|
|
Entrevista:
Ruth
Cardoso
Não
tem modelito
A
ex-primeira-dama faz críticas
ao PT
e diz que ia
a poucas solenidades com
o marido porque tinha
mais o que fazer

Alexandre
Oltramari
Masao Goto Filho
 |
"No
início, nas
reuniões presidenciais,
as
mulheres acompanhavam
o
marido. Com
o tempo, isso mudou" |
|
Nos
oito anos em que seu marido governou o país, a antropóloga
Ruth Cardoso, 73 anos, deixou duas marcas: o empenho com que manteve
sua vida pessoal e familiar longe dos holofotes e o afinco com que
levou seu trabalho à frente do Comunidade Solidária,
o principal programa social do governo tucano, no qual conquistou
o respeito até de adversários políticos. Nesta
entrevista, a primeira que concede desde que deixou Brasília,
Ruth fala sobre sua vida pessoal na época do governo, a rotina
num palácio e o papel de uma primeira-dama termo,
aliás, que ela detesta e critica a política
social do governo do PT, que julga assistencialista e permeada por
uma visão estatista. Depois de uma temporada de um ano em
Washington com o marido, Ruth voltou ao Brasil há pouco mais
de dois meses. Seu tempo, agora, é dividido entre os netos
e o comando da Comunitas, uma ONG voltada para a área social.
No escritório da Comunitas, em São Paulo, a ex-primeira-dama
recebeu VEJA por duas horas e deu a seguinte entrevista.
Veja
O presidente Lula foi criticado por dar à primeira-dama,
Marisa Letícia, uma sala no Palácio do Planalto, embora
ela não tenha função no governo. O que a senhora
acha disso?
Ruth
O problema não é a sala. É a conduta.
Ela está fazendo algum jogo que não deveria? Até
agora eu não soube de nenhuma interferência. A primeira-dama
não foi eleita, não recebe salário, não
é parte do processo político. Apesar disso, tem um
papel importante, com alguma influência. Umas têm mais,
outras menos.
Veja
Por que a senhora não gostava de ser chamada
de primeira-dama?
Ruth
Acho
um americanismo desnecessário. Isso começou nos Estados
Unidos e agora está virando moda até na França.
Mas não faz parte da nossa tradição. Ninguém
nunca se lembrou de chamar de primeira-dama dona Sarah Kubitschek,
que ocupou espaço num governo com grande visibilidade. Lá
nos Estados Unidos, tem um significado tradicional. Aqui, não.
Mas, como o termo já foi introduzido, agora não adianta
reclamar.
Veja
A atual primeira-dama costuma acompanhar o presidente
num grande número de eventos públicos. No plano simbólico,
qual é a importância disso?
Ruth
Deve haver alguma. Mas eu sempre tive mania de trabalhar. Sempre
tive muita coisa para fazer. Tinha todas as minhas atividades, que
me tomavam muito tempo. Precisava viajar para avaliar as ações
do Comunidade Solidária. Estive presente em todas as situações
em que se supunha que a presença da primeira-dama fosse importante.
Mas isso tudo diminuiu muito no mundo. No início, durante
as reuniões presidenciais, todas as mulheres acompanhavam
o marido. Com o passar do tempo, isso mudou. O fato é que
há uma diferença de estilo. Não se pode comparar
Danielle Mitterrand, que tinha uma ONG na qual criticava o governo
do próprio marido, com madame Chirac, que no início
não tinha muita participação política,
mas depois chegou a disputar uma eleição.
Veja
A vida longe do poder é menos emocionante?
Ruth
Voltamos a ter a vida que sempre tivemos. Vou ao supermercado, freqüento
restaurantes, concertos, teatros. Faço tudo o que fazia antes.
A idéia de que vivíamos num mundo mágico não
é verdadeira. É muito agradável voltar a ter
mais liberdade e privacidade. Mas eu não gosto quando se
faz um corte assim. Parece que saímos do Olimpo e voltamos
para o mundo real. O presidente da República não é
um rei. Brasília faz parte do mundo, sim. Quando chegamos
ao Palácio, sabíamos que um dia sairíamos de
lá. Há um mito sobre esse assunto. Até porque
o Alvorada possui uma ala privada. Tínhamos uma vida em família.
Não jantávamos no salão de banquete quando
estávamos apenas os dois.
Veja
Não é complicado viver em um palácio?
Ruth
É muito simples. Está tudo ordenado. Há quem
organize as cerimônias, você sabe onde tem de ficar,
o que precisa fazer. É verdade que às vezes é
um pouco repetitivo. Mas tivemos a oportunidade de conhecer pessoas
muito interessantes.
Veja
Fernando Henrique já disse, em tom de brincadeira,
que sente falta apenas da piscina do Palácio da Alvorada.
A senhora sente saudade de quê?
Ruth
Sabe que ele continua repetindo isso? Eu também gostava da
piscina, mas não é nada que me faça falta no
dia-a-dia.
Veja
A senhora, que sempre foi muito ciosa da privacidade
pessoal e familiar, não acha natural que haja curiosidade
popular sobre a vida dos governantes?
Ruth
Não.
Essa esfera não interfere na vida pública. Defendo
arduamente a distinção entre a esfera pública
e a esfera privada. Lutei durante todo o tempo em que nós
estivemos nessa posição pública para que se
preservasse a vida privada. No Brasil, respeita-se pouquíssimo
isso. A diferença entre nós e os americanos é
que eles, ao elegerem um governante, acreditam piamente que estão
escolhendo também o homem, o cidadão, o pai de família.
Isso faz parte da mitologia americana. O Brasil não é
assim. Quando uma coisa é grave, ela acaba se tornando pública
naturalmente.
Veja
Em parte pelo discurso do PT, em parte pela biografia
do presidente Lula, imaginava-se que a área social seria
o ponto alto do atual governo, mas não é isso que
vem ocorrendo. O que aconteceu?
Ruth
A
pergunta deveria ser respondida pelos petistas. Foram eles que criaram
uma expectativa e ainda não encontraram uma maneira de devolvê-la
aos brasileiros.
Veja
Mas qual é o principal obstáculo?
Ruth
Existem algumas premissas quando se fala em política social.
A primeira é parceria. Isso precisa ocorrer em todos os níveis.
Com o governo, com a sociedade civil, com as universidades. A concepção
do PT é estatista. Nela, o Estado tem de fazer todas as coisas.
Eu já acreditei nisso no passado. No mundo contemporâneo,
no entanto, a coisa não funciona assim. A visão estatista
dificulta muito. Temos um arsenal de gente que conhece, que vivenciou,
que tem experiências novas que precisam ser aproveitadas.
A sociedade brasileira não é amorfa nem apática,
como se costuma descrever. Nem o Brasil tem um número tão
grande de pobres que os impeça de ser mobilizados. Minha
experiência mostra que sempre que abrimos qualquer possibilidade,
no lugarejo mais afastado, as pessoas respondem. O governo não
pode fechar os olhos para essa realidade.
Veja
Quando o presidente Lula convoca os brasileiros a
acabar com a fome, ele não está propondo justamente
isso?
Ruth
O
caminho é esse. A mobilização existe. A resposta
é positiva. A questão é se o governo está
criando parcerias. Se está aproveitando os recursos humanos
que aí estão. Ou se está agindo como um grande
mobilizador de uma idéia, não de um fazer. Recolher
dinheiro e produtos não é parceria. Parceria é
a definição de um objetivo comum. Não existe
parceria sem descentralização. Está faltando
combinar isso. Hoje, falta um diálogo no qual os parceiros
tenham igual possibilidade de interferência. Falta avaliação,
falta prestação de contas, faltam objetivos comuns.
Não pode existir fórmula pronta. Políticas
assistencialistas não têm diminuído a pobreza.
Veja
A política social de Lula é assistencialista?
Ruth
O
Fome Zero, que foi o que apareceu no começo do governo, era
extremamente assistencialista. Distribuir alimentos não sustenta
o desenvolvimento de ninguém. Mas depois houve algumas mudanças.
Não tenho informações detalhadas para avaliar.
Aliás, acho que faltam informações para todos
os brasileiros. Informações sobre como essas ações
estão se desenvolvendo. Hoje, não tenho como avaliar,
embora ache que deveria ter. Até porque é preciso
avaliar os programas enquanto eles estão sendo desenvolvidos.
Não adianta, no fim de um programa, dizer se ele foi ruim
ou bom.
Veja
Existe um problema de gestão na área
social do governo ou houve apenas uma expectativa exagerada por
se tratar de um governo do PT?
Ruth
A expectativa não pode ser usada para explicar tudo. Agora,
até a economia se aproximou da psicologia. Tudo na economia
agora virou questão de expectativa. Veja que, com relação
à política econômica, havia uma expectativa
negativa em relação ao PT. Mas os petistas tiveram
a visão necessária para perceber que o Brasil não
pode viver isolado. Por isso, ainda que tivessem um discurso diferente,
mantiveram o rumo adotado no governo passado. No caso das políticas
sociais, talvez eles ainda estejam reexaminando a questão,
adaptando-se à realidade. Não é fácil
governar. O PT já aprendeu bastante e ainda está aprendendo
muito. Eu gostaria de uma definição mais clara sobre
a maneira de fazer as coisas. Há pessoas muito preparadas
no PT, mas há problemas.
Veja
Que problemas?
Ruth
Eles
estão partidarizando demais a máquina pública.
Isso é criticável. É muito grave. É
claro que o partido precisa dar o rumo do governo. Mas na Europa,
por exemplo, a burocracia pública é muito enraizada.
E muito consciente de seus deveres. Há um controle para que
as pessoas possam saber se ela age com o rigor e a independência
necessários. Isso é fundamental para o desenvolvimento
democrático de um país. No Brasil, porém, o
PT partidarizou a burocracia além do limite.
Veja
Na última década, sobretudo durante
o governo de Fernando Henrique, passou-se a gastar mais com os pobres
e surgiu uma grande variedade de programas descentralizados. Mas
nada disso reduziu a desigualdade. Por quê?
Ruth
A
desigualdade está aumentando no mundo todo. No Brasil, já
era imensa, inaceitável. Precisamos reduzi-la, não
há dúvida. Mas essa meta não pode ser alcançada
rapidamente. Até porque, se existe uma herança maldita,
é a desigualdade de cinco séculos. Não podemos
medir isso de um ano para o outro. A melhor maneira de combater
a desigualdade é a educação. Mas para aumentar
a escolaridade média da população brasileira,
que é imensa, leva-se dez anos.
Veja
Com os dois mandatos de seu marido, a senhora está
entre as primeiras-damas mais longevas do país. Qual o papel
de uma primeira-dama?
Ruth
Primeira-dama
é um ser humano, não é uma Barbie. Não
podemos ter um modelito que sirva para todo mundo. Assim como não
existe modelo para presidente, não pode existir modelo para
primeira-dama. Cada uma desenvolve o trabalho para o qual se sente
mais apta.
Veja
Uma primeira-dama desfruta uma posição
privilegiada para influir em decisões do presidente da República,
não?
Ruth
Eu
não tinha poder algum. Não fui eleita para nada, como
qualquer primeira-dama. Tinha apenas uma posição privilegiada
para conseguir apoios e firmar parcerias na área social.
Sempre me mantive totalmente afastada do governo. Nunca participei
de reunião com ministro nem com ninguém da área
governamental. Aliás, há exemplos de crises conjugais
muito sérias por causa disso. Basta lembrar o ex-presidente
da Argentina Carlos Menem e o ex-presidente do Peru Alberto Fujimori,
cujas mulheres, em algum momento, tentaram interferir politicamente.
Aí dá problema.
Veja
A senhora discutia sobre o governo com seu marido?
Ruth
Muito
pouco. Tínhamos tão pouco tempo juntos que esse não
era o nosso tema preferido. Ele me contava sobre suas dificuldades
e idéias, mas eu nunca tive interferência no governo.
Quando havia coisas que eu sabia, porque tinha estudado, dava minhas
opiniões. Mas governar não é levar em conta
a opinião da mulher nem a do assessor. As avaliações
e as escolhas são muito mais complexas. É por isso
que governar é tão difícil.
Veja
O que a senhora acha da possibilidade de seu marido
se candidatar ao Palácio do Planalto em 2006?
Ruth
É
um problema dele, mas acredito na resposta que ele vem dando quando
é perguntado sobre o assunto. Primeiro, que essas coisas
não são definidas de antemão. Depois, que ele
acha que já deu sua contribuição e que agora
é a vez de outras pessoas. Um dos grandes problemas do país
é a dificuldade de criar novas lideranças. Isso acontece
em todos os partidos. O fato de um ex-presidente dar uma opinião
já o transforma em candidato. Tudo vira um jogo eleitoral.
Veja
A senhora já pensou em disputar uma eleição?
Ruth
Não.
Estou contente com o que já fiz. Sempre participei ativamente,
com posições claras. O que eu sei fazer melhor é
fazer as coisas acontecerem.
Veja
É uma crítica aos políticos?
Ruth
Não. Só acho que não estou apta a fazer política
partidária, assim como os políticos não estão
aptos a fazer o que eu faço.
|