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• Televisão: Glee: a nova série de Ryan MurphyBrasilGolpes na impunidadeO Supremo pune políticos e o Congresso aprova o Ficha Limpa,
que
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Miguel Portela/Diário Nordeste![]() |
| Condenado Zé Gerardo abriu, espera-se, a fila de punições do Supremo, que ainda deve julgar 231 de seus colegas |
O empresário cearense Zé Gerardo tinha tudo para
fazer uma carreira política discreta e ser esquecido depois de deixar
a vida pública. Eleito deputado três vezes, ele exerceu um único
mandato no Executivo: foi prefeito de Caucaia, na região metropolitana
de Fortaleza, entre 1997 e 2000. Essa passagem lhe garantiu um lugar na história.
Zé Gerardo se tornou o primeiro político a ser condenado pelo
Supremo Tribunal Federal (STF) desde a promulgação da Constituição
de 1988. No último dia 13, foi sentenciado a pagar uma multa de 50 salários
mínimos e a passar dois anos na cadeia, pena que foi convertida em serviços
comunitários. O delito de Zé Gerardo foi usar para outras finalidades
500 000 reais reservados para a construção de um açude.
Sete dias depois, o Supremo condenou a três meses de prisão pelo
mesmo crime o deputado Cássio Taniguchi (DEM-PR). Ex-prefeito de Curitiba,
ele pagou precatórios judiciais com dinheiro de obras viárias.
Zé Gerardo e Taniguchi ainda podem recorrer das sentenças e, por
isso, também podem se reeleger em outubro. O destino político
deles poderia ser outro, caso o Senado tivesse referendado o texto do Projeto
Ficha Limpa que a Câmara dos Deputados aprovou há dez dias e que
impedia todo e qualquer condenado em segunda instância de concorrer a
mandatos. Os senadores preferiram dar um passo atrás. Pela versão
enviada para sanção presidencial na semana passada, apenas quem
for condenado a partir da aprovação final da lei ficará
impedido de pleitear cargos eletivos.
A alteração feita pelo senador Francisco Dornelles (PP-RJ) beneficia não só Zé Gerardo e Taniguchi, mas todos aqueles que já receberam alguma condenação. Muitos deles com folhas corridas bem mais longas e escabrosas. Do mesmo partido de Dornelles, o deputado Paulo Maluf (SP) é procurado pela Interpol e pode ser preso se sair do país. Já foi detido por coagir testemunhas e condenado na Justiça paulista por desvio de verba pública. Também responde a processos por formação de quadrilha, lavagem de dinheiro, ocultação de bens, crimes do colarinho-branco e de responsabilidade. Se o texto original do projeto tivesse sido aprovado na íntegra pelo Congresso, Maluf e outros tão enrolados quanto ele não poderiam concorrer em outubro. Na versão de Dornelles, porém, só valerão as condenações futuras proferidas em segunda instância. A alteração ganhou o apelido de "emenda Maluf" (como se fosse possível emendar Maluf).
Evelson de Freitas/AE![]() |
Ainda assim, o Ficha Limpa representa um enorme avanço.
A legislação atual permite que políticos processados se
candidatem a cargos eletivos até que se esgotem todas as possibilidades
de recurso judicial. Eles gozam de uma prerrogativa que não é
conferida a nenhum cidadão que se inscreve, por exemplo, num concurso
público. Como os expedientes de chicana jurídica são múltiplos
- só a quantidade de recursos chega a oito -, a probabilidade
de um político ir para a cadeia ou sofrer qualquer outra punição,
depois de ser pego com a boca na botija, é praticamente nula. No caso
de Taniguchi, por exemplo, o processo se arrastou tanto, mas tanto - treze
anos -, que, ao ser condenado, seu crime já havia prescrito. Ou
seja, ele permanecerá livre como você, leitor.
O Ficha Limpa reduz o alcance dessas manobras ao tornar inelegível o político condenado em segunda instância. Mas não as elimina. A Associação dos Magistrados Brasileiros(AMB), uma das autoras do projeto Ficha Limpa, afirma que a legislação brasileira, para além dos recursos, admite nada menos que trinta ações protelatórias diferentes. A mais comum consiste em postergar o andamento do processo indicando testemunhas difíceis de ser encontradas. De acordo com o Ministério Público Federal, o deputado Zé Gerardo, por exemplo, lançou mão desse e de outros dezoito expedientes semelhantes. A estratégia de sua defesa fez com que a instrução do processo se estendesse por sete anos. Segundo a AMB, outras ações protelatórias comuns são os pedidos de análises periciais, a substituição de testemunhas e a troca de advogados. "Esses artifícios fazem com que muitos processos se prolonguem por mais de vinte anos. O resultado disso é a impunidade", diz a socióloga Maria Tereza Sadek, da Universidade de São Paulo. Por isso, apenas Gerardo e Taniguchi foram sentenciados pelo Supremo e somente seis políticos foram condenados pelo Superior Tribunal de Justiça, que julga governadores. E, mesmo assim, nenhum foi parar na cadeia.
Foto Tharson Lopes/Jornal do Tocantins![]() |
O projeto Ficha Limpa representa um progresso notável também
por ter sido concebido e levado adiante por pressão dos pagadores de
impostos. Ele chegou à Câmara por iniciativa popular, com 4,6 milhões
de assinaturas, colhidas nas ruas, nas empresas e pela internet. Depois de passar
pelos deputados, o texto ameaçou encruar no Senado, porque o líder
do governo na casa, Romero Jucá (PMDB-RR), se recusava a votá-lo.
Jucá, que também responde a processos na Justiça, alegou
que a medida não estava entre as prioridades do governo Lula, por ser
"um projeto da sociedade". O nome disso, em psicanálise, é
"ato falho". Entre os pagadores de impostos, é sem-vergonhice,
mesmo. Ele e seus pares se renderam depois dos protestos de várias entidades.
Não tiveram saída e fizeram o que precisava ser feito, apesar
da "emenda Maluf". A aprovação do Ficha Limpa abre espaço
para que sejam discutidas outras alterações na legislação
que visem a exterminar a impunidade de políticos desonestos.
Foto Nonato de Souza/Folha da Boa Vista![]() |
Para os juízes, a primeira e mais urgente mudança
deve ter como alvo as manobras protelatórias. "É preciso
reformar a legislação de forma tal a acabar de uma vez por todas
com elas", diz o presidente da AMB, Airton Mozart Pires. Sua instituição
defende também alterações no instituto do foro privilegiado,
que faz com que processos penais envolvendo políticos sejam analisados
só em tribunais superiores, e não na Justiça comum. A AMB
sugere que o instituto seja, ao menos, flexibilizado. Pela sua proposta, os
tribunais passariam apenas a julgar os casos - que seriam instruídos
por juízes de primeira instância, assim como ocorre com os dos
cidadãos comuns. "O foro privilegiado tornou-se um instrumento em
favor da corrupção e dos abusos dos políticos", corrobora
o professor de filosofia Roberto Romano. A luta, portanto, continua.
Com reportagem de André Vargas e Vinícius Segalla
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