Rio
de Janeiro
O gaúcho de sete fôlegos
Aos 78 anos, o líder do PDT retoma
seu espaço
no rastro da crise de Garotinho
Consuelo Dieguez
Ricardo Stuckert
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O ex-governador do Rio, candidato
a prefeito:
"Sou como planta do deserto" |
Em novembro de 1989, Leonel Brizola tentava animar seu
comitê de campanha, arrasado pela impossibilidade de chegar
ao segundo turno das eleições presidenciais. Entre um gole
e outro de chimarrão, o ex-governador do Rio de Janeiro
traçou sua mais perfeita tradução. "Sou como planta
do deserto. Qualquer chuvinha me faz renascer." Pois
bem. O efeito mais notável da tempestade de denúncias que
caiu sobre o governo do Rio de Janeiro foi ter lavado a
poeira que começava a se juntar sobre a biografia do líder
do PDT. Em meio à tormenta, apareceu uma folhinha verde
no ombro de Brizola, depois mais uma na cabeça, outra mais,
por fim dezenas. E o galho que já parecia seco virou árvore
outra vez. Atenção, senhores e senhoras. O engenheiro Leonel
de Moura Brizola, 78 anos, vai concorrer à prefeitura do
Rio nas próximas eleições. O retorno foi do jeito que ele
sabe fazer: dando caneladas verbais nos adversários. Sua
última vítima foi a vice-governadora do Rio, Benedita da
Silva. Em meio à crise das últimas semanas, batizou-a de
"rainha de Sabá", referindo-se ao número de nomeações
da petista no governo.
Brizola é um político muito especial. Foi governador do
Rio Grande do Sul, duas vezes governador do Estado do Rio
e um constante postulante ao Planalto. Está por aí dando
palpite na política brasileira há uma eternidade. Foi um
dos mais temidos adversários dos militares durante a ditadura
fardada e um dos primeiros políticos de peso no país a descobrir
a importância da televisão, um meio que ele usa como poucoc.
Brizola é simpático falando, apresenta-se como homem comum
e tem um discurso simplório e hipnótico. Seu oposicionismo,
que vem dos anos 60, perde substância a cada etapa da vida
política nacional. Pode-se dizer que Brizola, com seu estilo
baseado em retórica irônica, pitoresca, mas sem o alicerce
de idéias sólidas, sai cada vez mais da vida política propriamente
dita para entrar no folclore político. Nisso, ele tornou-se
um personagem insuperável. Certa vez, chamou o aliado Luís
Inácio Lula da Silva de "sapo barbudo" que ele,
Brizola, tinha de engolir. Definiu o ex-governador do Rio
Moreira Franco como um "gato angorá", comparação
da qual o bem penteado Moreira nunca mais se livrou. O discurso
de Brizola tem outra característica: é assumidamente antiquado.
Continua atacando o imperialismo ianque e defende a permanência
do Estado na economia. Com isso tudo, o ex-governador mantém
seu fôlego de gato. Afunda e volta à superfície, como agora.
Sua capacidade de recuperação foi muitas vezes posta à
prova. Em 1979, voltando ao Brasil depois de quinze anos
de exílio, perdeu a sigla do Partido Trabalhista Brasileiro
no Tribunal Superior Eleitoral. Esse partido o colocava
diante dos eleitores como o sucessor natural de Getúlio
Vargas e do trabalhismo, sua principal bandeira política.
Chorou copiosamente enquanto rasgava o papel com o nome
do PTB, mas em seguida criou o Partido Democrático Trabalhista,
o PDT, e foi em frente. Na eleição de 1994 teve menos votos
que Enéas, o patético candidato do Prona. Curiosidade: justamente
nos momentos de maior isolamento, Brizola se dedicou com
mais afinco a manter-se no comando. O velho caudilho não
permitiu que nenhuma nova liderança se formasse em sua corte
de seguidores. E foi a disputa pelo controle do PDT a razão
maior dos atritos entre Brizola e o governador do Rio, Anthony
Garotinho, que chegaram a ponto de não mais se falar. Foi
só com as denúncias de corrupção entre os auxiliares mais
chegados de Garotinho, a enxurrada de lama que vem atolando
o governo fluminense nas últimas semanas, que Brizola retornou
aos holofotes. O PT abandonou sua aliança com Garotinho
e o governador precisou de novo do apoio do velho companheiro
e protetor Leonel Brizola.
Na vida particular, Brizola é discreto e conservador, embora
tenha sucumbido tempos atrás à tentação de pintar os cabelos
de acaju. Nunca se mudou de seu velho apartamento na Avenida
Atlântica e continua pastoreando com regularidade sua fazenda
no Uruguai. Ao se lançar candidato à prefeitura do Rio,
tirando de Garotinho a possibilidade de qualquer indicação,
meteu-se numa jogada perigosa. As pesquisas indicam o ex-prefeito
Cesar Maia (que já foi do PDT e hoje está no PTB) e o atual
prefeito, Luiz Paulo Conde (do PFL), como os mais fortes
candidatos. Brizola tem alguma chance, mas seu partido está
em baixa, por causa das denúncias de irregularidades. E
o PT, que já abandonou a barca da aliança, vai querer correr
sozinho no páreo. É mais uma prova de fogo para a capacidade
de recuperação do gato de sete fôlegos, que saiu do Rio
Grande do Sul para conquistar o Rio de Janeiro.
A retórica pampeira
Amostras da prosa exótica
do velho caudilho
"Ela (Benedita
da Silva) é uma
verdadeira rainha de Sabá, com tanta mordomia e cargos."
Sobre a quantidade
de assessores
e privilégios da
vice-governadora petista
(Abril de 2000)
"Pra gaúcho,
Viagra é overdose!"
Sobre o lançamento
do remédio contra a impotência (Agosto
de 1998)
"Sou como
um cavalo inglês: só vou morrer
na cancha."
Sobre a hipótese de
abandonar a política (Outubro de 1998)
"Eu agora
vou botar minha
mochila num cavalo e sair pelo mundo, com uma morena
na garupa."
Depois
de seu desempenho pífio nas eleições de outubro (Janeiro
de 1995)
Egberto Nogueira
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"Eles estão preocupados só em vender, leiloar,
negociar. Não pensam nas crianças, nos problemas brasileiros.
Para que elegemos um presidente? Era só contratar
um leiloeiro."
Sobre as privatizações
no governo FHC (Julho de 1998)
"Ele tem
um discurso bonito,
mas intelectual precisa de forma e conteúdo. Ele sobrevoa
os campos de trigo do Sul e, olhando lá de cima, diz:
nossa, como esse povo gosta de jogar golfe."
Insinuando que apesar
de seu "verniz cultural", FHC não é um intelectual
(Janeiro de 1998)
Perfil
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"Os argentinos devem estar
nos chamando novamente de macaquitos. Lá
eles têm o Plano Cavallo. Aqui, como o negócio é mais
curto, temos o Plano Jegue, que nada mais é do que um
remendo num tecido que está podre."
Na campanha eleitoral
de 1994 (Junho de 1994)
"Pertenço
a uma raça de
gente que só entrega a rapadura aos noventa."
Quando
completou 70 anos (Janeiro de 1992)
"Essa
moçada continua querendo curar câncer com injeção
de Cibalena."
No dia seguinte à
decretação do Plano Cruzado (Março
de 1986)
Roberto Jayme
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"Dentro do galinheiro,
a galinha foge do
galo. Mas quando ele monta com seus esporões, ela se
acomoda."
Sobre os economistas,
antes críticos do governo Sarney, que elaboraram o Plano
Cruzado (Abril de 1986) |
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