Edição 1 646 -26/4/2000

VEJA esta semana

Brasil
Internacional
Susto no império
Ricos europeus vão morar onde os impostos são baixos
Eleições presidenciais não abalam a economia
Geral
Economia e negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Colunas
Luiz Felipe de Alencastro
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Seções
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Contexto
Holofote 
Veja essa
Notas internacionais
Hipertexto
Gente
Datas
Cotações
Para usar
Veja recomenda
Os mais vendidos

Banco de Dados 

Para pesquisar digite uma ou mais palavras no campo abaixo. 


 

Um mercado de sonhos

O respeitado professor de Yale diz que a internet dá aos investidores a falsa sensação de que são espertos

Eurípedes Alcântara

Robert Shiller
apelo à razão

"Todas as coisas têm um preço de equilíbrio. As ações também"
O título do livro foi tirado da frase famosa de Alan Greenspan
"Não haverá um plano de salvamento para quem perder tudo com ações como há para as vítimas de enchentes e furacões"

Veja – Os números gerais da economia americana são positivos e indicam um raro período de estabilidade e prosperidade. As pessoas querem seu quinhão de riqueza e julgam que investir em ações parece ser a maneira mais fácil de conseguir isso. Onde está a irracionalidade dessa exuberância?
Shiller – A fase atual da economia americana é excepcional. O que ocorre é que os mercados acionários estão reagindo com otimismo exagerado diante da situação real positiva. Todas as coisas têm um preço. Mesmo que a situação esteja extremamente favorável, as coisas têm um preço real. As ações têm um preço de equilíbrio. É exagero achar que elas podem subir indefinidamente.

Veja – Qual seria o nível correto para o índice Dow Jones?
Shiller – É difícil dizer. Acho que o índice está estabilizado num patamar em torno dos 10 000 pontos e não deve sair daí por um bom tempo. Quando superou os 10 000 pontos pela primeira vez, muita gente acreditou que ele continuaria subindo como um foguete, para sempre. Não é bem assim. As pessoas com algum senso começam a pensar que talvez esse seja seu ponto de equilíbrio. Se o Dow Jones ficar girando em torno dos 10 000 pontos, a lucratividade dos investidores cairá barbaramente. Ele deve ficar nesse nível por longo tempo. Esse é um cenário razoável. As pessoas vão ter retornos de apenas 1% ao ano. Se isso ocorrer, elas poderão fugir dos mercados, e os preços tenderão a cair. Por isso não sou otimista.

Veja – O que diferencia o boom atual de outros episódios de euforia financeira do passado?
Shiller – A diferença é tecnológica. São a internet e os serviços de compra e venda de ações on-line. As comunicações agora são mais fáceis, instantâneas, e a mídia é onipresente. A capacidade de as pessoas se informarem e participarem do mercado é muito mais forte agora que no passado. O ponto principal é que elas se sentem poderosas diante de um computador ligado a um serviço de compra e venda de ações. As pessoas sentem que aprenderam novos truques. Elas sabem como entrar na internet, decoraram alguns termos financeiros novos no noticiário. Combine isso com um mercado em constante ascensão e uma economia estável, e fica fácil entender por que as pessoas se sentem excessivamente confiantes. Elas começam a se achar muito inteligentes, capazes de vencer qualquer fera do mercado. Elas atribuem erradamente o sucesso de seus investimentos a sua suposta esperteza, e não aos movimentos do mercado. Pior: elas passam a acreditar, irracionalmente, que, se o mercado começar a cair, a esperteza delas vai salvá-las. Quando todos sabemos que não vai. É aí que mora o perigo.

Veja – Os americanos estão pegando dinheiro no banco ou vendendo bens para apostar no mercado de ações. Qual a extensão e a gravidade desse fenômeno?
Shiller – Esse é um fenômeno difícil de medir. Diria que é quase impossível recolher dados suficientes para fazer um julgamento sobre isso. As pessoas podem pegar empréstimo pessoal nos bancos sem declarar o que vão fazer com o dinheiro. Aparentemente as dívidas com hipotecas estão crescendo neste país. Isso pode ser um indicador indireto de que o dinheiro para pagá-las está indo para outro destino, provavelmente as bolsas. As pessoas que fazem isso vão sofrer dobrado numa quebra do mercado acionário. Não há como salvá-las se o mercado cair abruptamente. Elas se colocaram voluntariamente em situação de risco. Não haverá um plano de salvamento para elas como há para as vítimas de enchentes e furacões.

Veja – Que influência haveria sobre o Brasil e outros países na hipótese de uma quebra violenta das bolsas americanas?
Shiller – Há um risco de os problemas se espalharem pelo mundo. Se vier um desabamento, ele certamente não será tão destrutivo quanto foi o famoso crash de 1929. As políticas monetárias agora são mais sólidas e o sistema bancário dos Estados Unidos e de alguns países-chave está muito forte.

Veja – Alan Greenspan, o presidente do Fed, o banco central americano, fere apenas a economia real quando sobe juros – e ele já fez isso cinco vezes, desde que diagnosticou a exuberância irracional dos mercados em 1996. Adianta?
Shiller – Ele não deveria aumentar taxas de juro com o objetivo de baixar a temperatura do mercado de ações. Taxas de juro afetam a totalidade da economia. Não apenas as grandes corporações. Afetam compradores de casa, trabalhadores. São um instrumento muito amplo. Não deveriam ser usados contra o mercado de ações. Há instrumentos melhores, como restringir o uso de dinheiro emprestado para compra de ações.

Veja – Alguns jornais americanos atribuem ao senhor o uso pioneiro da expressão "exuberância irracional" para designar o atual momento do mercado acionário. O senhor é mesmo o autor?
Shiller – É interessante. Dois dias antes de Greenspan depor no Congresso americano e usar essa expressão, eu fui sabatinado por ele e pelos governadores do Fed. Em minha explanação, usei a expressão irracional, mas com certeza não falei em exuberância. Portanto, o autor é mesmo Greenspan. É uma expressão muito feliz, pois o que estamos experimentando é exatamente isso. Ou seja, não vivemos um período de mania, nem de euforia ou de investidores enlouquecidos. O que vemos é uma exuberância. Simplesmente isso.

Veja – Seu livro foi louvado por ser fruto de uma reflexão intelectual, portanto, neutra...
Shiller – Na verdade, eu tenho um negócio. Sou sócio, veja você, de uma empresa pontocom cujo endereço é www.cswcasa.com. Vamos lançar ações na bolsa assim que pudermos. Nesse nosso site a pessoa informa o endereço de sua casa nos Estados Unidos e nós fazemos uma avaliação profissional do preço do imóvel. Como se vê, não sou tão neutro assim.