|
André
Petry
Uma história severina
"Depois do parto, o
documentário
mostra o enterro da criança, vestida
com a única roupa branca que lhe
compraram e com o corpo inerte num
ataúde do tamanho de uma caixa de
boneca. Era preciso tanto sofrimento?"
Nesta semana, o Supremo Tribunal
Federal começa a ser oficialmente comandado por uma mulher
pela primeira vez em seus quase 200 anos de história.
A ministra Ellen Gracie Northfleet, que toma posse nesta quinta-feira,
terá uma oportunidade histórica para fazer um pouco
de justiça às mulheres brasileiras. Neste semestre
ainda, se tudo correr bem, chegará ao plenário do
Supremo o debate a respeito de uma questão delicada e fundamental:
o direito das mulheres de interromper a gravidez de fetos sem cérebro
cujas chances de sobrevivência fora do útero
são iguais a zero.
No ano passado, o assunto chegou
ao Supremo, o aborto foi devidamente autorizado mas, quatro meses
depois, a autorização foi cancelada. Os ministros
que tiverem interesse em aprofundar-se no assunto e sobretudo
em dar uma olhada no imenso sofrimento que provocam na vida das
brasileiras mais humildes com essas decisões que ora vão
para um lado, ora vão para outro podem assistir a
um documentário singelo e pungente.
Chama-se Uma História
Severina, de autoria de Debora Diniz e Eliane Brum. Em 22 minutos,
o filme narra a dolorosa peregrinação de Severina,
moradora de Chã Grande, no interior de Pernambuco, em busca
do direito de abortar o feto sem cérebro que carregava no
útero. No dia em que o Supremo cancelou o direito ao aborto,
Severina estava internada num hospital para interromper a gravidez
de quatro meses. A cirurgia então foi cancelada e
começou a via-crúcis de Severina e seu marido, Rosivaldo.
A cena mais forte do documentário
é filmada na sala de parto. Ali, Severina, já com
sete meses de gravidez e depois de incontáveis idas e vindas
da burocracia, fica mais de trinta horas em trabalho de parto induzido
e dá à luz uma criança morta, com pouco mais
de 1 quilo. Ao lançar seu primeiro olhar para o filho morto,
no qual a ausência de cérebro está fisicamente
evidente, ela revela todo o seu desespero: "Meu filho, ai meu pai,
meu Deus".
A pergunta que fica à
qual os ministros do Supremo são os únicos que podem
responder é a seguinte: era preciso forçar
Severina a dar à luz uma criança que não sobreviveria
ao parto? Era preciso submetê-la a tamanha tortura física
e psicológica? Depois do parto, o documentário mostra
o enterro da criança, vestida com a única roupa branca
que lhe compraram e com o corpo inerte dentro de um ataúde
das dimensões de uma caixa de boneca. Era preciso tanto sofrimento?
A ministra Ellen Gracie Northfleet,
logo que chegou ao Supremo, deu uma contribuição decisiva
para acabar com uma aberração aquela que só
considerava o estupro como um crime hediondo nos casos em que produzia
lesões corporais graves. A ministra ensinou aos seus pares
que o estupro era sempre hediondo, com ou sem danos físicos
graves. No caso do aborto de fetos sem cérebro, a ministra
terá uma nova chance de ajudar a fazer história a
favor da mulher.
|