Fórmula perfeita
Lygia Fagundes Telles mistura ficção
e memória
em nova coletânea de contos
Carlos Graieb
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Paulo Vasconcelos
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| Lygia: prosa
enxuta em textos com finais misteriosos |
Um dia desses, algum crítico desocupado ainda precisa
escrever uma boa tese a respeito do espírito clássico
de Lygia Fagundes Telles. Sim, já faz um bom tempo
que a autora de Ciranda de Pedra e Seminário
dos Ratos pertence ao rol dos "grandes autores" da ficção
brasileira. Mas não se trata de ser clássica
nesse sentido banal e estereotipado. Estamos nos referindo
à sua maneira profunda, reflexiva, de abordar os
assuntos de nossa "humana condição", para
usar uma frase de Michel de Montaigne. Esse nobre francês
do século XVI resolveu trancar-se em sua biblioteca,
para fugir das mentiras e dos disfarces, e buscar a verdade
do mundo. Redigiu, então, ensaios com títulos
como "Da idade", "Da solidão" ou "Da crueldade".
Lygia, de 77 anos, é uma fã declarada da obra
de Montaigne. Essa admiração transpira em
seus temas e em seus textos, que almejam a perfeição
estilística. Veja-se, por exemplo, o título
rigoroso que ela escolheu para seu novo volume de contos:
Invenção e Memória (Rocco;
125 páginas; 15 reais).
Antes que um leitor recém-chegado, que nunca leu
as obras da escritora, pense que estamos falando de uma
senhora pomposa, é bom pôr os pingos nos is.
Primeiro: a prosa de Lygia é das mais modernas da
literatura brasileira, com uma pontuação toda
própria e uma sintaxe enxutíssima, que deixa
de lado o que não é essencial. Segundo: ela
jamais tem a pretensão de "filosofar". Seu negócio
é a ficção. Se ela obriga o leitor
a pensar e repensar, é graças à ambigüidade,
à ironia e aos finais misteriosos, às vezes
fantásticos, que costuma dar aos seus textos. Tudo
isso está presente em Invenção e
Memória. O livro reúne quinze histórias.
Em umas poucas, o narrador é anônimo. Esse
é o caso de O Menino e o Velho, que, a partir
de algumas observações sobre o cotidiano,
consegue sugerir todo um mundo de perversão e crueldade.
Na maioria dos contos, que misturam fantasia e lembranças
reais, a própria Lygia aparece como personagem. O
melhor deles é Nada de Novo na Frente Ocidental,
que encerra o volume. Ele começa como uma história
engraçada sobre o tempo da II Guerra, quando a autora
se alistou numa certa Legião Universitária
Feminina da Defesa Passiva Antiaérea. E terminaria
com leveza, não fosse o fato de a morte intrometer-se
no enredo, sutilmente, quase sem que o leitor perceba. Daqui
a alguns anos, talvez esse conto venha a fazer parte de
antologias. De modo geral, no entanto, a coletânea
mantém seu nível de excelência. Vale
a pena ler Lygia.