Edição 1953 . 26 de abril de 2006

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Entrevista: Vinod Thomas
O Brasil está
quase lá

O economista indiano diz que o Brasil
pode deixar Índia e China para trás se fizer
o pouco que falta para deslanchar de vez


João Gabriel de Lima

 

Luiz Antonio

"China e Índia terão de fazer revoluções para implantar a democracia e erradicar a pobreza. Os desafios do Brasil são mais simples"

Num tempo em que o país vive uma fase pessimista por causa dos escândalos de corrupção, o economista indiano Vinod Thomas lançou um livro luminoso: O Brasil Visto por Dentro. A obra foi saudada pelo americano Joseph Stiglitz, prêmio Nobel de Economia, como um livro fundamental para entender o país. Thomas, de 56 anos, morou em Brasília por cinco anos, na função de diretor do Banco Mundial para o Brasil (hoje vive em Washington, como diretor-geral de avaliação de operações da mesma instituição). Ele aproveitou sua estada brasileira para comparar o país com os demais integrantes do chamado grupo dos emergentes. Desse mergulho intelectual, o doutor em economia pela Universidade de Chicago voltou com uma tese polêmica: a de que o Brasil tem tudo para ser a próxima estrela entre os países emergentes, juntando-se à China e à Índia – e com algumas vantagens sobre ambas. Seríamos novamente o "país do futuro", com a vantagem de que esse futuro, segundo ele, pode chegar em cinco anos. Em visita a Brasília, Thomas deu a seguinte entrevista a VEJA.  

Veja – Quais as razões de seu otimismo com o Brasil?
Thomas – É necessário, antes de qualquer coisa, fazer uma relativização. É arriscado fazer projeções. Nos anos 50, um estudo do Banco Mundial apontou Mianmar, Filipinas, Indonésia, Tailândia e Coréia, nessa ordem, como os países mais promissores da Ásia. Como sabemos hoje, a Coréia ultrapassou todos. Feita a ressalva, acho que o Brasil tem, sim, condições ideais para desabrochar a médio prazo. O país está à frente de vários dos outros chamados emergentes numa área importantíssima, que é a da solidez das instituições. Além disso, possui recursos naturais e uma população empreendedora. Tudo isso torna o Brasil extremamente competitivo.  

Veja – A ponto de concorrer com Índia e China, as grandes estrelas da economia mundial na atualidade?
Thomas – Sim. Arrisco-me a dizer que as possibilidades do Brasil são até melhores que as da China e as da Índia, a médio prazo. Para continuarem seus ciclos de crescimento com confiabilidade e sustentabilidade, os dois países asiáticos terão de fazer verdadeiras revoluções em algumas áreas. Parte do sucesso da China tem a ver com o fato de o país ainda possuir um regime autoritário, o que facilita a implementação de projetos de nível nacional com grande disciplina. Essa situação, no entanto, é insustentável a médio prazo. Para participar do mercado internacional você tem de ter práticas aceitáveis no resto do mundo. A China já começou a modificar as leis trabalhistas e de comércio exterior, e logo vai ter de fazer reformas no sentido de se tornar uma democracia. Isso afetará vários privilégios, e certamente terá grandes custos de transição. Pode-se dizer que é uma verdadeira revolução, pela qual o Brasil já passou.  

Veja – A Índia já é uma democracia...
Thomas – Sim, mas o meu país tem de fazer outra revolução igualmente complicada, que é a da inclusão social, numa escala inimaginável para os padrões brasileiros. A Índia tem 250 milhões de pobres, o que significa mais que um Brasil inteiro de miseráveis. Antigamente se achava possível um país crescer primeiro para depois dividir o bolo. Hoje se sabe que o crescimento sustentado só é possível quando se resolve a questão social, e a Índia cedo ou tarde vai ter de encarar esse desafio.

Veja – Os desafios do Brasil, na sua opinião, são mais simples?
Thomas – Pelo menos não há nenhuma revolução envolvida, apenas quatro ou cinco áreas de reforma. A boa notícia é que são mudanças que se retroalimentam, criando um círculo virtuoso. A primeira seria resolver a questão fiscal do governo, centrando nas questões tributária e previdenciária. A segunda seria melhorar a qualidade dos gastos públicos e investimentos. A terceira seria otimizar os recursos destinados às áreas de educação e saúde. Uma quarta questão seria formular uma política inteligente para a exploração de recursos naturais de uma forma sustentável. Claro que, para viabilizar tudo isso, o Brasil teria de fazer uma reforma política.  

Veja – Isso quer dizer que não é tão simples assim...
Thomas – Realmente, às vezes pequenas reformas são mais difíceis de aprovar do que grandes reviravoltas políticas. Mas acho que 2006 é um ano de ouro para aprofundar essa discussão. Em primeiro lugar, por causa da eleição presidencial, que forçará o Brasil a discutir seus problemas. Em segundo, por causa da pressão do mundo globalizado. O Brasil não pode mais esperar. A concorrência nos dias de hoje não vem apenas dos países asiáticos, mas também do Leste Europeu, que está entrando com tudo no mercado mundial. Se o Brasil não fizer suas reformas rapidamente, corre o risco de ficar para trás.

Veja – Se fizermos tudo certo, em quanto tempo o Brasil pode ter um ciclo de crescimento comparável ao da Índia e ao da China?
Thomas – Acho totalmente realista dizer que em cinco anos o Brasil pode atingir uma taxa de crescimento em torno de 6% a 8%. É importante ressaltar que a obsessão por atingir os níveis da Índia e da China, entre 8% e 10%, não é saudável. O Brasil já é um país de renda média, superior à da Índia, que é um país mais pobre, e à da China, que é um país entre renda baixa e renda média. Isso significa que um crescimento na faixa de 6% a 8%, para o Brasil, é perfeitamente aceitável, desde que seja um crescimento sustentado. Ou seja, desde que o país deixe para trás sua tradição de "vôo da galinha", períodos de grande crescimento alternados com desempenho baixo nessa área.  

Veja – O senhor disse que, para atingir o círculo virtuoso, o Brasil teria de fazer uma reforma política. Como seria essa reforma?
Thomas – Existem centenas de ótimos estudos desenvolvidos por intelectuais brasileiros que apontam os principais problemas e propõem soluções. O espírito de uma reforma política, a meu ver, deve ser sempre possibilitar que os consensos da sociedade se transformem em ações adequadas. O Brasil já tem os seus consensos, já sabe o que precisa fazer. O problema é que, na hora das votações no Congresso, acaba prevalecendo o interesse de determinados grupos, e não o da maioria – o que contradiz a própria definição de democracia. O espírito da reforma política deve ser corrigir isso, aperfeiçoando os mecanismos democráticos. Também sou otimista quanto à resolução desse problema. Em geral, quando a situação aperta, os brasileiros conseguem coisas incríveis em pouco tempo.  

Veja – O senhor poderia dar exemplos?
Thomas – Durante anos o Brasil deixou em segundo plano a situação social. Quando resolveu atacar o problema, o fez de forma efetiva. Nos anos 90, o Brasil esteve entre os dez países do mundo com melhor desempenho nessa área, e avançou bastante, embora ainda haja muito trabalho pela frente. Depois da crise do governo Collor, os brasileiros resolveram melhorar a qualidade de sua gestão, e surgiu essa grande idéia que se chama Lei de Responsabilidade Fiscal. Por último, temos de citar a área da macroeconomia. O Brasil de 2006 é bem melhor que o Brasil de 2002 em quase todos os fundamentos – dívida como porcentagem do produto interno bruto, taxa de exportação, déficit em conta corrente, entre outros. Esses avanços todos não são desprezíveis.  

Veja – O senhor acha que o Brasil de 2006 é bem melhor que o Brasil de 2002. Em que medida isso é mérito do governo Lula?
Thomas – Nas duas áreas em que o país avançou mais, a econômica e a social, é difícil dizer se o mérito é de Luiz Inácio Lula da Silva ou de Fernando Henrique Cardoso. Houve uma clara continuidade. O governo do PT surpreendeu a todos com um grau de disciplina fiscal maior do que o da gestão anterior. Nesse quesito, um país pode ser comparado com uma família que tem dívidas, e fica em dúvida sobre se deve quitá-las ou deixar para depois, usando o dinheiro para investir em alguma outra coisa. Nenhum país do mundo é tão atormentado por esse dilema quanto o Brasil. O governo do PT decidiu que melhor seria pagar as dívidas, fazendo superávits primários – o que garantirá, como no caso da hipotética família, maior estabilidade no futuro. Foi, a meu ver, uma decisão acertada. Num país onde a qualidade do gasto público não é tão boa, pagar a dívida costuma ser a melhor política.  

Veja – E na área social?
Thomas – A distribuição de renda hoje está um pouco melhor do que em 2002. Mas, quando você analisa esse número mais de perto, percebe que isso é principalmente conseqüência do investimento a longo prazo na área de educação. Cerca de 40% da melhoria da distribuição de renda se deve à melhoria na distribuição da educação. O que ocorreu no Brasil foi particularmente curioso. O governo do PT, de quem se esperavam principalmente políticas sociais, foi mais efetivo na área macroeconômica. Já a melhoria social se deveu às raízes plantadas no governo anterior.  

Veja – O senhor disse que um dos problemas do Brasil é a má qualidade do gasto público. Poderia explicar melhor?
Thomas – Tomemos como exemplo a área social, na qual o Brasil gasta 20% do produto interno bruto, mais do que muitos países desenvolvidos. O número é enganoso, porque metade desse valor vai para despesas com a Previdência. Ainda assim, o país gasta mais em saúde por habitante do que a China. Só que o chinês tem uma expectativa de vida maior que a do brasileiro, o que significa que os recursos podem não estar tão bem alocados. Os países asiáticos criaram um ambiente mais favorável para que a iniciativa privada atuasse nas áreas de saúde e educação, e isso faz toda a diferença. Falta iniciativa privada no Brasil, assim como também falta avaliar melhor o gasto social, para concentrar os recursos naquilo que realmente funciona. Programas sociais no Brasil são especialmente importantes por causa da distribuição de renda no país, pior que na China e na Índia. Nos dois países asiáticos, cada ponto porcentual no crescimento econômico significa uma melhora de 3 pontos porcentuais na situação da pobreza. No Brasil essa melhora é de apenas 1 ponto porcentual – o que demonstra que o crescimento econômico por si só não vai resolver a situação.  

Veja – Outro país asiático freqüentemente comparado ao Brasil é a Coréia, que há quarenta anos tinha uma renda per capita menor que a brasileira e hoje fustiga os países ricos. O que fizemos de errado nesse período?
Thomas – A comparação com a Coréia é apropriadíssima, pois os dois países tiveram, na mesma época, um modelo de desenvolvimento parecido, com um investimento alto do Estado na economia. A diferença, no caso coreano, é que as empresas subsidiadas eram obrigadas a competir no mercado externo, e por isso se tornaram eficientes. No Brasil, ao contrário, elas tinham o mercado interno protegido, criando uma dependência do subsídio estatal que, no limite, endividou o país. A outra diferença no caso coreano é o investimento maciço em recursos humanos, via revolução educacional. Os coreanos fizeram a coisa certa, que foi investir em todos os níveis, enquanto o Brasil concentrou seus recursos na educação superior.  

Veja – A Índia, no entanto, fez o mesmo, e graças a isso gerou os cérebros que tornam o país competitivo na área de tecnologia de informação...
Thomas – É verdade. O que prova que não há receitas definitivas. A escolha que a Índia fez foi fundamental para que o país atingisse os atuais níveis de crescimento econômico. Por outro lado, manteve 250 milhões de pessoas na pobreza, que é, como eu já disse, o principal desafio que o país terá de enfrentar. A realidade é que, no caso da educação, não há escolha a fazer. Deve-se investir tanto no básico quanto no nível superior – ambos são importantes.  

Veja – Além de aprender com o exemplo de outros países, o Brasil tem alguma lição a dar ao mundo?
Thomas – Eu acredito que sim. O sistema político descentralizado gerou soluções criativas em praticamente todas as áreas. Poucos países têm a diversidade de experiências que tem o Brasil. Sobre como combater a pobreza, temos o caso do Ceará. Minas Gerais deu exemplos de bom gerenciamento do governo. A Bahia, de como atrair investimentos. Santa Catarina e Paraná deram lições de como crescer com sustentabilidade, preservando os recursos naturais. Pernambuco desenvolveu um modelo bem-sucedido na criação de um pólo tecnológico. Além de aprender com outros países, o Brasil deve levar em consideração suas próprias experiências, seguir seu próprio estilo.  

Veja – E como seria esse estilo?
Thomas – O Brasil tem grandes empresas em diferentes áreas, como a Embraer, a Natura, a Gerdau, e elas próprias fornecem exemplos de eficiência ao país. Considero também que seria bom para o Brasil, inclusive em termos de imagem, investir em algumas das vantagens evidentes que possui, mesmo que isso não gere tanto retorno financeiro. Um exemplo é o ecoturismo. Nenhuma nação do mundo tem tanto potencial nessa área quanto o Brasil, que mesmo assim se deixou ultrapassar por Tailândia e Costa Rica. O país teria tudo também para ser o maior exportador do mundo de bens culturais, dadas a diversidade étnica e a riqueza das manifestações. A Inglaterra, que é bem menos diversificada, gera divisas nessa área. Também vejo grandes possibilidades de o país se tornar um centro financeiro, pois é sabidamente eficiente nessa área e conseguiu desenvolver instituições sólidas. O Brasil é competitivo ainda em biotecnologia, medicina, informática... Há grandes potencialidades em várias áreas. É inevitável admitir que se trata, sim, de um país de grande futuro.

 
 
 
 
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