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André
Petry
Ficou
feio, presidente
"O
melhor seria anunciar a correção da
tabela do IR, cuja falta de
reajuste é uma
injustiça com a qual os tucanos ensinaram os
pagadores de impostos a conviver anos a fio"
As
questões pessoais parecem afetar o presidente Lula de modo
particularmente intenso. Mais até do que os assuntos de Estado.
Além de sua reação despapada contra o repórter
do jornal The New York Times cuja reportagem insinuou que
bebia demais, Lula ficou muito abalado no fim do mês passado,
quando discursava a uma platéia de metalúrgicos da
Mercedes-Benz, em São Bernardo, e ouviu um princípio
de vaia. Não esperava passar por tamanho constrangimento
no seu berço político. Ficou arrasado. No Palácio
do Planalto, há quem explique o frenético empenho
de Lula em descolar um aumento maior para o salário mínimo
faina que se desdobrou naquela mesma semana do fim de abril
como uma forma de compensar a vaia de São Bernardo.
Pode ser. Pena que o presidente não tenha se dedicado também
a compensar a vaia fazendo cumprir uma promessa. No discurso aos
metalúrgicos, Lula chegou a dizer que "até sexta-feira"
teria novidades sobre o imposto de renda, dando a entender que,
até aquele dia, 30 de abril, anunciaria o reajuste da tabela
do IR, uma bandeira levantada pelas centrais sindicais. A sexta
chegou, passou, e nada. Outra sexta veio, e nada. Mais uma e mais
outra, e nada.
Na
semana passada, o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, anunciou
que um reajuste da tabela do IR seria um tumulto orçamentário
e praticamente descartou a chance de isso vir a acontecer ainda
neste ano. E Lula não disse nada. Na quinta-feira, o presidente
fez um pronunciamento na televisão, a pretexto de apresentar
um balanço dos seus 500 dias de governo. Houve quem, movido
pelo otimismo ilimitado, apostasse que Lula anunciaria o tal reajuste
em pleno discurso de rádio e televisão, para produzir
assim maior impacto nacional. Outros, mais realistas, apostaram
que o presidente explicaria aos assalariados em geral, e particularmente
aos metalúrgicos cujas vaias tanto lhe magoam, por que não
tivera condições de anunciar o reajuste na data prometida.
Ou por que não haveria reajuste algum da tabela do IR, confirmando
assim as razões do ministro Palocci. Mas o presidente nem
tocou no assunto. Nem uma palavra. Nem um lamento. Nem desculpas.
Uma explicação qualquer. Um pedido de novo prazo.
Nada.
O
presidente da República, já em pleno exercício
de seu mandato e não mais sob aquela atmosfera emocional
da campanha eleitoral, pode subir num palanque, fazer uma promessa,
descer do palanque e não tocar mais no assunto? Na vida comum,
entre amigos, vizinhos ou colegas de trabalho, uma promessa descumprida,
um acordo desfeito, um arranjo rompido costumam merecer ao menos
uma explicação. Na vida pública, muitos políticos
e mesmo eleitores imaginam que as regras são diferentes
mas, na essência, sejam bilaterais ou coletivos, os compromissos
são pautados por regras iguais. Os metalúrgicos, os
assalariados, os cidadãos em geral ainda esperam que o presidente
lhes dê uma satisfação. O melhor seria anunciar
a prometida correção da tabela do IR, cuja falta de
reajuste é uma injustiça com a qual o governo tucano
ensinou os pagadores de impostos a conviver anos a fio. Mas, embora
não seja o ideal, uma explicação de Lula já
bastaria. Nem que seja por etiqueta, elegância ou respeito.
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