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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
Lições de Brasil
Um livro que reconstitui o Plano Real
conta casos de valor permanente
sobre como funciona o poder no país
O livro 3 000 Dias no Bunker,
do jornalista Guilherme Fiuza (Editora Record), traça uma
bem informada história dos bastidores da concepção
e implementação do Plano Real, entre os governos Itamar
Franco e Fernando Henrique Cardoso, mas não se esgota nisso.
O que tem de melhor são as lições de Brasil,
de valor permanente, que ressaltam das realidades enfrentadas pelo
restrito grupo de acadêmicos reunidos em torno de Fernando
Henrique, quase nenhum deles com experiência do poder, ao
se dispor a enfrentar a inflação, pôr ordem
nas contas nacionais e dar alguma racionalidade à administração
pública.
Tomem-se as reuniões do
malfadado órgão chamado Conselho Monetário
Nacional, que, além de ministros e outros membros do governo,
reunia empresários e sindicalistas. Cabia ao CMN, entre outras
coisas, examinar as multas aplicadas pelo Banco Central aos bancos
privados. Quando o assunto era posto em pauta, o presidente da Febraban,
a federação dos bancos, objetava: "Peço vistas!".
O truque era tão conhecido que todos caíam na risada.
Significava que a multa acabava de embarcar numa viagem sem volta
ao silêncio dos arquivos. Mais adiante, entrava em discussão
um empréstimo do Banco do Brasil ao governo paulista, para
a conclusão da hidrelétrica de Porto Primavera. "Ué,
essa hidrelétrica de novo?", estranhava alguém. O
Banco do Brasil já estourara todos os limites de crédito
para a mesma obra, e ela nunca terminava. O.k., mas contrariar um
pedido desses quem há de? O Conselho acabava aprovando uma
concessão de "excepcionalidade" para aquele caso. "Excepcionalidade",
escreve Fiuza, "era um recurso que, grosso modo, servia para pedir
licença à lei, com todo o respeito".
O grupo que se reuniu para o
Plano Real Pedro Malan, Edmar Bacha, Gustavo Franco, André
Lara Resende, Persio Arida, entre outros elegeu como primeira
tarefa descobrir o tamanho do rombo das finanças públicas.
Impossível. A economia brasileira "não estava apenas
no vermelho", escreve Fiuza. "Estava na clandestinidade." Impunham-se
missões como descobrir as passagens secretas do Orçamento
pelas quais os dinheiros públicos tomavam rumos indesejados.
Murilo Portugal, um dos membros do grupo, tentava extrair o mapa
da mina de um funcionário do Congresso, Aurélio Nonô,
que sabia tudo das tais passagens secretas. Nonô colaborava,
mas com um pé atrás. As relações entre
os dois foram ficando tensas. Um dia, quando saíam de uma
reunião no Congresso, Murilo xingou Nonô, Nonô
xingou Murilo, e os dois acabaram trocando sopapos no estacionamento
da Câmara.
Era o tempo dos bancos estaduais
e das esplêndidas oportunidades de bandalheiras que ofereciam,
dos calotes sucessivos dos governadores em cima do governo federal
e do uso e abuso das empresas estatais. A Companhia Energética
de São Paulo (Cesp) abrigava comitês de filiação
do partido do governador e cedia helicópteros para as campanhas
eleitorais. Era também um cabide de empregos. Entre seus
funcionários figurava um deputado federal, que o livro identifica
como "um dos articuladores do famoso Centrão na Constituinte".
Todo mês, o filho desse deputado ia em seu Porsche até
a empresa, estacionava-o em lugar proibido e recolhia a cesta básica
a que o pai tinha direito. O pai tinha vergonha de ir pessoalmente.
Mas não abria mão de, a cada mês, recolher sua
cesta.
Gustavo Franco, quando concordou
em trocar as aulas na PUC-Rio para integrar-se à equipe,
levou a Brasília só duas mudas de roupa. Achava que
quem cria raízes na capital federal acaba esquecendo o que
foi fazer lá. Um dia, já como diretor do Banco Central,
recebeu precioso conselho de um velho funcionário, Alcindo
Ferreira: "O mais importante para entender aqui é o seguinte:
polícia é polícia, bandido é bandido".
O funcionário explicou melhor: "O senhor vai ver que de vez
em quando vão aparecer coisas esquisitas. Vai ver que são
dois universos separados: se o senhor for polícia, jamais
vai aparecer um bandido para oferecer um negócio. Agora,
no dia em que o senhor molhar o dedinho ali no negócio, o
senhor não é mais polícia".
Quando começou a se reunir,
o grupo pediu especial proteção "contra as boas intenções
do mundo externo". Acordos de salvação nacional, pactos
sociais essas coisas eram anátemas. Tinha-se a convicção
de que os movimentos do tipo "todos juntos, vamos", com as inevitáveis
concessões, um agrado aqui e outro acolá, era receita
certa para o imobilismo. Fernando Henrique já aprendera que
o jogo de harmonização de interesses levava sempre
a um grande empate. Daí ter reunido sua turma num "bunker",
protegida das armadilhas tanto da burocracia quanto do jogo da política.
Pedro Malan era guiado por um pensamento do diplomata americano
George Kennan: "Todo governo tem um núcleo principal de pessoas
dedicadas a seus projetos pessoais. Em segundo lugar, elas cuidam
de seus projetos políticos. E, quando sobra espaço
na agenda, se dedicam àquilo que o país gostaria que
elas fizessem".
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