Um mercado de sonhos
O respeitado professor de Yale
diz que a internet dá aos investidores a falsa sensação
de que são espertos
Eurípedes Alcântara
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Robert Shiller
apelo à razão
"Todas as coisas têm um preço de
equilíbrio. As ações também" |
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| O título do livro foi tirado
da frase famosa de Alan Greenspan |
| "Não haverá um plano de salvamento
para quem perder tudo com ações como há
para as vítimas de enchentes e furacões" |
Veja Os números gerais da economia americana
são positivos e indicam um raro período de estabilidade
e prosperidade. As pessoas querem seu quinhão de riqueza
e julgam que investir em ações parece ser a maneira mais
fácil de conseguir isso. Onde está a irracionalidade dessa
exuberância?
Shiller A fase atual da economia americana
é excepcional. O que ocorre é que os mercados acionários
estão reagindo com otimismo exagerado diante da situação
real positiva. Todas as coisas têm um preço. Mesmo que a
situação esteja extremamente favorável, as coisas têm um
preço real. As ações têm um preço de equilíbrio. É exagero
achar que elas podem subir indefinidamente.
Veja Qual seria o nível correto para o
índice Dow Jones?
Shiller É difícil dizer. Acho que o índice
está estabilizado num patamar em torno dos 10 000 pontos
e não deve sair daí por um bom tempo. Quando superou os
10 000 pontos pela primeira vez, muita gente acreditou que
ele continuaria subindo como um foguete, para sempre. Não
é bem assim. As pessoas com algum senso começam a pensar
que talvez esse seja seu ponto de equilíbrio. Se o Dow Jones
ficar girando em torno dos 10 000 pontos, a lucratividade
dos investidores cairá barbaramente. Ele deve ficar nesse
nível por longo tempo. Esse é um cenário razoável. As pessoas
vão ter retornos de apenas 1% ao ano. Se isso ocorrer, elas
poderão fugir dos mercados, e os preços tenderão a cair.
Por isso não sou otimista.
Veja O que diferencia o boom atual de
outros episódios de euforia financeira do passado?
Shiller A diferença é tecnológica. São a internet
e os serviços de compra e venda de ações on-line. As comunicações
agora são mais fáceis, instantâneas, e a mídia é onipresente.
A capacidade de as pessoas se informarem e participarem
do mercado é muito mais forte agora que no passado. O ponto
principal é que elas se sentem poderosas diante de um computador
ligado a um serviço de compra e venda de ações. As pessoas
sentem que aprenderam novos truques. Elas sabem como entrar
na internet, decoraram alguns termos financeiros novos no
noticiário. Combine isso com um mercado em constante ascensão
e uma economia estável, e fica fácil entender por que as
pessoas se sentem excessivamente confiantes. Elas começam
a se achar muito inteligentes, capazes de vencer qualquer
fera do mercado. Elas atribuem erradamente o sucesso de
seus investimentos a sua suposta esperteza, e não aos movimentos
do mercado. Pior: elas passam a acreditar, irracionalmente,
que, se o mercado começar a cair, a esperteza delas vai
salvá-las. Quando todos sabemos que não vai. É aí que mora
o perigo.
Veja Os americanos estão pegando dinheiro
no banco ou vendendo bens para apostar no mercado de ações.
Qual a extensão e a gravidade desse fenômeno?
Shiller Esse é um fenômeno difícil de medir.
Diria que é quase impossível recolher dados suficientes
para fazer um julgamento sobre isso. As pessoas podem pegar
empréstimo pessoal nos bancos sem declarar o que vão fazer
com o dinheiro. Aparentemente as dívidas com hipotecas estão
crescendo neste país. Isso pode ser um indicador indireto
de que o dinheiro para pagá-las está indo para outro destino,
provavelmente as bolsas. As pessoas que fazem isso vão sofrer
dobrado numa quebra do mercado acionário. Não há como salvá-las
se o mercado cair abruptamente. Elas se colocaram voluntariamente
em situação de risco. Não haverá um plano de salvamento
para elas como há para as vítimas de enchentes e furacões.
Veja Que influência haveria sobre o Brasil
e outros países na hipótese de uma quebra violenta das bolsas
americanas?
Shiller Há um risco de os problemas se espalharem
pelo mundo. Se vier um desabamento, ele certamente não será
tão destrutivo quanto foi o famoso crash de 1929. As políticas
monetárias agora são mais sólidas e o sistema bancário dos
Estados Unidos e de alguns países-chave está muito forte.
Veja Alan Greenspan, o presidente do Fed,
o banco central americano, fere apenas a economia real quando
sobe juros e ele já fez isso cinco vezes, desde que
diagnosticou a exuberância irracional dos mercados em 1996.
Adianta?
Shiller Ele não deveria aumentar taxas de
juro com o objetivo de baixar a temperatura do mercado de
ações. Taxas de juro afetam a totalidade da economia. Não
apenas as grandes corporações. Afetam compradores de casa,
trabalhadores. São um instrumento muito amplo. Não deveriam
ser usados contra o mercado de ações. Há instrumentos melhores,
como restringir o uso de dinheiro emprestado para compra
de ações.
Veja Alguns jornais americanos atribuem
ao senhor o uso pioneiro da expressão "exuberância
irracional" para designar o atual momento do mercado
acionário. O senhor é mesmo o autor?
Shiller É interessante. Dois dias antes de
Greenspan depor no Congresso americano e usar essa expressão,
eu fui sabatinado por ele e pelos governadores do Fed. Em
minha explanação, usei a expressão irracional, mas com certeza
não falei em exuberância. Portanto, o autor é mesmo Greenspan.
É uma expressão muito feliz, pois o que estamos experimentando
é exatamente isso. Ou seja, não vivemos um período de mania,
nem de euforia ou de investidores enlouquecidos. O que vemos
é uma exuberância. Simplesmente isso.
Veja Seu livro foi louvado por ser fruto
de uma reflexão intelectual, portanto, neutra...
Shiller Na verdade, eu tenho um negócio. Sou
sócio, veja você, de uma empresa pontocom cujo endereço
é www.cswcasa.com.
Vamos lançar ações na bolsa assim que pudermos. Nesse nosso
site a pessoa informa o endereço de sua casa nos Estados
Unidos e nós fazemos uma avaliação profissional do preço
do imóvel. Como se vê, não sou tão neutro assim.