Brasil
• Especial: Procuradora acusada de espancar menina fala a VEJAGeral
• GenteInternacional
• Colômbia: A vida pós-FarcGuia
• Animais: A escolha do cão de estimaçãoArtes e Espetáculos
• Televisão: Glee: a nova série de Ryan MurphyCinemaEclipse totalO
Escritor Fantasma, de Roman Polanski, é um suspense excelente.
|
Everett
Collection/Keystone![]() |
| À
ESPREITA Ewan McGregor, como o ghost writer que descobre bem mais do que gostaria de saber: todo passado guarda um segredo |
Em O Escritor Fantasma (The Ghost Writer, Inglaterra/França/Alemanha, 2010), que estreia no país na próxima sexta-feira, Ewan McGregor vive um ghost writer profissional que aceita uma incumbência que desde o princípio lhe parece arriscada: redigir a autobiografia do ex-primeiro-ministro inglês Adam Lang (Pierce Brosnan). Bonitão e bom de voto, Lang foi uma estrela neoliberal. Mas caiu em desgraça por conta de seu alinhamento com a política americana mais ou menos como Tony Blair. Em uma casa estupenda, isolada numa ilha, o escritor conhece seu personagem e é enredado em um clima de paranoia. O ghost writer anterior morreu de forma suspeita. A mulher do ex-premiê (Olivia Williams) dá sinais de desequilíbrio. A assessora dele (Kim Cattrall) tem uma fachada lisa e impenetrável que sugere haver muita coisa estranha correndo por trás dela. Nada se encaixa, e tudo cheira a perigo. O Escritor Fantasma é um suspense excelente. Não há atores menos do que afiados no elenco. A trilha do francês Alexandre Desplat é exemplar. A condução da história e a linguagem visual, esparsas e rigorosas, são evidência de um talento superior. E, no entanto, qualquer comentário há de contemplar não apenas as qualidades da direção, como os defeitos do diretor Roman Polanski, envolvido em um desagradabilíssimo imbróglio legal por causa do estupro de uma menina de 13 anos, em 1977. O angu do diretor, aliás, não para de encaroçar: na semana passada, a atriz Charlotte Lewis alegou ter sido também ela abusada pelo cineasta, em 1982, quando contava 16 anos.
Album/Latinstock![]() |
| ANTES DO PESADELO Polanski, no set de Escritor: talento versus iniquidade |
Polanski montou O Escritor Fantasma em sua
casa em Gstaad, na Suíça, onde está em prisão domiciliar
e luta contra o processo da Justiça americana para extraditá-lo
(deve perder a briga). Antes de cumprir sua pena muito branda, aliás
pelo abuso sexual de Samantha Geimer, em 1978, o diretor decidiu fugir
dos Estados Unidos. Viveu as três décadas seguintes na Europa, livre
e celebrado. Na versão de sua biografia que prevalecia, ele era um sujeito
com um passado meio selvagem, é verdade como qualquer outro sujeito
que tivesse fama e dinheiro entre os anos 60 e 70. No fim de 2008, Polanski tentou
invalidar sua condenação. Assim, reacendeu o interesse da Justiça
americana e fez com que todos os detalhes escabrosos do estupro de Samantha finalmente
viessem à luz. Com o apoio de alguns equivocados, tingiu ainda sua defesa
com um viés covarde o de que os artistas não podem ter seus
atos julgados pelas mesmas medidas que se aplicam às pessoas comuns.
Nada disso deveria ter a ver com O Escritor Fantasma. Mas, a esta altura, não resta dúvida de que tanto este filme quanto qualquer outro que o diretor venha a fazer trarão sempre, como aposto, esse passado. Polanski só tem a si mesmo a culpar por se ver na situação constrangedora de ter sua obra suplantada por sua ficha policial. Tanto pior, no caso, que a obra tenha luminosos momentos de grandeza. E que o episódio que o colocou nesse novo relevo seja de uma iniquidade flagrante.
TrailerVideo
|