Edição 1855 . 26 de maio de 2004

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André Petry
Ficou feio, presidente

"O melhor seria anunciar a correção da
tabela do IR, cuja falta
de reajuste é uma
injustiça com a qual os tucanos ensinaram os
pagadores de impostos a conviver anos a fio"

As questões pessoais parecem afetar o presidente Lula de modo particularmente intenso. Mais até do que os assuntos de Estado. Além de sua reação despapada contra o repórter do jornal The New York Times cuja reportagem insinuou que bebia demais, Lula ficou muito abalado no fim do mês passado, quando discursava a uma platéia de metalúrgicos da Mercedes-Benz, em São Bernardo, e ouviu um princípio de vaia. Não esperava passar por tamanho constrangimento no seu berço político. Ficou arrasado. No Palácio do Planalto, há quem explique o frenético empenho de Lula em descolar um aumento maior para o salário mínimo – faina que se desdobrou naquela mesma semana do fim de abril – como uma forma de compensar a vaia de São Bernardo. Pode ser. Pena que o presidente não tenha se dedicado também a compensar a vaia fazendo cumprir uma promessa. No discurso aos metalúrgicos, Lula chegou a dizer que "até sexta-feira" teria novidades sobre o imposto de renda, dando a entender que, até aquele dia, 30 de abril, anunciaria o reajuste da tabela do IR, uma bandeira levantada pelas centrais sindicais. A sexta chegou, passou, e nada. Outra sexta veio, e nada. Mais uma e mais outra, e nada.

Na semana passada, o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, anunciou que um reajuste da tabela do IR seria um tumulto orçamentário e praticamente descartou a chance de isso vir a acontecer ainda neste ano. E Lula não disse nada. Na quinta-feira, o presidente fez um pronunciamento na televisão, a pretexto de apresentar um balanço dos seus 500 dias de governo. Houve quem, movido pelo otimismo ilimitado, apostasse que Lula anunciaria o tal reajuste em pleno discurso de rádio e televisão, para produzir assim maior impacto nacional. Outros, mais realistas, apostaram que o presidente explicaria aos assalariados em geral, e particularmente aos metalúrgicos cujas vaias tanto lhe magoam, por que não tivera condições de anunciar o reajuste na data prometida. Ou por que não haveria reajuste algum da tabela do IR, confirmando assim as razões do ministro Palocci. Mas o presidente nem tocou no assunto. Nem uma palavra. Nem um lamento. Nem desculpas. Uma explicação qualquer. Um pedido de novo prazo. Nada.

O presidente da República, já em pleno exercício de seu mandato e não mais sob aquela atmosfera emocional da campanha eleitoral, pode subir num palanque, fazer uma promessa, descer do palanque e não tocar mais no assunto? Na vida comum, entre amigos, vizinhos ou colegas de trabalho, uma promessa descumprida, um acordo desfeito, um arranjo rompido costumam merecer ao menos uma explicação. Na vida pública, muitos políticos e mesmo eleitores imaginam que as regras são diferentes – mas, na essência, sejam bilaterais ou coletivos, os compromissos são pautados por regras iguais. Os metalúrgicos, os assalariados, os cidadãos em geral ainda esperam que o presidente lhes dê uma satisfação. O melhor seria anunciar a prometida correção da tabela do IR, cuja falta de reajuste é uma injustiça com a qual o governo tucano ensinou os pagadores de impostos a conviver anos a fio. Mas, embora não seja o ideal, uma explicação de Lula já bastaria. Nem que seja por etiqueta, elegância ou respeito.

 
 
 
 
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