagar
um preço alto, tão alto quanto o tamanho
do sonho"
Ninguém
duvida, já há muito tempo, que a União Europeia é
provavelmente o maior projeto político da atual geração
ou que o euro, a moeda comum a dezesseis dos países que fazem parte dela,
é o seu projeto econômico mais ambicioso. Nada parecido foi tentado
antes, nem depois da formação do grupo, a partir de 1960. A ideia
matriz de tudo isso, como vem sendo dito há cinquenta anos, é que
a união faz a força; melhor ser forte como parte de um conjunto
do que ser apenas mais ou menos por conta própria. No embalo desse princípio,
construiu-se um bloco multinacional que hoje reúne 27 países, tem
500 milhões de habitantes e se tornou uma potência mundial indiscutível,
com um PIB próximo aos 12 trilhões de euros. Em troca, abriu-se
mão de passaportes nacionais, de muita soberania para os governos e até
de uma moeda própria para a maioria dos países-membros e,
sobretudo, foi distribuído um convite permanente para que as ações
individuais de um ou de alguns sócios criem problemas para todos. O temporal
financeiro que a UE vem vivendo neste mês de maio, e que ela pretende superar
fornecendo o equivalente a até 1 trilhão de dólares em créditos
para socorrer a economia de membros aflitos, mostrou que será preciso bem
mais que uma Grécia, onde a crise começou, ou mesmo uma Espanha,
para quebrar a união e destruir a sua moeda comum. Mostrou definitivamente,
também, que projetos dessa grandiosidade são assim mesmo: a partir
de certo ponto, tornam-se difíceis de desmanchar, mas também dão
um extraordinário trabalho para ficar de pé.
Os
responsáveis pela UE devem saber disso. Mas, até cederem na convicção
de que não se deve premiar a delinquência, como falaram em seus discursos
em público, e resolverem se unir na ajuda aos principais devedores, como
acabaram fazendo para evitar um primeiro calote de países que têm
o euro como moeda nacional, gastaram bom tempo numa caça aos culpados tão
neurastênica quanto improdutiva. Muito se lamentou a "falta de liderança"
dentro da comunidade, algo que seria uma das principais razões do tumulto
numa sociedade com 27 governos, ninguém decide, nem é capaz
de convencer os outros a decidir. Foram culpados, é óbvio, os "especuladores
internacionais", embora não se tenha identificado de maneira satisfatória,
desta vez, quem seriam eles. A certa altura, denunciaram-se com ira santa as agências
de rating sediadas nos Estados Unidos, que dão notas a países e
empresas segundo a capacidade que têm de pagar suas dívidas, dentro
de critérios que permanecem um perfeito mistério. Ao rebaixarem
subitamente a avaliação da Grécia, elas estariam, segundo
seus acusadores, "causando a crise", pois espalham o pânico nos
mercados e fecham as torneiras de empréstimos para quem já está
em dificuldade ou tornam muito mais caro o dinheiro que pode sair delas.
Curiosamente, não se questionou por que as notas da Grécia estavam
entre as melhores do mundo até as vésperas de se saber que sua contabilidade
oficial era uma piada. O problema das agências era ficarem dizendo que um
país à beira da bancarrota mantinha plena capacidade de pagar o
que devia e não a sua decisão de mudarem a nota, quando perceberam
o desastre. Na confusão, falou-se em "controles públicos"
sobre as empresas de rating e até numa "agência europeia"
para fazer o trabalho de avaliação. Nada se disse, depois, sobre
como seria possível fazer a primeira coisa, e qual o propósito da
segunda. Só dar notas altas a países da Europa?
A
maior parte da pancadaria, naturalmente, caiu em cima dos próprios gregos.
Foram acusados de gastar demais, endividar-se, falsificar números, mentir
para as autoridades centrais da UE e não fazer nenhum esforço que
gerasse, dentro de casa, o dinheiro necessário para pagar suas despesas.
Por que os gregos podem se aposentar aos 53 anos? Por que têm 14º salário?
Por que os bem conectados não pagam imposto de renda? Por que não
vendem umas ilhas para pagar o que devem? De novo, aí, é indignação
depois da porta arrombada. Todo mundo sabia que a economia da Grécia não
produzia riqueza suficiente para pagar isso tudo, e mais uma Olimpíada,
um novo metrô em Atenas, um aeroporto de última geração.
Mas, enquanto a casa não caiu, preferiu-se olhar para o outro lado.
O
ponto que merece todos os olhares é simples: para ser grande, como a UE
quer, é preciso pagar um preço alto, tão alto quanto o tamanho
do sonho. Incluem-se, nessa conta, as solidariedades obrigatórias
algo que sempre custa muito caro. |