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Imprensa
Viagra
do jornalismo
Seymour
Hersh não dá trégua ao governo
Bush com suas reportagens investigativas
Fotos AP
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americano ameaça prisioneiro iraquiano (à esq.,
no alto), e civis mortos no massacre de My Lai (à
esq.): crimes militares denunciados pelo jornalista Hersh
(à dir.) |
Antes
que um presidente americano pense em começar uma guerra,
deveria lembrar que existe Seymour Hersh. Há mais de três
décadas o jornalista de 67 anos incomoda os poderosos de
Washington com reportagens sobre desatinos que eles prefeririam
manter em sigilo. Nas últimas três semanas, na revista
New Yorker, na qual escreve desde 1992, Hersh tem disparado
matérias que enfurecem o Pentágono, inflamam o Congresso
e tiram o sossego da opinião pública. A primeira revelou
o relatório secreto das Forças Armadas sobre os maus-tratos
a que eram submetidos os prisioneiros iraquianos em Bagdá.
A segunda mostrou que esse tipo de abuso era mais disseminado do
que o Pentágono admitia. Por fim, na semana passada, afirmou
que o secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, tinha aprovado
técnicas pesadas de interrogatório, o que abriu caminho
para os abusos cometidos na prisão em Bagdá. A última
acusação ruidosamente negada pela cúpula
militar ameaça transformar-se numa enorme crise política
para o governo Bush.
Nestes
tempos de informação instantânea transmitida
pela TV e pelos jornais on-line, é surpreendente que seja
esse jornalista veterano que prefere anotar números
de telefone no verso de cartões amarelos a usar agenda eletrônica
quem anda fazendo diferença. A rede de televisão
CBS, que primeiro conseguiu as fotos de torturas no Iraque, segurou
a divulgação por duas semanas a pedido do Pentágono.
Só as colocou no ar porque soube que Hersh tinha a informação
e não havia força no mundo capaz de demovê-lo
de expor publicamente o que o Exército americano estava fazendo
de errado no Oriente Médio. Hersh disse a VEJA, na semana
passada, que os assessores do Pentágono nem sequer tentaram
convencê-lo a não divulgar a história. "Estou
há muito tempo nessa estrada, eles sabem que não iam
conseguir nada comigo", explicou.
Seymour
Hersh ou Sy, como é conhecido por amigos e inimigos
é o repórter investigativo americano mais importante
de sua geração (e das seguintes também). Foi
ele quem denunciou o maior escândalo da história militar
dos Estados Unidos, o massacre de 500 civis vietnamitas na aldeia
de My Lai por um pelotão americano em 1968. A selvageria
do episódio os soldados americanos estupraram as mulheres
antes de matá-las e executaram até bebês
chocou o mundo e contribuiu para precipitar o fim da Guerra do Vietnã.
Diferentemente de outros expoentes do jornalismo americano, como
Bob Woodward, cujas reportagens sobre o escândalo Watergate
contribuíram para a renúncia do presidente Richard
Nixon nos anos 70, Hersh nunca se tornou palatável aos poderosos.
Ele ainda encarna com afinco o papel de cão de guarda do
interesse público, sem desgrudar o olho de abusos militares,
escândalos de espionagem, ações diplomáticas
secretas e negócios escusos feitos por empresas e políticos.
Entre outras revelações, ele esmiuçou o papel
da CIA no golpe que derrubou o presidente chileno Salvador Allende,
denunciou o bombardeamento do Camboja por ordem do então
secretário de Estado Henry Kissinger e expôs o apoio
implícito da Casa Branca ao programa de armas nucleares de
Israel.
Para
descobrir histórias como essas, Hersh recorre a suas fontes
do Pentágono, da CIA e do governo. São elas que lhe
passam documentos e informações exclusivos sob a garantia
de que não serão identificadas nas reportagens. Às
vezes ele erra. Em 1996, tentou vender à TV um documentário
sobre um suposto caso amoroso entre Kennedy e Marilyn Monroe. Baseava-se
num bilhete da atriz, que se descobriu ser falso. Hersh teve de
excluir a história do livro que escreveu sobre Kennedy, pouco
antes da publicação. Ele voltou a sua melhor forma
depois dos atentados de 11 de setembro de 2001, quando começou
a investigar a política de defesa comandada por Donald Rumsfeld.
Foi como se ele tivesse tomado um viagra do bom jornalismo, comparou
a revista americana Newsweek.
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ENTREVISTA
Não é um Vietnã
O
jornalista Seymour Hersh, da New Yorker, falou
com VEJA, de seu escritório em Washington, sobre
a repercussão de suas matérias sobre a
tortura de presos iraquianos.
Veja
O senhor é criticado por usar muitas
fontes anônimas em suas reportagens.
Hersh
Quando falo com alguém sobre assuntos
secretos, como posso revelar quem me deu o relatório?
É o caso da pessoa que me falou sobre a operação
de tortura que denunciei nesta semana. É contra
a lei fazer o que ela fez, divulgar segredos do governo.
Veja
Qual será a conseqüência
dessas denúncias de tortura?
Hersh
Compare o caso atual com a reportagem que
fiz sobre o massacre de My Lai, na Guerra do Vietnã.
O que nossos soldados fizeram recentemente contra os
prisioneiros iraquianos não foi como em My Lai.
Eles não os executaram. Mas é uma enorme
derrota estratégica. A maior parte dos iraquianos
sunitas gostava de nossa gente, de nossa música,
de nossas roupas, da vida que nós, americanos,
levamos. Tudo isso mudou, porque o que nossos soldados
fizeram é perversidade para com os sunitas. Com
isso, perdemos amigos potenciais e essa é uma
perda estratégica. É muito mais sério
do que as pessoas imaginam.
Veja
O governo americano o critica por revelar
segredos de Estado, argumentando que isso vai contra
a segurança nacional. O que o senhor acha disso?
Hersh
Eu me preocuparia se não estivesse
revelando esses segredos. Muitos dos militares que são
minhas fontes não concordam com minha posição
política. Eu os respeito. Eles vêm falar
comigo porque estão muito descontentes com o
que está acontecendo. Um general importante veio
me dizer dois dias atrás que não suportaria
ver os soldados dele capturados, despidos e humilhados
com um saco enfiado na cabeça. Esse assunto não
tem nada a ver com segurança nacional, tem a
ver com senso comum.
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