Edição 1 646 -26/4/2000

VEJA esta semana

Brasil
Internacional
Susto no império
Ricos europeus vão morar onde os impostos são baixos
Eleições presidenciais não abalam a economia
Geral
Economia e negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Colunas
Luiz Felipe de Alencastro
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Seções
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Contexto
Holofote 
Veja essa
Notas internacionais
Hipertexto
Gente
Datas
Cotações
Para usar
Veja recomenda
Os mais vendidos

Banco de Dados 

Para pesquisar digite uma ou mais palavras no campo abaixo. 


 

Susto no império americano

O país mais rico do mundo, que domina os sonhos
de consumo e dita o estilo de vida do planeta,
enfrenta rebeldes das ONGs e a exuberância
irracional nas bolsas de valores

Eliana Simonetti, Isabela Boscov e Ricardo Galuppo

AP
Manifestante preso em Washington, na semana passada: passeata contra a globalização comandada pelos Estados Unidos

Num período glorioso como o de agora, os Estados Unidos crescem um Brasil a cada dois anos. Os soluços recessivos nos anos que precederam esta fase de ouro do presidente Bill Clinton arrancavam-lhes anualmente a riqueza de uma Argentina. A Califórnia consome mais água, vinho, automóveis e computadores do que a China. O PIB americano supera a totalidade dos PIBs somados da França, da Alemanha e do Japão. Ainda que tecnicamente não seja imperial, já que não ocupa fisicamente territórios alheios, como fizeram todos os outros impérios, inclusive o soviético, os Estados Unidos iniciam este século como potência hegemônica planetária. Têm um domínio econômico, cultural, científico e militar inquestionável. Mesmo com todo o tamanho e solidez, o império está sendo observado com certa preocupação pelos outros países. Os próprios americanos temem que o ciclo de crescimento em que navegam há uma década possa estar exagerado. Falam a todo momento em "exuberância irracional" nas bolsas de valores. Estão com medo de que a bolha estoure, de que a economia esfrie, mesmo que ela se mantenha aquecida contra todas as expectativas. Aliás, a economia americana está tão aquecida, artificialmente aquecida para alguns, que o banco central americano vem aumentando gradativamente os juros básicos para evitar um crescimento além do razoável, porque o risco lá na frente poderia ser maior. Vive-se um milagre econômico nos EUA. Mas será mesmo que milagres existem? E, se existem, quanto tempo duram?

François Calil
Em 1997, a Ásia teve uma gripe, o mundo entrou em pânico e o Brasil se contorceu numa crise financeira de malária. Em 1998, o urso que mora na Rússia entrou em hibernação forçada sob o chicote de uma quebradeira colossal. O mundo ficou em pânico outra vez e o Brasil também foi para a cama, com dengue hemorrágica. Em janeiro de 1999, ainda machucado pelas crises da Ásia e da Rússia, o Brasil sofreu uma fuga selvagem de capitais e teve de deixar o real flutuar de 1,20 por dólar para o pico de 2,17, no prazo de dez dias. Muito bem, agora imagine a seguinte hipótese. Foi ruim com a Ásia, péssimo com a Rússia e dramático com o Brasil da âncora cambial estilhaçada. E se, por acaso, o porta-aviões americano é que desse agora uma guinada fora do padrão? Não seria preciso chegar ao ponto improvável, quase impossível, de voltar a sofrer uma daquelas crises como a que enfrentou em 1929. Nem mesmo seria necessário, para causar comoção econômica mundial, que entrasse em ritmo passageiro de paralisia, como aconteceu no poderoso Japão nesta mesma década de ouro dos EUA. O que se está perguntando é: o que aconteceria se o porta-aviões americano apenas mudasse um pouco a rota ou a velocidade? Muita coisa, pode-se ter certeza.

Alguns analistas acreditam que bastaria uma queda duradoura de 20% na poupança que os americanos possuem em suas bolsas de valores para lançar os EUA numa recessão. A bolsa, como sabem todos os que vêm acompanhando os índices Dow Jones e Nasdaq nas últimas semanas, está corcoveando nos Estados Unidos, com uma tendência preocupante de baixa. E o resto do mundo dificilmente escaparia de um período recessivo se esse porta-aviões diminuísse o ritmo. A influência americana é simplesmente grande demais. O México desova 80% de suas exportações no quintal do vizinho Tio Sam. De cada dólar que o Brasil recebe em pagamento pelos produtos que exporta, 22 centavos vêm dos Estados Unidos. A recuperação das economias asiáticas depois do baque de 1997 é atribuída em grande parte à gula do mercado interno americano, que consome com a mesma intensidade desde pentes de ossos de baleia até complexos chips de memória e telas de cristal líquido para computadores produzidos na Ásia.

À sombra dessa máquina de produzir riqueza, o mundo se pergunta se não está excessivamente dependente de seus humores. Mesmo entre os próprios americanos, muitos estão desiludidos com alguns aspectos do modelo adotado dentro de casa e da sua tradução para o exterior: a economia globalizada do novo milênio. Em Washington na semana passada, enquanto os ministros das Finanças de 182 países se reuniam a portas fechadas sob o patrocínio do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial, sindicalistas protestavam nas ruas contra a transferência de fábricas e empregos para os países pobres, e integrantes de ONGs pediam mais ajuda às nações miseráveis do planeta. A primeira alegação é uma tolice. Da mesma forma que o operário da fábrica de pneus do Colorado reclama porque sua empresa transferiu a fábrica para o México, deixando-o sem emprego, o sindicalista brasileiro reclama da globalização porque acha que ela transfere riqueza para os capitalistas americanos. A globalização é um fenômeno inescapável, tem muitas vantagens e produz alguns cadáveres por onde passa. É também uma dança da qual todos os países, queiram ou não, estão participando, a menos que sejam uma Ruanda ou um Zimbábue. Os EUA são, no entanto, a locomotiva do processo. "A História recente do mundo foi marcada por dois eventos extraordinariamente únicos. O surgimento e a derrocada dos regimes totalitários e a inabalável, metódica e crescente concentração de poder pelos Estados Unidos da América", diz o pesquisador J.M. Roberts em seu formidável relato do século XX – Twentieth Century, publicado no ano passado nos Estados Unidos e ainda sem tradução no Brasil.

Olhar de perto as condições de saúde da economia americana tornou-se, portanto, obrigatório para os cidadãos dos outros países. Ninguém sabe ao certo se o ciclo de prosperidade que coincidiu com os dois mandatos do presidente Bill Clinton está no fim. Mas ninguém discute que suas feições econômicas têm um desenho nunca visto na história da riqueza das nações. Para começar, os Estados Unidos estão crescendo seu Brasil a cada dois anos, acumulam um PIB anual de 9 trilhões de dólares, praticamente não têm desemprego e, este é o maior mistério, com todo esse aquecimento, a inflação está domada no patamar baixíssimo de 2,5% ao ano. O motivo é simples: a economia americana está ganhando competitividade a um ritmo altíssimo e isso evita que os preços subam. Onde está o perigo, então? Um deles: os Estados Unidos importam muito mais do que exportam. Ao fim de cada ano, ficam devedores em 300 bilhões de dólares nessas trocas internacionais. A dívida corresponde, aproximadamente, a toda a produção de uma Argentina por ano. Há também a instabilidade do mercado de ações.

Há três semanas, o presidente Bill Clinton convocou uma reunião de cúpula em Washington para esclarecer um ponto. Aliás, dois pontos. O primeiro: se a riqueza americana em ações da chamada nova economia, lastreada nas empresas de internet, é real ou virtual. O segundo ponto: se há perigo de as pessoas, excessivamente otimistas, estarem inflando artificialmente o mercado de ações. A resposta que ele obteve foi esta: ninguém sabe ao certo. Ninguém sabe ao certo, portanto, se vão para cima ou para baixo os cerca de 15 trilhões de dólares em ações que os americanos tinham na semana passada. É mais dinheiro do que todos os impérios do passado, da Antiguidade clássica aos dominadores modernos, jamais puderam juntar. E ninguém sabe ao certo.

"As pessoas comuns que acabaram de chegar ao mercado de ações via internet estão se achando muito espertas. Elas se mostram excessivamente confiantes em suas ações e esse sentimento está inflando artificialmente o mercado", disse a VEJA na semana passada o economista Robert Shiller, professor da Universidade de Yale, cujo livro Exuberância Irracional, lançado recentemente nos Estados Unidos, tem sido lido como o mais erudito alerta a quem está colocando todas as suas fichas no mercado acionário americano (veja entrevista). Há portanto críticos mais eruditos da presente situação dos EUA que os radicais barulhentos que protestavam nas ruas de Washington na semana passada. Ouça-se outro professor americano, Thomas Skidmore, historiador que leciona na Brown University: "Os Estados Unidos têm o poder da força, pois são os detentores do maior arsenal do planeta, têm o poder econômico, já que são os mais ricos e prósperos, e, para completar, ainda têm os artistas de Hollywood, que convencem a humanidade de que seu estilo de vida é o que há de mais sensacional".

Historicamente, os impérios se formaram a partir do domínio territorial, militar e tributário sobre outros povos. Os impérios clássicos, como o romano, o árabe e mesmo o britânico, se impuseram pela força militar e quase sempre acabaram afundando em razão de conflitos com os povos dominados. Por mais invasivos e onipresentes que sejam no mundo moderno, os Estados Unidos não podem ser descritos, pelo critério da historiografia clássica, como um império. Pelo critério puramente econômico, porém, os EUA são inescapavelmente imperiais. A economia americana gera 1 em cada 3 dólares da riqueza em circulação no planeta. A presença dos Estados Unidos na chamada nova economia é ainda maior: eles são responsáveis por 73 centavos de cada dólar gerado pelas empresas de computação e de internet. Nem mesmo o poderoso império britânico, sobre o qual o sol jamais se punha, teve uma presença econômica tão maciça no mundo. É um poder que eclipsa a fortaleza militar associada aos Estados Unidos. Um estudo recente do Estado-Maior das Forças Armadas dos EUA concluiu que seus soldados podem intervir em qualquer ponto do planeta em menos de 24 horas. O mesmo estudo, porém, sustenta que as Forças Armadas americanas não poderiam engajar-se ao mesmo tempo em duas guerras totais por um tempo prolongado. Ou seja, o poderio militar dos Estados Unidos está aparelhado para dar um golpe de mão num inimigo transitório, por maior que seja, mas não pode sozinho meter-se em aventuras de conquista que ampliem esse objetivo inicial para a forma de um leque.

Embora boa parte de seu território tenha sido arrancada do vizinho México pelo poder das armas, os Estados Unidos renunciaram à guerra de conquista e à expansão territorial, por força de lei, ainda nos anos 20. Foi quando se lançaram em outra batalha, a da conquista econômica. Enquanto seus empresários, como Henry Ford, faziam as inovações que preparariam a suprema revolução econômica do século, o consumo de massa, a classe política dava sustentação a essa nova guerra. Os principais movimentos políticos nessa direção:

Primazia dos negócios – O brado definitivo veio de um presidente desastrado e cercado de denúncias de corrupção chamado Calvin Coolidge. "O negócio deste país são os negócios", disse Coolidge em 1928 com uma premonição de rara felicidade. A frase dele poderia ser inscrita num panteão de definições clássicas da alma americana no século XX feitas por seus presidentes. A seu lado, poderiam constar outras três, ditas em épocas distintas pelos presidentes Franklin Roosevelt, John Kennedy e Ronald Reagan.

A guerra justa – Em dezembro de 1941, ainda sob o impacto do ataque de surpresa japonês a Pearl Harbor, que arrastou os americanos para a II Guerra Mundial, Roosevelt disse a sentença histórica: "O povo americano, com o poder dos justos, vai triunfar pela vitória absoluta". Ou seja, os Estados Unidos, na visão de Roosevelt, não devem ser apenas fortes, mas estar ao lado da virtude. Não devem ir para a guerra apenas por decisão de militares ou políticos, mas, sim, por escolha do próprio povo.

O patriotismo – "Não pergunte o que seu país pode fazer por você. Pergunte o que você pode fazer por seu país." Com esta frase do discurso de posse, John Kennedy, o 35º presidente americano, não apenas refletiu as incertezas da Guerra Fria mas deu contornos modernos a uma das características mais típicas dos americanos, o patriotismo.

A liberdade econômica – "O governo não é parte das soluções para este país. O governo é o problema", disse Ronald Reagan, o quadragésimo presidente dos Estados Unidos. Falava da política de gastança pública de seus antecessores imediatos, que gerou inflação e estagnação, a ponto de ameaçar a hegemonia do país no mundo. Japão e Alemanha mostraram suas garras econômicas nesse período e foram descritos como os novos líderes do mundo ocidental por autores como o economista americano Lester Thurow. Embora tenha sido ele próprio um feroz produtor de déficits estatais, Reagan acabou acendendo a luz vermelha da ineficiência da máquina pública. Com isso, contribuiu para reconduzir os Estados Unidos à austeridade fiscal. A cômoda situação atual, que combina pleno emprego e prosperidade sem inflação, não poderia ter sido atingida sem as sementes plantadas durante o governo de Ronald Reagan.

Quando se discute o real poder dos Estados Unidos, fala-se muito em tecnologia, fábricas de carros e de jatos. Nada disso deve ofuscar o dínamo cultural por meio do qual os EUA exercem um domínio incontrastável sobre os outros países. É freqüente ver autoridades francesas reclamando da invasão de seu território por produtos da cultura de massa americana, especialmente o cinema. A França mantém uma política protecionista ativa em benefício de sua indústria cinematográfica. Graças aos esforços do governo francês, os filmes de Hollywood hoje formam apenas um terço do que é lançado no país. Ainda assim, em 1998, a produção hollywoodiana conquistou seis das dez maiores bilheterias entre os franceses. Se não houvesse protecionismo, a França, por escolha dos próprios cidadãos, já teria fechado as portas de sua indústria de cinema. A batalha é mais inglória em outras partes do mundo. No ano passado, foram lançadas nos cinemas brasileiros 211 fitas. Mais de 60% delas eram americanas e oito figuraram entre as dez mais vistas. No Canadá, que divide com os Estados Unidos uma fronteira de dimensões continentais, o índice de filmes fornecidos pelo vizinho chega facilmente aos 90%. Os canadenses, claro, também se queixam, como a maioria dos brasileiros e franceses. Afinal, todas as pessoas que compram bilhetes nos guichês dos cinemas, em São Paulo, Toronto ou Paris, estão exercendo uma opção preferencial pelo cinema rico na versão Hollywood. Nos festivais, os jurados muitas vezes aplaudem belos filmes de cinemas pobres, mas esse critério, infelizmente, não costuma funcionar para as multidões. Com os filmes, os livros ou o rock vem outra coisa. "Os Estados Unidos não estão interessados apenas em exportar seus filmes. Eles querem exportar é seu estilo de vida", acusa Gilles Jacob, diretor do Festival de Cannes.

O diagnóstico de Jacob é impecável. Só é preciso completar o raciocínio: não faltam, mundo afora, interessados em comprar esse produto de exportação, caso contrário ele não seria vendido. O que fascina as platéias, além dos efeitos especiais, é o retrato idealizado que as fitas fazem da sociedade americana, no qual sobressaem valores como vitalidade, dinamismo, mobilidade social, igualdade, justiça e a certeza de que é possível vencer pelo próprio esforço. Ou seja, tudo aquilo que compõe as aspirações da humanidade desde as revoluções democráticas do século XVIII, mas que até hoje ninguém desfruta a contento em parte alguma do planeta. Além disso, o cinema americano canta as glórias do consumo com um despudor que não se vê em nenhum outro. E, desde a derrocada do comunismo e a decolagem da globalização econômica, há cada vez mais candidatos dispostos a se render ao canto dessa sereia.

Universal Pictures
O resultado pode ser sentido na prática: de acordo com o jornal The New York Times, hoje a indústria do entretenimento é o segundo mais lucrativo artigo de exportação dos Estados Unidos. Só perde para a tecnologia aeroespacial. É espantoso, quando se considera que os americanos ainda são os maiores consumidores de seus próprios produtos. Um terço das vendas de CDs do mundo, por exemplo, acontece dentro do próprio país. Metade do faturamento de Hollywood é doméstico. O consumo de revistas e livros é gigantesco e a televisão não conhece rival no mundo – quase todos os domicílios têm televisores. Mas todos os grandes conglomerados de entretenimento do país concordam num ponto: estão explorando um mercado maduro, que comporta índices limitados de crescimento. Ganhar o mundo é essencial para subsistir.

Essa guerra vem sendo travada em várias frentes, com resultados irregulares. Ao contrário do que se imagina, não tem sido tão fácil para os americanos estabelecer sua hegemonia em outras áreas da cultura de massa além do cinema. No mercado de rock e música pop, a concorrência britânica é acirradíssima, sem falar na disputa com os artistas locais. Na Espanha, Alemanha e França, os artistas desses próprios países respondem por metade das vendas, em média. No Brasil, a preferência pela produção nacional bate nos 80%. Na moda, o domínio europeu é incontestável. Também na televisão a briga é feia. Embora os canais por assinatura americanos venham ganhando espaço na Ásia, Europa e América Latina, a televisão aberta se mostra bem mais refratária à influência ianque. A Rede Globo, por exemplo, quase não está exibindo mais seriados americanos. Acha mais compensador bancar os altos custos de produzir seus próprios programas. Várias das grandes editoras americanas estão nas mãos de estrangeiros, como a Bertelsmann alemã, que controla a gigante Random House. Até nos musicais, gênero que era americano por excelência, quem reina é um estrangeiro: o inglês Andrew Lloyd Webber, cujo Fantasma da Ópera faturou 2,5 bilhões de dólares em todo o mundo, segundo se estima.

Nesse quadro, o cinema é a mais decisiva arma estratégica da indústria de entretenimento dos Estados Unidos. É ele que açula o gosto dos fregueses estrangeiros e abre caminho para novas fontes de lucro. Não à toa, todos os grandes conglomerados do setor – como Sony, Disney, Time Warner, Seagram, Viacom e News Corp. – têm em sua base um estúdio de cinema. Hollywood é, por assim dizer, a comissão de frente da força imperial americana, como tem sido desde os anos 20, quando se tornou a primeira onda verdadeiramente globalizadora do século XX. E, não custa lembrar, globalizada também. Como convém a um país formado por tantos povos e culturas, foi nos Estados Unidos que ilustres cineastas estrangeiros, como o austríaco Billy Wilder e os ingleses Charles Chaplin e Alfred Hitchcock, fizeram seus melhores trabalhos. Sem ter uma "alta cultura" com que brigar, Hollywood já nasceu rodando fitas em escala industrial, pronta para divertir multidões. Desde seus primórdios, vem colhendo e misturando influências sem o menor pudor. De ETs que querem voltar para casa, mortos que narram seus últimos dias de vida para a platéia ou halterofilistas austríacos que vêm do futuro para dizer "Hasta la vista, baby", não há limite para o que o cinema americano considera seu território. O saldo é discutível: para cada filme de qualidade, Hollywood distribui pelo mundo um punhado de bobagens sem nenhum valor. Mas essa voracidade pelo novo, que durante séculos fez crescer o Império Romano, é o que fortifica também o novo império americano. Por mais que isso doa a franceses, canadenses e alguns brasileiros.

Mas um pouco de moderação na desinibição trilionária dos Estados Unidos não faria mal a ninguém. O economista brasileiro Alexandre Scheinkman, pesquisador da Universidade Princeton, vê com satisfação a possibilidade de crescimento de núcleos concorrentes com os Estados Unidos na Europa unificada e na Ásia. "A existência de uma Europa forte pode criar um pólo econômico tão exuberante como o americano. Em alguns setores da tecnologia, ela disputa a hegemonia planetária com os Estados Unidos. A divisão de poder, que virá com certeza, tornará o mundo mais seguro e menos dependente do sucesso americano", diz o economista. Ufa!

 
Saiba mais
Dos arquivos de VEJA
  Susto na Disney das ações
  A batalha de Seattle
Da internet
  Nasdaq
  Casa Branca
  Federal Reserve
  CASA-Characteristics And Sales Analysis