Edição 1 646 -26/4/2000

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Rio de Janeiro

O gaúcho de sete fôlegos

Aos 78 anos, o líder do PDT retoma seu espaço
no rastro da crise de Garotinho

Consuelo Dieguez

Ricardo Stuckert
O ex-governador do Rio, candidato a prefeito:
"Sou como planta do deserto"

Em novembro de 1989, Leonel Brizola tentava animar seu comitê de campanha, arrasado pela impossibilidade de chegar ao segundo turno das eleições presidenciais. Entre um gole e outro de chimarrão, o ex-governador do Rio de Janeiro traçou sua mais perfeita tradução. "Sou como planta do deserto. Qualquer chuvinha me faz renascer." Pois bem. O efeito mais notável da tempestade de denúncias que caiu sobre o governo do Rio de Janeiro foi ter lavado a poeira que começava a se juntar sobre a biografia do líder do PDT. Em meio à tormenta, apareceu uma folhinha verde no ombro de Brizola, depois mais uma na cabeça, outra mais, por fim dezenas. E o galho que já parecia seco virou árvore outra vez. Atenção, senhores e senhoras. O engenheiro Leonel de Moura Brizola, 78 anos, vai concorrer à prefeitura do Rio nas próximas eleições. O retorno foi do jeito que ele sabe fazer: dando caneladas verbais nos adversários. Sua última vítima foi a vice-governadora do Rio, Benedita da Silva. Em meio à crise das últimas semanas, batizou-a de "rainha de Sabá", referindo-se ao número de nomeações da petista no governo.

Brizola é um político muito especial. Foi governador do Rio Grande do Sul, duas vezes governador do Estado do Rio e um constante postulante ao Planalto. Está por aí dando palpite na política brasileira há uma eternidade. Foi um dos mais temidos adversários dos militares durante a ditadura fardada e um dos primeiros políticos de peso no país a descobrir a importância da televisão, um meio que ele usa como poucoc. Brizola é simpático falando, apresenta-se como homem comum e tem um discurso simplório e hipnótico. Seu oposicionismo, que vem dos anos 60, perde substância a cada etapa da vida política nacional. Pode-se dizer que Brizola, com seu estilo baseado em retórica irônica, pitoresca, mas sem o alicerce de idéias sólidas, sai cada vez mais da vida política propriamente dita para entrar no folclore político. Nisso, ele tornou-se um personagem insuperável. Certa vez, chamou o aliado Luís Inácio Lula da Silva de "sapo barbudo" que ele, Brizola, tinha de engolir. Definiu o ex-governador do Rio Moreira Franco como um "gato angorá", comparação da qual o bem penteado Moreira nunca mais se livrou. O discurso de Brizola tem outra característica: é assumidamente antiquado. Continua atacando o imperialismo ianque e defende a permanência do Estado na economia. Com isso tudo, o ex-governador mantém seu fôlego de gato. Afunda e volta à superfície, como agora.

Sua capacidade de recuperação foi muitas vezes posta à prova. Em 1979, voltando ao Brasil depois de quinze anos de exílio, perdeu a sigla do Partido Trabalhista Brasileiro no Tribunal Superior Eleitoral. Esse partido o colocava diante dos eleitores como o sucessor natural de Getúlio Vargas e do trabalhismo, sua principal bandeira política. Chorou copiosamente enquanto rasgava o papel com o nome do PTB, mas em seguida criou o Partido Democrático Trabalhista, o PDT, e foi em frente. Na eleição de 1994 teve menos votos que Enéas, o patético candidato do Prona. Curiosidade: justamente nos momentos de maior isolamento, Brizola se dedicou com mais afinco a manter-se no comando. O velho caudilho não permitiu que nenhuma nova liderança se formasse em sua corte de seguidores. E foi a disputa pelo controle do PDT a razão maior dos atritos entre Brizola e o governador do Rio, Anthony Garotinho, que chegaram a ponto de não mais se falar. Foi só com as denúncias de corrupção entre os auxiliares mais chegados de Garotinho, a enxurrada de lama que vem atolando o governo fluminense nas últimas semanas, que Brizola retornou aos holofotes. O PT abandonou sua aliança com Garotinho e o governador precisou de novo do apoio do velho companheiro e protetor Leonel Brizola.

Na vida particular, Brizola é discreto e conservador, embora tenha sucumbido tempos atrás à tentação de pintar os cabelos de acaju. Nunca se mudou de seu velho apartamento na Avenida Atlântica e continua pastoreando com regularidade sua fazenda no Uruguai. Ao se lançar candidato à prefeitura do Rio, tirando de Garotinho a possibilidade de qualquer indicação, meteu-se numa jogada perigosa. As pesquisas indicam o ex-prefeito Cesar Maia (que já foi do PDT e hoje está no PTB) e o atual prefeito, Luiz Paulo Conde (do PFL), como os mais fortes candidatos. Brizola tem alguma chance, mas seu partido está em baixa, por causa das denúncias de irregularidades. E o PT, que já abandonou a barca da aliança, vai querer correr sozinho no páreo. É mais uma prova de fogo para a capacidade de recuperação do gato de sete fôlegos, que saiu do Rio Grande do Sul para conquistar o Rio de Janeiro.

 

A retórica pampeira

Amostras da prosa exótica do velho caudilho

"Ela (Benedita da Silva) é uma verdadeira rainha de Sabá, com tanta mordomia e cargos."
Sobre a quantidade de assessores e privilégios da vice-governadora petista (Abril de 2000)

"Pra gaúcho, Viagra é overdose!"
Sobre o lançamento do remédio contra a impotência (Agosto de 1998)

"Sou como um cavalo inglês: só vou morrer na cancha."
Sobre a hipótese de abandonar a política (Outubro de 1998)

"Eu agora vou botar minha mochila num cavalo e sair pelo mundo, com uma morena na garupa."
Depois de seu desempenho pífio nas eleições de outubro (Janeiro de 1995)

Egberto Nogueira


"Eles estão preocupados só em vender, leiloar, negociar. Não pensam nas crianças, nos problemas brasileiros. Para que elegemos um presidente? Era só contratar um leiloeiro."

Sobre as privatizações no governo FHC (Julho de 1998)

"Ele tem um discurso bonito, mas intelectual precisa de forma e conteúdo. Ele sobrevoa os campos de trigo do Sul e, olhando lá de cima, diz: nossa, como esse povo gosta de jogar golfe."
Insinuando que apesar de seu "verniz cultural", FHC não é um intelectual (Janeiro de 1998)

Perfil

"Os argentinos devem estar nos chamando novamente de macaquitos. Lá eles têm o Plano Cavallo. Aqui, como o negócio é mais curto, temos o Plano Jegue, que nada mais é do que um remendo num tecido que está podre."
Na campanha eleitoral de 1994 (Junho de 1994)

"Pertenço a uma raça de gente que só entrega a rapadura aos noventa."
Quando completou 70 anos (Janeiro de 1992)

"Essa moçada continua querendo curar câncer com injeção de Cibalena."
No dia seguinte à decretação do Plano Cruzado (Março de 1986)

Roberto Jayme

"Dentro do galinheiro, a galinha foge do galo. Mas quando ele monta com seus esporões, ela se acomoda."
Sobre os economistas, antes críticos do governo Sarney, que elaboraram o Plano Cruzado (Abril de 1986)

 

 

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