Edição 1 646 -26/4/2000

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Fórmula perfeita

Lygia Fagundes Telles mistura ficção e memória
em nova coletânea de contos

Carlos Graieb

 

Paulo Vasconcelos
Lygia: prosa enxuta em textos com finais misteriosos

Um dia desses, algum crítico desocupado ainda precisa escrever uma boa tese a respeito do espírito clássico de Lygia Fagundes Telles. Sim, já faz um bom tempo que a autora de Ciranda de Pedra e Seminário dos Ratos pertence ao rol dos "grandes autores" da ficção brasileira. Mas não se trata de ser clássica nesse sentido banal e estereotipado. Estamos nos referindo à sua maneira profunda, reflexiva, de abordar os assuntos de nossa "humana condição", para usar uma frase de Michel de Montaigne. Esse nobre francês do século XVI resolveu trancar-se em sua biblioteca, para fugir das mentiras e dos disfarces, e buscar a verdade do mundo. Redigiu, então, ensaios com títulos como "Da idade", "Da solidão" ou "Da crueldade". Lygia, de 77 anos, é uma fã declarada da obra de Montaigne. Essa admiração transpira em seus temas e em seus textos, que almejam a perfeição estilística. Veja-se, por exemplo, o título rigoroso que ela escolheu para seu novo volume de contos: Invenção e Memória (Rocco; 125 páginas; 15 reais).

Antes que um leitor recém-chegado, que nunca leu as obras da escritora, pense que estamos falando de uma senhora pomposa, é bom pôr os pingos nos is. Primeiro: a prosa de Lygia é das mais modernas da literatura brasileira, com uma pontuação toda própria e uma sintaxe enxutíssima, que deixa de lado o que não é essencial. Segundo: ela jamais tem a pretensão de "filosofar". Seu negócio é a ficção. Se ela obriga o leitor a pensar e repensar, é graças à ambigüidade, à ironia e aos finais misteriosos, às vezes fantásticos, que costuma dar aos seus textos. Tudo isso está presente em Invenção e Memória. O livro reúne quinze histórias. Em umas poucas, o narrador é anônimo. Esse é o caso de O Menino e o Velho, que, a partir de algumas observações sobre o cotidiano, consegue sugerir todo um mundo de perversão e crueldade. Na maioria dos contos, que misturam fantasia e lembranças reais, a própria Lygia aparece como personagem. O melhor deles é Nada de Novo na Frente Ocidental, que encerra o volume. Ele começa como uma história engraçada sobre o tempo da II Guerra, quando a autora se alistou numa certa Legião Universitária Feminina da Defesa Passiva Antiaérea. E terminaria com leveza, não fosse o fato de a morte intrometer-se no enredo, sutilmente, quase sem que o leitor perceba. Daqui a alguns anos, talvez esse conto venha a fazer parte de antologias. De modo geral, no entanto, a coletânea mantém seu nível de excelência. Vale a pena ler Lygia.