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| | Entrevista:
Vinod Thomas O
Brasil está quase lá
O economista indiano diz que o Brasil pode deixar Índia e China para
trás se fizer o pouco que falta para deslanchar de vez

João Gabriel de Lima
| Luiz Antonio  | "China
e Índia terão de fazer revoluções para implantar a
democracia e erradicar a pobreza. Os desafios do Brasil são mais simples"
| | Num tempo
em que o país vive uma fase pessimista por causa dos escândalos de
corrupção, o economista indiano Vinod Thomas lançou um livro
luminoso: O Brasil Visto por Dentro. A obra foi saudada pelo americano
Joseph Stiglitz, prêmio Nobel de Economia, como um livro fundamental para
entender o país. Thomas, de 56 anos, morou em Brasília por cinco
anos, na função de diretor do Banco Mundial para o Brasil (hoje
vive em Washington, como diretor-geral de avaliação de operações
da mesma instituição). Ele aproveitou sua estada brasileira para
comparar o país com os demais integrantes do chamado grupo dos emergentes.
Desse mergulho intelectual, o doutor em economia pela Universidade de Chicago
voltou com uma tese polêmica: a de que o Brasil tem tudo para ser a próxima
estrela entre os países emergentes, juntando-se à China e à
Índia e com algumas vantagens sobre ambas. Seríamos novamente
o "país do futuro", com a vantagem de que esse futuro, segundo ele, pode
chegar em cinco anos. Em visita a Brasília, Thomas deu a seguinte entrevista
a VEJA. Veja Quais
as razões de seu otimismo com o Brasil? Thomas É
necessário, antes de qualquer coisa, fazer uma relativização.
É arriscado fazer projeções. Nos anos 50, um estudo do Banco
Mundial apontou Mianmar, Filipinas, Indonésia, Tailândia e Coréia,
nessa ordem, como os países mais promissores da Ásia. Como sabemos
hoje, a Coréia ultrapassou todos. Feita a ressalva, acho que o Brasil tem,
sim, condições ideais para desabrochar a médio prazo. O país
está à frente de vários dos outros chamados emergentes numa
área importantíssima, que é a da solidez das instituições.
Além disso, possui recursos naturais e uma população empreendedora.
Tudo isso torna o Brasil extremamente competitivo.
Veja A ponto de concorrer com Índia
e China, as grandes estrelas da economia mundial na atualidade? Thomas
Sim. Arrisco-me a dizer que as possibilidades do Brasil são
até melhores que as da China e as da Índia, a médio prazo.
Para continuarem seus ciclos de crescimento com confiabilidade e sustentabilidade,
os dois países asiáticos terão de fazer verdadeiras revoluções
em algumas áreas. Parte do sucesso da China tem a ver com o fato de o país
ainda possuir um regime autoritário, o que facilita a implementação
de projetos de nível nacional com grande disciplina. Essa situação,
no entanto, é insustentável a médio prazo. Para participar
do mercado internacional você tem de ter práticas aceitáveis
no resto do mundo. A China já começou a modificar as leis trabalhistas
e de comércio exterior, e logo vai ter de fazer reformas no sentido de
se tornar uma democracia. Isso afetará vários privilégios,
e certamente terá grandes custos de transição. Pode-se dizer
que é uma verdadeira revolução, pela qual o Brasil já
passou. Veja
A Índia já é uma democracia... Thomas
Sim, mas o meu país tem de fazer outra revolução igualmente
complicada, que é a da inclusão social, numa escala inimaginável
para os padrões brasileiros. A Índia tem 250 milhões de pobres,
o que significa mais que um Brasil inteiro de miseráveis. Antigamente se
achava possível um país crescer primeiro para depois dividir o bolo.
Hoje se sabe que o crescimento sustentado só é possível quando
se resolve a questão social, e a Índia cedo ou tarde vai ter de
encarar esse desafio. Veja
Os desafios do Brasil, na sua opinião, são mais simples?
Thomas Pelo menos não há nenhuma revolução
envolvida, apenas quatro ou cinco áreas de reforma. A boa notícia
é que são mudanças que se retroalimentam, criando um círculo
virtuoso. A primeira seria resolver a questão fiscal do governo, centrando
nas questões tributária e previdenciária. A segunda seria
melhorar a qualidade dos gastos públicos e investimentos. A terceira seria
otimizar os recursos destinados às áreas de educação
e saúde. Uma quarta questão seria formular uma política inteligente
para a exploração de recursos naturais de uma forma sustentável.
Claro que, para viabilizar tudo isso, o Brasil teria de fazer uma reforma política.
Veja Isso
quer dizer que não é tão simples assim... Thomas
Realmente, às vezes pequenas reformas são mais difíceis
de aprovar do que grandes reviravoltas políticas. Mas acho que 2006 é
um ano de ouro para aprofundar essa discussão. Em primeiro lugar, por causa
da eleição presidencial, que forçará o Brasil a discutir
seus problemas. Em segundo, por causa da pressão do mundo globalizado.
O Brasil não pode mais esperar. A concorrência nos dias de hoje não
vem apenas dos países asiáticos, mas também do Leste Europeu,
que está entrando com tudo no mercado mundial. Se o Brasil não fizer
suas reformas rapidamente, corre o risco de ficar para trás.
Veja Se fizermos tudo certo, em quanto tempo
o Brasil pode ter um ciclo de crescimento comparável ao da Índia
e ao da China? Thomas Acho totalmente realista dizer que
em cinco anos o Brasil pode atingir uma taxa de crescimento em torno de 6% a 8%.
É importante ressaltar que a obsessão por atingir os níveis
da Índia e da China, entre 8% e 10%, não é saudável.
O Brasil já é um país de renda média, superior à
da Índia, que é um país mais pobre, e à da China,
que é um país entre renda baixa e renda média. Isso significa
que um crescimento na faixa de 6% a 8%, para o Brasil, é perfeitamente
aceitável, desde que seja um crescimento sustentado. Ou seja, desde que
o país deixe para trás sua tradição de "vôo
da galinha", períodos de grande crescimento alternados com desempenho baixo
nessa área. Veja
O senhor disse que, para atingir o círculo virtuoso, o Brasil
teria de fazer uma reforma política. Como seria essa reforma? Thomas
Existem centenas de ótimos estudos desenvolvidos por intelectuais
brasileiros que apontam os principais problemas e propõem soluções.
O espírito de uma reforma política, a meu ver, deve ser sempre possibilitar
que os consensos da sociedade se transformem em ações adequadas.
O Brasil já tem os seus consensos, já sabe o que precisa fazer.
O problema é que, na hora das votações no Congresso, acaba
prevalecendo o interesse de determinados grupos, e não o da maioria
o que contradiz a própria definição de democracia. O espírito
da reforma política deve ser corrigir isso, aperfeiçoando os mecanismos
democráticos. Também sou otimista quanto à resolução
desse problema. Em geral, quando a situação aperta, os brasileiros
conseguem coisas incríveis em pouco tempo.
Veja O senhor poderia dar exemplos? Thomas
Durante anos o Brasil deixou em segundo plano a situação
social. Quando resolveu atacar o problema, o fez de forma efetiva. Nos anos 90,
o Brasil esteve entre os dez países do mundo com melhor desempenho nessa
área, e avançou bastante, embora ainda haja muito trabalho pela
frente. Depois da crise do governo Collor, os brasileiros resolveram melhorar
a qualidade de sua gestão, e surgiu essa grande idéia que se chama
Lei de Responsabilidade Fiscal. Por último, temos de citar a área
da macroeconomia. O Brasil de 2006 é bem melhor que o Brasil de 2002 em
quase todos os fundamentos dívida como porcentagem do produto interno
bruto, taxa de exportação, déficit em conta corrente, entre
outros. Esses avanços todos não são desprezíveis.
Veja O senhor
acha que o Brasil de 2006 é bem melhor que o Brasil de 2002. Em que medida
isso é mérito do governo Lula? Thomas Nas
duas áreas em que o país avançou mais, a econômica
e a social, é difícil dizer se o mérito é de Luiz
Inácio Lula da Silva ou de Fernando Henrique Cardoso. Houve uma clara continuidade.
O governo do PT surpreendeu a todos com um grau de disciplina fiscal maior do
que o da gestão anterior. Nesse quesito, um país pode ser comparado
com uma família que tem dívidas, e fica em dúvida sobre se
deve quitá-las ou deixar para depois, usando o dinheiro para investir em
alguma outra coisa. Nenhum país do mundo é tão atormentado
por esse dilema quanto o Brasil. O governo do PT decidiu que melhor seria pagar
as dívidas, fazendo superávits primários o que garantirá,
como no caso da hipotética família, maior estabilidade no futuro.
Foi, a meu ver, uma decisão acertada. Num país onde a qualidade
do gasto público não é tão boa, pagar a dívida
costuma ser a melhor política. Veja
E na área social? Thomas A distribuição
de renda hoje está um pouco melhor do que em 2002. Mas, quando você
analisa esse número mais de perto, percebe que isso é principalmente
conseqüência do investimento a longo prazo na área de educação.
Cerca de 40% da melhoria da distribuição de renda se deve à
melhoria na distribuição da educação. O que ocorreu
no Brasil foi particularmente curioso. O governo do PT, de quem se esperavam principalmente
políticas sociais, foi mais efetivo na área macroeconômica.
Já a melhoria social se deveu às raízes plantadas no governo
anterior. Veja
O senhor disse que um dos problemas do Brasil é a má qualidade
do gasto público. Poderia explicar melhor? Thomas
Tomemos como exemplo a área social, na qual o Brasil gasta 20% do produto
interno bruto, mais do que muitos países desenvolvidos. O número
é enganoso, porque metade desse valor vai para despesas com a Previdência.
Ainda assim, o país gasta mais em saúde por habitante do que a China.
Só que o chinês tem uma expectativa de vida maior que a do brasileiro,
o que significa que os recursos podem não estar tão bem alocados.
Os países asiáticos criaram um ambiente mais favorável para
que a iniciativa privada atuasse nas áreas de saúde e educação,
e isso faz toda a diferença. Falta iniciativa privada no Brasil, assim
como também falta avaliar melhor o gasto social, para concentrar os recursos
naquilo que realmente funciona. Programas sociais no Brasil são especialmente
importantes por causa da distribuição de renda no país, pior
que na China e na Índia. Nos dois países asiáticos, cada
ponto porcentual no crescimento econômico significa uma melhora de 3 pontos
porcentuais na situação da pobreza. No Brasil essa melhora é
de apenas 1 ponto porcentual o que demonstra que o crescimento econômico
por si só não vai resolver a situação.
Veja Outro país asiático
freqüentemente comparado ao Brasil é a Coréia, que há
quarenta anos tinha uma renda per capita menor que a brasileira e hoje fustiga
os países ricos. O que fizemos de errado nesse período? Thomas
A comparação com a Coréia é apropriadíssima,
pois os dois países tiveram, na mesma época, um modelo de desenvolvimento
parecido, com um investimento alto do Estado na economia. A diferença,
no caso coreano, é que as empresas subsidiadas eram obrigadas a competir
no mercado externo, e por isso se tornaram eficientes. No Brasil, ao contrário,
elas tinham o mercado interno protegido, criando uma dependência do subsídio
estatal que, no limite, endividou o país. A outra diferença no caso
coreano é o investimento maciço em recursos humanos, via revolução
educacional. Os coreanos fizeram a coisa certa, que foi investir em todos os níveis,
enquanto o Brasil concentrou seus recursos na educação superior.
Veja A Índia,
no entanto, fez o mesmo, e graças a isso gerou os cérebros que tornam
o país competitivo na área de tecnologia de informação...
Thomas É verdade. O que prova que não há
receitas definitivas. A escolha que a Índia fez foi fundamental para que
o país atingisse os atuais níveis de crescimento econômico.
Por outro lado, manteve 250 milhões de pessoas na pobreza, que é,
como eu já disse, o principal desafio que o país terá de
enfrentar. A realidade é que, no caso da educação, não
há escolha a fazer. Deve-se investir tanto no básico quanto no nível
superior ambos são importantes.
Veja Além de aprender com o exemplo
de outros países, o Brasil tem alguma lição a dar ao mundo?
Thomas Eu acredito que sim. O sistema político descentralizado
gerou soluções criativas em praticamente todas as áreas.
Poucos países têm a diversidade de experiências que tem o Brasil.
Sobre como combater a pobreza, temos o caso do Ceará. Minas Gerais deu
exemplos de bom gerenciamento do governo. A Bahia, de como atrair investimentos.
Santa Catarina e Paraná deram lições de como crescer com
sustentabilidade, preservando os recursos naturais. Pernambuco desenvolveu um
modelo bem-sucedido na criação de um pólo tecnológico.
Além de aprender com outros países, o Brasil deve levar em consideração
suas próprias experiências, seguir seu próprio estilo.
Veja E como seria
esse estilo? Thomas O Brasil tem grandes empresas em diferentes
áreas, como a Embraer, a Natura, a Gerdau, e elas próprias fornecem
exemplos de eficiência ao país. Considero também que seria
bom para o Brasil, inclusive em termos de imagem, investir em algumas das vantagens
evidentes que possui, mesmo que isso não gere tanto retorno financeiro.
Um exemplo é o ecoturismo. Nenhuma nação do mundo tem tanto
potencial nessa área quanto o Brasil, que mesmo assim se deixou ultrapassar
por Tailândia e Costa Rica. O país teria tudo também para
ser o maior exportador do mundo de bens culturais, dadas a diversidade étnica
e a riqueza das manifestações. A Inglaterra, que é bem menos
diversificada, gera divisas nessa área. Também vejo grandes possibilidades
de o país se tornar um centro financeiro, pois é sabidamente eficiente
nessa área e conseguiu desenvolver instituições sólidas.
O Brasil é competitivo ainda em biotecnologia, medicina, informática...
Há grandes potencialidades em várias áreas. É inevitável
admitir que se trata, sim, de um país de grande futuro. |