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Educação
A
receita dos bons alunos
Para
ir bem no Enem, não basta
estudar: o negócio é ler bastante
e prestar muita atenção nas aulas

Monica
Weinberg
Alexandre Schneider
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| Victor
Romero: curso de espanhol pela televisão e sonho de estudar
na França |
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O
paulista Victor Manuel Romero, de 19 anos, superou mais de 1,3 milhão
de estudantes ao chegar em primeiro lugar no último Exame
Nacional do Ensino Médio. O Enem é a prova aplicada
pelo Ministério da Educação para medir o aproveitamento
dos estudantes no fim do ciclo escolar. Romero acertou todas as
63 questões da prova e ainda cravou nota 100 no teste de
redação. Seu caso chama atenção sobretudo
pela diferença entre a sua história e a da maioria
dos estudantes que costumam despontar no topo das listas desse tipo
de concurso. Em geral, os campeões vêm de famílias
de renda alta, têm pais com ensino superior e passaram pelas
melhores escolas particulares do país. Com Romero não
foi assim. Sua mãe, dona-de-casa, largou os estudos na 6ª
série para trabalhar em uma fábrica de tecido. Seu
pai, representante comercial em uma firma de sabão em pó,
tem salário na faixa de 2 000 reais por mês. Conseguiu
o diploma universitário tardiamente (formou-se em administração
de empresas aos 45 anos) e a duras penas. Romero também não
veio de escola particular. A família conseguiu bancar seus
estudos até o ensino fundamental. Depois disso, precisou
transferi-lo para a rede pública. O rapaz diz que, para fazer
valer o esforço dos pais, sempre estudou "feito um louco".
Ou seja: mais de três horas por dia, além do período
em que estava na escola. No ano passado, ele cursava o ensino regular
pela manhã e à tarde fazia um curso de técnico
em mecânica. "Era uma precaução. Se meu pai
precisasse, conseguiria arranjar emprego com mais facilidade", explica.
Nas horas vagas, aprendia espanhol, língua dos avós
paternos, por meio de um curso pela televisão.
VEJA
ouviu 54 jovens que não erraram praticamente nenhuma questão
do Enem (em uma escala de zero a 100, tiraram 98 na prova, contra
a média geral de 52), na tentativa de saber o que os bons
estudantes têm em comum. O cruzamento dos dados mostra que,
diferentemente de Victor Romero, a maioria tem uma boa situação
socioeconômica: 80% estudaram em escola particular e 70% têm
pais com curso superior completo e renda acima de 2.600 reais por
mês. Pesquisas já mostraram que jovens vindos de famílias
cujos pais têm boa renda e formação escolar
recebem mais combustível intelectual e têm acesso a
uma vida cultural mais rica fatores fundamentais para o bom
desempenho escolar. Mas os trabalhos apontam também que uma
combinação de esforço pessoal e investimento
na educação é capaz de minimizar, ou mesmo
de anular, a desvantagem da baixa renda. "O que faz a diferença
mesmo é como a família prioriza o estudo", afirma
Ryon Braga, especialista em educação. O campeão
do Enem, por exemplo, diz ter tido no exemplo paterno sua principal
fonte de estímulo. Antonio Romero, pai de Victor, decidiu
voltar a estudar aos 38 anos e até hoje costuma raspar o
salário para abastecer de livros a biblioteca da casa. "Ele
sempre tratou os estudos como uma obsessão", diz o filho.
Como Victor, cerca de 20% dos estudantes que obtiveram o melhor
desempenho no Enem vieram de famílias de baixa renda (menos
de dez salários mínimos) ou cresceram em lares em
que os pais tinham pouca educação formal (concluíram,
no máximo, o ensino médio).
Outro
dado surpreendente revelado pela enquete de VEJA foi o tempo que
a maioria dos entrevistados disse dedicar ao estudo fora da sala
de aula: 31% afirmaram gastar, no máximo, uma hora por dia.
Isso significa uma hora a menos do tempo que o típico aluno
do ensino médio costuma gastar debruçado sobre as
apostilas. A técnica declarada pelos alunos que tiveram um
ótimo desempenho no Enem é simples: prestar atenção
nas aulas e fazer em casa, sistematicamente, os exercícios
pedidos pelos professores.
Os
bons alunos, demonstrou ainda a enquete, também costumam
ler mais do que a média. A maioria dos estudantes ouvidos
contabilizou mais de dez livros por ano, descontando a bibliografia
exigida pela escola. Segundo levantamento do MEC, apenas 20% do
1,3 milhão de jovens que prestaram o Enem declararam ter
o hábito da leitura freqüente e 20% disseram nunca ter
pego em um livro. Para se manterem informados, os melhores alunos
preferem jornais e revistas à televisão, veículo
que predomina na pesquisa do MEC.
O
Enem criado em 1998 para medir o nível de conhecimento
com que os estudantes concluem o ensino médio não
é uma prova tradicional. Especialistas o classificam como
um exame bastante complexo. As questões entrelaçam
áreas de conhecimento e testam a capacidade do aluno de aplicar
o saber teórico a situações práticas.
Os estudantes precisam conhecer, por exemplo, as razões que
explicam o fato de 99% dos casos de malária registrados pelo
Ministério da Saúde ocorrerem na região amazônica.
A resposta exige conhecimentos de biologia, geografia e cultura
geral. "É uma prova inteligente, porque exige intensa habilidade
de abstração da matéria dada em sala de aula",
observa Paulo Renato Souza, ex-ministro da Educação.
Atualmente, 20% das universidades dão aos alunos a possibilidade
de acrescentar a nota do Enem ao resultado do vestibular. A Pontifícia
Universidade Católica do Rio de Janeiro, por exemplo, reserva
metade das suas vagas para os estudantes que tiraram nota acima
de 70 no Enem. Nesse caso, os alunos não precisam passar
pelo vestibular. Já na Universidade de São Paulo,
o estudante pode acrescentar o resultado obtido no Enem à
nota da prova da primeira fase do vestibular. A universidade atribui
peso de 20% ao exame do MEC.
Paulo Liebert/AE
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| Alunos
fazem a prova do MEC, em São Paulo: resultado ajuda no ingresso
na universidade |
A
performance de Victor Romero no teste ajudou-o a conseguir uma das
disputadas vagas na Faculdade de Engenharia na Escola Politécnica
da Universidade de São Paulo, onde está matriculado
desde o início deste ano. Quando não está estudando,
o campeão do Enem namora, lê livros de Stephen King,
toca canções do Paralamas do Sucesso ao violão,
vai a danceterias e gosta de discutir com os amigos os rumos da
guerra no Iraque. "Não sou nerd, mas tenho metas." A próxima,
conta, é conseguir uma bolsa de estudos para fazer um curso
de especialização na França.
O
Enem tem como objetivo mapear a qualidade de ensino, mas também
poderia servir para fisgar os talentos individuais, aqueles jovens
que têm desempenho escolar acima do comum. Atualmente, eles
ficam perdidos no meio das grandes estatísticas. Ao detectar
os talentos, é possível monitorá-los e dar-lhes
estímulo para que transformem seu potencial em conquistas
concretas. Isso acontece nos Estados Unidos, país que tem
como tradição valorizar o talento individual. Os americanos
dispõem de diversos exames, desde as primeiras séries
do ensino básico, que identificam os alunos de rara capacidade.
Eles têm seu talento lapidado com a ajuda de bolsas de estudo
e acompanhamento especial nas escolas e universidades. O Brasil
já tem alguns exames para aferir a qualidade do ensino, mas
nenhum deles dá o devido foco aos estudantes que demonstram
habilidades especiais. O Enem deveria ser usado para esse fim. Com
isso, o país ganharia um mecanismo para rastrear os melhores
e dar-lhes o estímulo necessário para se tornarem
capazes de gerar conhecimento acadêmico de primeira grandeza.
É o que toda nação precisa para crescer.
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O
equívoco das cotas
O
projeto de cotas que o governo enviou ao Congresso na
semana passada, reservando a metade das vagas nas universidades
federais para estudantes de escolas públicas,
recebeu críticas quase unânimes de especialistas.
Além de duvidar de sua eficiência, a maioria
preocupa-se com a ameaça de que ele acabe por
colocar em risco a qualidade do ensino superior. Projeção
feita pela Universidade de São Paulo indica que,
caso ela aplique a proposta do governo, três de
cada dez jovens com nota suficiente para passar no vestibular
ficarão de fora de seus bancos. Em seu lugar,
conseguirão a vaga estudantes com notas quase
60% piores. "Significa que um aluno de alto nível
estudará com outro que mal sabe calcular uma
raiz quadrada", diz o professor Adilson Simonis, responsável
pela pesquisa.
Hoje,
42% dos universitários vêm de escolas públicas.
É um porcentual muito próximo dos 50%
que o governo quer garantir com sua proposta. O problema
é que apenas uma pequena parcela desses estudantes
consegue aprovação nas carreiras mais
disputadas, como medicina (15%) e direito (28%). É
principalmente essa "desigualdade" que o governo quer
reduzir por força de lei. A idéia não
leva em conta, porém, que garantir o acesso do
estudante da rede pública à universidade
não significa assegurar sua permanência
na sala de aula muitas vezes comprometida pela
impossibilidade de pagar custos de transporte, por exemplo.
Nos Estados Unidos, onde a política de cotas
para negros teve bom resultado, as universidades dispunham
de recursos para auxiliar esses estudantes. No Brasil,
o governo diz que pretende destinar bolsas aos futuros
cotistas, mas ainda não sabe o número
de estudantes que conseguirá beneficiar. Além
disso, ao contrário dos Estados Unidos, aqui
a qualidade do ensino nas escolas públicas é
muito desigual. Se a idéia é nivelar as
oportunidades, o governo teria então de criar
cotas para estudantes de escolas públicas boas
e outras para os de escolas públicas ruins. A
verdade é que faria melhor se investisse no maior,
e sempre adiado, desafio da educação:
o de incrementar a qualidade do ensino na rede pública
como um todo essa, sim, uma maneira eficiente
de facilitar o ingresso dos mais pobres na universidade.
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