Livros
Anulação sedutora
Um poeta
analisa o fraco dos intelectuais pelo totalitarismo

Nelson Ascher
Philippe Matsas/Opale
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TESTEMUNHA
DO HORROR
Czeslaw Milosz: em ensaios, o poeta polonês que
viveu sob o nazismo e o comunismo tenta entender por que tantos se tornaram
servos das ditaduras |
Mente
Cativa (tradução de Dante Nery; Novo Século; 248
páginas; 39,90 reais), do polonês Czeslaw Milosz, prêmio Nobel
de Literatura de 1980, é um dos livros indispensáveis do século
XX. Disseca um tipo moderno de política o totalitarismo que
pretende se sobrepor à vida individual, conquistando-a e ocupando-lhe todas
as esferas. O livro pertence à estirpe de 1984, de George Orwell,
e O Zero e o Infinito, de Arthur Koestler. Mas, ao contrário destes,
é uma obra de não ficção. E Milosz, ao contrário
dos outros dois autores, viveu mesmo sob um sistema totalitário
a Polônia comunista.
Considerado por muitos o melhor
poeta polonês moderno, Milosz, em seus 93 anos de vida (morreu em 2004),
foi testemunha dos horrores do século passado. Nascido em território
que hoje pertence à Lituânia, então parte do império
russo dos czares, ele começou a escrever na época do renascimento
nacional da Polônia, que estivera desde o fim do século XVIII sob
ocupação estrangeira. Foi a invasão alemã de seu país
em 1939 que levou sua poe-sia a amadurecer, conforme buscava uma forma capaz de
incorporar as tragédias de sua era. Vendo, de início, a chegada
das tropas soviéticas como uma libertação, ele se aliou ao
regime comunista, trabalhando como diplomata. Incapaz, porém, de se calar
diante de tudo o que havia presenciado, em 1951 o poeta pediu asilo na França.
Livre, enfim, para dizer o que queria, pôs-se imediatamente a redigir o
livro que o tornaria famoso no estrangeiro, Mente Cativa. A obra foi atacada
tanto pela esquerda, que via o autor como um traidor, quanto pela direita, que
o acusava de tentar entender o comunismo em vez de apenas estigmatizá-lo.
Mente
Cativa compõe-se de uma série de ensaios encadeados nos quais
Milosz analisa o que leva intelectuais a abrir mão da liberdade para se
render a um regime que pensa por eles. O autor estuda o caso de quatro escritores
que conhecera e que acabaram se tornando servos voluntários da ditadura
absoluta. Escrevendo antes da morte de Stalin, ele fala do totalitarismo ainda
em seu esplendor, antes que o contraste entre as promessas megalomaníacas
do governo e a miséria cotidiana de seus prisioneiros tivesse reduzido
o bloco soviético a uma farsa habitada por cínicos profissionais.
Se isso poderia aparentemente tornar obsoleta a obra, o fato é que, em
dias como os nossos, nos quais intelectuais defendem acordos com teocracias islâmicas
e tentam impor a unanimidade de uma pretensa linha justa, sua análise da
atração que estes sentem pelas piores tiranias continua atual e
necessária. |