Susto no império americano
O país mais rico do mundo, que domina
os sonhos
de consumo e dita o estilo de vida do planeta,
enfrenta rebeldes das ONGs e a exuberância
irracional nas bolsas de valores
Eliana Simonetti, Isabela Boscov e
Ricardo Galuppo
AP
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| Manifestante preso em
Washington, na semana passada: passeata contra a globalização
comandada pelos Estados Unidos |
Num período glorioso como o de agora, os Estados Unidos
crescem um Brasil a cada dois anos. Os soluços recessivos
nos anos que precederam esta fase de ouro do presidente
Bill Clinton arrancavam-lhes anualmente a riqueza de uma
Argentina. A Califórnia consome mais água, vinho, automóveis
e computadores do que a China. O PIB americano supera a
totalidade dos PIBs somados da França, da Alemanha e do
Japão. Ainda que tecnicamente não seja imperial, já que
não ocupa fisicamente territórios alheios, como fizeram
todos os outros impérios, inclusive o soviético, os Estados
Unidos iniciam este século como potência hegemônica planetária.
Têm um domínio econômico, cultural, científico e militar
inquestionável. Mesmo com todo o tamanho e solidez, o império
está sendo observado com certa preocupação pelos outros
países. Os próprios americanos temem que o ciclo de crescimento
em que navegam há uma década possa estar exagerado. Falam
a todo momento em "exuberância irracional" nas
bolsas de valores. Estão com medo de que a bolha estoure,
de que a economia esfrie, mesmo que ela se mantenha aquecida
contra todas as expectativas. Aliás, a economia americana
está tão aquecida, artificialmente aquecida para alguns,
que o banco central americano vem aumentando gradativamente
os juros básicos para evitar um crescimento além do razoável,
porque o risco lá na frente poderia ser maior. Vive-se um
milagre econômico nos EUA. Mas será mesmo que milagres existem?
E, se existem, quanto tempo duram?
François Calil
Em
1997, a Ásia teve uma gripe, o mundo entrou em pânico e
o Brasil se contorceu numa crise financeira de malária.
Em 1998, o urso que mora na Rússia entrou em hibernação
forçada sob o chicote de uma quebradeira colossal. O mundo
ficou em pânico outra vez e o Brasil também foi para a cama,
com dengue hemorrágica. Em janeiro de 1999, ainda machucado
pelas crises da Ásia e da Rússia, o Brasil sofreu uma fuga
selvagem de capitais e teve de deixar o real flutuar de
1,20 por dólar para o pico de 2,17, no prazo de dez dias.
Muito bem, agora imagine a seguinte hipótese. Foi ruim com
a Ásia, péssimo com a Rússia e dramático com o Brasil da
âncora cambial estilhaçada. E se, por acaso, o porta-aviões
americano é que desse agora uma guinada fora do padrão?
Não seria preciso chegar ao ponto improvável, quase impossível,
de voltar a sofrer uma daquelas crises como a que enfrentou
em 1929. Nem mesmo seria necessário, para causar comoção
econômica mundial, que entrasse em ritmo passageiro de paralisia,
como aconteceu no poderoso Japão nesta mesma década de ouro
dos EUA. O que se está perguntando é: o que aconteceria
se o porta-aviões americano apenas mudasse um pouco a rota
ou a velocidade? Muita coisa, pode-se ter certeza.
Alguns analistas acreditam que bastaria uma queda duradoura
de 20% na poupança que os americanos possuem em suas bolsas
de valores para lançar os EUA numa recessão. A bolsa, como
sabem todos os que vêm acompanhando os índices Dow Jones
e Nasdaq
nas últimas semanas, está corcoveando nos Estados Unidos,
com uma tendência preocupante de baixa. E o resto do mundo
dificilmente escaparia de um período recessivo se esse porta-aviões
diminuísse o ritmo. A influência americana é simplesmente
grande demais. O México desova 80% de suas exportações no
quintal do vizinho Tio Sam. De cada dólar que o Brasil recebe
em pagamento pelos produtos que exporta, 22 centavos vêm
dos Estados Unidos. A recuperação das economias asiáticas
depois do baque de 1997 é atribuída em grande parte à gula
do mercado interno americano, que consome com a mesma intensidade
desde pentes de ossos de baleia até complexos chips de memória
e telas de cristal líquido para computadores produzidos
na Ásia.
À
sombra dessa máquina de produzir riqueza, o mundo se pergunta
se não está excessivamente dependente de seus humores. Mesmo
entre os próprios americanos, muitos estão desiludidos com
alguns aspectos do modelo adotado dentro de casa e da sua
tradução para o exterior: a economia globalizada do novo
milênio. Em Washington na semana passada, enquanto os ministros
das Finanças de 182 países se reuniam a portas fechadas
sob o patrocínio do Fundo Monetário Internacional e do Banco
Mundial, sindicalistas protestavam nas ruas contra a transferência
de fábricas e empregos para os países pobres, e integrantes
de ONGs pediam mais ajuda às nações miseráveis do planeta.
A primeira alegação é uma tolice. Da mesma forma que o operário
da fábrica de pneus do Colorado reclama porque sua empresa
transferiu a fábrica para o México, deixando-o sem emprego,
o sindicalista brasileiro reclama da globalização porque
acha que ela transfere riqueza para os capitalistas americanos.
A globalização é um fenômeno inescapável, tem muitas vantagens
e produz alguns cadáveres por onde passa. É também uma dança
da qual todos os países, queiram ou não, estão participando,
a menos que sejam uma Ruanda ou um Zimbábue. Os EUA são,
no entanto, a locomotiva do processo. "A História recente
do mundo foi marcada por dois eventos extraordinariamente
únicos. O surgimento e a derrocada dos regimes totalitários
e a inabalável, metódica e crescente concentração de poder
pelos Estados Unidos da América", diz o pesquisador
J.M. Roberts em seu formidável relato do século XX
Twentieth Century, publicado no ano passado nos Estados
Unidos e ainda sem tradução no Brasil.
Olhar de perto as condições de saúde da economia americana
tornou-se, portanto, obrigatório para os cidadãos dos outros
países. Ninguém sabe ao certo se o ciclo de prosperidade
que coincidiu com os dois mandatos do presidente Bill Clinton
está no fim. Mas ninguém discute que suas feições econômicas
têm um desenho nunca visto na história da riqueza das nações.
Para começar, os Estados Unidos estão crescendo seu Brasil
a cada dois anos, acumulam um PIB anual de 9 trilhões de
dólares, praticamente não têm desemprego e, este é o maior
mistério, com todo esse aquecimento, a inflação está domada
no patamar baixíssimo de 2,5% ao ano. O motivo é simples:
a economia americana está ganhando competitividade a um
ritmo altíssimo e isso evita que os preços subam. Onde está
o perigo, então? Um deles: os Estados Unidos importam muito
mais do que exportam. Ao fim de cada ano, ficam devedores
em 300 bilhões de dólares nessas trocas internacionais.
A dívida corresponde, aproximadamente, a toda a produção
de uma Argentina por ano. Há também a instabilidade do mercado
de ações.
Há três semanas, o presidente Bill Clinton convocou uma
reunião de cúpula em Washington para esclarecer um ponto.
Aliás, dois pontos. O primeiro: se a riqueza americana em
ações da chamada nova economia, lastreada nas empresas de
internet, é real ou virtual. O segundo ponto: se há perigo
de as pessoas, excessivamente otimistas, estarem inflando
artificialmente o mercado de ações. A resposta que ele obteve
foi esta: ninguém sabe ao certo. Ninguém sabe ao certo,
portanto, se vão para cima ou para baixo os cerca de 15
trilhões de dólares em ações que os americanos tinham na
semana passada. É mais dinheiro do que todos os impérios
do passado, da Antiguidade clássica aos dominadores modernos,
jamais puderam juntar. E ninguém sabe ao certo.
"As pessoas comuns que acabaram de chegar ao mercado
de ações via internet estão se achando muito espertas. Elas
se mostram excessivamente confiantes em suas ações e esse
sentimento está inflando artificialmente o mercado",
disse a VEJA na semana passada o economista Robert Shiller,
professor da Universidade de Yale, cujo livro Exuberância
Irracional, lançado recentemente nos Estados Unidos,
tem sido lido como o mais erudito alerta a quem está colocando
todas as suas fichas no mercado acionário americano (veja
entrevista).
Há portanto críticos mais eruditos da presente situação
dos EUA que os radicais barulhentos que protestavam nas
ruas de Washington na semana passada. Ouça-se outro professor
americano, Thomas Skidmore, historiador que leciona na Brown
University: "Os Estados Unidos têm o poder da força,
pois são os detentores do maior arsenal do planeta, têm
o poder econômico, já que são os mais ricos e prósperos,
e, para completar, ainda têm os artistas de Hollywood, que
convencem a humanidade de que seu estilo de vida é o que
há de mais sensacional".
Historicamente, os impérios se formaram a partir do domínio
territorial, militar e tributário sobre outros povos. Os
impérios clássicos, como o romano, o árabe e mesmo o britânico,
se impuseram pela força militar e quase sempre acabaram
afundando em razão de conflitos com os povos dominados.
Por mais invasivos e onipresentes que sejam no mundo moderno,
os Estados Unidos não podem ser descritos, pelo critério
da historiografia clássica, como um império. Pelo critério
puramente econômico, porém, os EUA são inescapavelmente
imperiais. A economia americana gera 1 em cada 3 dólares
da riqueza em circulação no planeta. A presença dos Estados
Unidos na chamada nova economia é ainda maior: eles são
responsáveis por 73 centavos de cada dólar gerado pelas
empresas de computação e de internet. Nem mesmo o poderoso
império britânico, sobre o qual o sol jamais se punha, teve
uma presença econômica tão maciça no mundo. É um poder que
eclipsa a fortaleza militar associada aos Estados Unidos.
Um estudo recente do Estado-Maior das Forças Armadas dos
EUA concluiu que seus soldados podem intervir em qualquer
ponto do planeta em menos de 24 horas. O mesmo estudo, porém,
sustenta que as Forças Armadas americanas não poderiam engajar-se
ao mesmo tempo em duas guerras totais por um tempo prolongado.
Ou seja, o poderio militar dos Estados Unidos está aparelhado
para dar um golpe de mão num inimigo transitório, por maior
que seja, mas não pode sozinho meter-se em aventuras de
conquista que ampliem esse objetivo inicial para a forma
de um leque.
Embora boa parte de seu território tenha sido arrancada
do vizinho México pelo poder das armas, os Estados Unidos
renunciaram à guerra de conquista e à expansão territorial,
por força de lei, ainda nos anos 20. Foi quando se lançaram
em outra batalha, a da conquista econômica. Enquanto seus
empresários, como Henry Ford, faziam as inovações que preparariam
a suprema revolução econômica do século, o consumo de massa,
a classe política dava sustentação a essa nova guerra. Os
principais movimentos políticos nessa direção:
Primazia dos negócios O brado definitivo veio
de um presidente desastrado e cercado de denúncias de corrupção
chamado Calvin Coolidge. "O negócio deste país são
os negócios", disse Coolidge em 1928 com uma premonição
de rara felicidade. A frase dele poderia ser inscrita num
panteão de definições clássicas da alma americana no século
XX feitas por seus presidentes. A seu lado, poderiam constar
outras três, ditas em épocas distintas pelos presidentes
Franklin Roosevelt, John Kennedy e Ronald Reagan.
A guerra justa Em dezembro de 1941, ainda
sob o impacto do ataque de surpresa japonês a Pearl Harbor,
que arrastou os americanos para a II Guerra Mundial, Roosevelt
disse a sentença histórica: "O povo americano, com
o poder dos justos, vai triunfar pela vitória absoluta".
Ou seja, os Estados Unidos, na visão de Roosevelt, não devem
ser apenas fortes, mas estar ao lado da virtude. Não devem
ir para a guerra apenas por decisão de militares ou políticos,
mas, sim, por escolha do próprio povo.
O patriotismo "Não pergunte o que seu
país pode fazer por você. Pergunte o que você pode fazer
por seu país." Com esta frase do discurso de posse,
John Kennedy, o 35º presidente americano, não apenas refletiu
as incertezas da Guerra Fria mas deu contornos modernos
a uma das características mais típicas dos americanos, o
patriotismo.
A liberdade econômica "O governo não
é parte das soluções para este país. O governo é o problema",
disse Ronald Reagan, o quadragésimo presidente dos Estados
Unidos. Falava da política de gastança pública de seus antecessores
imediatos, que gerou inflação e estagnação, a ponto de ameaçar
a hegemonia do país no mundo. Japão e Alemanha mostraram
suas garras econômicas nesse período e foram descritos como
os novos líderes do mundo ocidental por autores como o economista
americano Lester Thurow. Embora tenha sido ele próprio um
feroz produtor de déficits estatais, Reagan acabou acendendo
a luz vermelha da ineficiência da máquina pública. Com isso,
contribuiu para reconduzir os Estados Unidos à austeridade
fiscal. A cômoda situação atual, que combina pleno emprego
e prosperidade sem inflação, não poderia ter sido atingida
sem as sementes plantadas durante o governo de Ronald Reagan.
Quando se discute o real poder dos Estados Unidos, fala-se
muito em tecnologia, fábricas de carros e de jatos. Nada
disso deve ofuscar o dínamo cultural por meio do qual os
EUA exercem um domínio incontrastável sobre os outros países.
É freqüente ver autoridades francesas reclamando da invasão
de seu território por produtos da cultura de massa americana,
especialmente o cinema. A França mantém uma política protecionista
ativa em benefício de sua indústria cinematográfica. Graças
aos esforços do governo francês, os filmes de Hollywood
hoje formam apenas um terço do que é lançado no país. Ainda
assim, em 1998, a produção hollywoodiana conquistou seis
das dez maiores bilheterias entre os franceses. Se não houvesse
protecionismo, a França, por escolha dos próprios cidadãos,
já teria fechado as portas de sua indústria de cinema. A
batalha é mais inglória em outras partes do mundo. No ano
passado, foram lançadas nos cinemas brasileiros 211 fitas.
Mais de 60% delas eram americanas e oito figuraram entre
as dez mais vistas. No Canadá, que divide com os Estados
Unidos uma fronteira de dimensões continentais, o índice
de filmes fornecidos pelo vizinho chega facilmente aos 90%.
Os canadenses, claro, também se queixam, como a maioria
dos brasileiros e franceses. Afinal, todas as pessoas que
compram bilhetes nos guichês dos cinemas, em São Paulo,
Toronto ou Paris, estão exercendo uma opção preferencial
pelo cinema rico na versão Hollywood. Nos festivais, os
jurados muitas vezes aplaudem belos filmes de cinemas pobres,
mas esse critério, infelizmente, não costuma funcionar para
as multidões. Com os filmes, os livros ou o rock vem outra
coisa. "Os Estados Unidos não estão interessados apenas
em exportar seus filmes. Eles querem exportar é seu estilo
de vida", acusa Gilles Jacob, diretor do Festival de
Cannes.
O diagnóstico de Jacob é impecável. Só é preciso completar
o raciocínio: não faltam, mundo afora, interessados em comprar
esse produto de exportação, caso contrário ele não seria
vendido. O que fascina as platéias, além dos efeitos especiais,
é o retrato idealizado que as fitas fazem da sociedade americana,
no qual sobressaem valores como vitalidade, dinamismo, mobilidade
social, igualdade, justiça e a certeza de que é possível
vencer pelo próprio esforço. Ou seja, tudo aquilo que compõe
as aspirações da humanidade desde as revoluções democráticas
do século XVIII, mas que até hoje ninguém desfruta a contento
em parte alguma do planeta. Além disso, o cinema americano
canta as glórias do consumo com um despudor que não se vê
em nenhum outro. E, desde a derrocada do comunismo e a decolagem
da globalização econômica, há cada vez mais candidatos dispostos
a se render ao canto dessa sereia.
Universal Pictures
O
resultado pode ser sentido na prática: de acordo com o jornal
The New York Times, hoje a indústria do entretenimento
é o segundo mais lucrativo artigo de exportação dos Estados
Unidos. Só perde para a tecnologia aeroespacial. É espantoso,
quando se considera que os americanos ainda são os maiores
consumidores de seus próprios produtos. Um terço das vendas
de CDs do mundo, por exemplo, acontece dentro do próprio
país. Metade do faturamento de Hollywood é doméstico. O
consumo de revistas e livros é gigantesco e a televisão
não conhece rival no mundo quase todos os domicílios
têm televisores. Mas todos os grandes conglomerados de entretenimento
do país concordam num ponto: estão explorando um mercado
maduro, que comporta índices limitados de crescimento. Ganhar
o mundo é essencial para subsistir.
Essa guerra vem sendo travada em várias frentes, com resultados
irregulares. Ao contrário do que se imagina, não tem sido
tão fácil para os americanos estabelecer sua hegemonia em
outras áreas da cultura de massa além do cinema. No mercado
de rock e música pop, a concorrência britânica é acirradíssima,
sem falar na disputa com os artistas locais. Na Espanha,
Alemanha e França, os artistas desses próprios países respondem
por metade das vendas, em média. No Brasil, a preferência
pela produção nacional bate nos 80%. Na moda, o domínio
europeu é incontestável. Também na televisão a briga é feia.
Embora os canais por assinatura americanos venham ganhando
espaço na Ásia, Europa e América Latina, a televisão aberta
se mostra bem mais refratária à influência ianque. A Rede
Globo, por exemplo, quase não está exibindo mais seriados
americanos. Acha mais compensador bancar os altos custos
de produzir seus próprios programas. Várias das grandes
editoras americanas estão nas mãos de estrangeiros, como
a Bertelsmann alemã, que controla a gigante Random House.
Até nos musicais, gênero que era americano por excelência,
quem reina é um estrangeiro: o inglês Andrew Lloyd Webber,
cujo Fantasma da Ópera faturou 2,5 bilhões de dólares
em todo o mundo, segundo se estima.
Nesse
quadro, o cinema é a mais decisiva arma estratégica da indústria
de entretenimento dos Estados Unidos. É ele que açula o
gosto dos fregueses estrangeiros e abre caminho para novas
fontes de lucro. Não à toa, todos os grandes conglomerados
do setor como Sony, Disney, Time Warner, Seagram,
Viacom e News Corp. têm em sua base um estúdio de
cinema. Hollywood é, por assim dizer, a comissão de frente
da força imperial americana, como tem sido desde os anos
20, quando se tornou a primeira onda verdadeiramente globalizadora
do século XX. E, não custa lembrar, globalizada também.
Como convém a um país formado por tantos povos e culturas,
foi nos Estados Unidos que ilustres cineastas estrangeiros,
como o austríaco Billy Wilder e os ingleses Charles Chaplin
e Alfred Hitchcock, fizeram seus melhores trabalhos. Sem
ter uma "alta cultura" com que brigar, Hollywood
já nasceu rodando fitas em escala industrial, pronta para
divertir multidões. Desde seus primórdios, vem colhendo
e misturando influências sem o menor pudor. De ETs que querem
voltar para casa, mortos que narram seus últimos dias de
vida para a platéia ou halterofilistas austríacos que vêm
do futuro para dizer "Hasta la vista, baby", não
há limite para o que o cinema americano considera seu território.
O saldo é discutível: para cada filme de qualidade, Hollywood
distribui pelo mundo um punhado de bobagens sem nenhum valor.
Mas essa voracidade pelo novo, que durante séculos fez crescer
o Império Romano, é o que fortifica também o novo império
americano. Por mais que isso doa a franceses, canadenses
e alguns brasileiros.
Mas um pouco de moderação na desinibição trilionária dos
Estados Unidos não faria mal a ninguém. O economista brasileiro
Alexandre Scheinkman, pesquisador da Universidade Princeton,
vê com satisfação a possibilidade de crescimento de núcleos
concorrentes com os Estados Unidos na Europa unificada e
na Ásia. "A existência de uma Europa forte pode criar
um pólo econômico tão exuberante como o americano. Em alguns
setores da tecnologia, ela disputa a hegemonia planetária
com os Estados Unidos. A divisão de poder, que virá com
certeza, tornará o mundo mais seguro e menos dependente
do sucesso americano", diz o economista. Ufa!
Saiba
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