Edição 1953 . 26 de abril de 2006

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Carta ao leitor
Orçamento é coisa séria


Fox Photos/Getty Images
Winston Churchill sai de casa com a pasta do Orçamento em 1927, quando era ministro da Fazenda

O entrevistado das Páginas Amarelas da presente edição de VEJA é o economista indiano Vinod Thomas, especialista em países emergentes do Banco Mundial. Thomas constata um fato de grande relevância para os brasileiros. Segundo ele, o Brasil já avançou muito na construção de um ambiente econômico capaz de produzir taxas de crescimento fortes o suficiente para debelar o desemprego e aumentar a qualidade de vida da população. Falta pouco, muito pouco. Thomas diz que, em comparação com os grandiosos desafios colocados no caminho da China e da Índia, os que se oferecem aos governantes brasileiros são muito simples. O Brasil já possui uma eficiente e respeitada Lei de Responsabilidade Fiscal. Os mercados descolaram suas análises das patacoadas produzidas em Brasília e enxergam um país real com excelente prognóstico. Isso se revela pela queda constante do chamado risco-país do Brasil.

O que falta? Falta aprovar leis trabalhistas que incentivem a contratação. Falta cortar gastos dos governos para, com isso, permitir ao Banco Central baixar os juros e abrir caminho para investimentos produtivos e maior crescimento. Falta levar a sério o Orçamento da União. Saber quanto podem gastar sem arriscar o futuro das novas gerações é preocupação de todo pai e mãe responsáveis. Em Brasília, esse conceito não é conhecido. Na semana passada, com quatro meses de atraso, finalmente o governo conseguiu que o Congresso aprovasse o Orçamento de 2006. Uma reportagem desta edição mostra que a aprovação só veio depois de muita barganha e troca de favores. Mostra também que o processo orçamentário no Brasil ainda é primitivo e tem muito que melhorar.

A Inglaterra é o país onde esse processo nasceu e é feito há séculos de maneira litúrgica, com os olhos fixos no interesse nacional. Uma vez por ano o chancellor of the Exchequer, o ministro da Fazenda, sai de sua casa no número 11 da Rua Downing, em Londres, mostra a pasta com o Orçamento e vai a pé até a Casa dos Comuns, onde passa o dia discutindo os números. Não existe um processo de aprovação pela simples razão de que o Orçamento inglês é feito pelo próprio Parlamento. No Brasil, copiou-se o nome, mas não a seriedade e a sobriedade com que esse assunto deve ser encarado. Felizmente, como diz Vinod Thomas, talvez falte pouco para superarmos também esse obstáculo.

 
 
 
 
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