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Cinema Ser superastro já
era. Hoje os semi-astros, como Laura Linney
Já na primeira cena, A Família Savage (The Savages, Estados Unidos, 2007), em cartaz desde sexta-feira, anuncia um pesadelo. Lenny, um idoso, briga com o enfermeiro de sua companheira. Instado a voltar ao banheiro e deixá-lo limpo, Lenny em vez disso usa seus próprios excrementos para escrever uma malcriação na parede. Deixou, enfim, de ser apenas um sujeito indiferente e grosseiro: agora é também vítima de demência senil, e caberá aos seus filhos, para os quais nunca foi um grande pai, lidar com ele. Daí em diante, como não raro acontece também fora da ficção, Lenny passará de pessoa a objeto objeto de culpa, desavença, ocasional união e incômodo constante para Wendy e Jon Savage, os irmãos maduros mas imaturos que são os protagonistas da história. Tamara Jenkins, cineasta de currículo breve (seu último filme, o igualmente ácido O Outro Lado de Beverly Hills, foi lançado em 1998), disseca as desventuras dos irmãos com doses equilibradas de simpatia e ceticismo. As dificuldades emocionais dos dois têm razões legítimas; já a maneira como eles as usam para se perdoar por seus erros é outra história. No universo ordeiro do cinema comercial, tratar um conflito com todas as complicações que ele acarreta é um risco. Se roteiros como esse chegam a ser filmados, o mérito é dos atores que decidem encampá-los no caso, Philip Seymour Hoffman e Laura Linney, que põem sua extraordinária capacidade a serviço dos carentes, infantis e encantadoramente reais Jon e Wendy. Laura e Hoffman pertencem a uma categoria que se poderia chamar de a dos semi-astros: atores que o público reconhece e aprecia não só porque eles pipocam várias vezes ao ano em filmes de todos os tamanhos e afiliações, mas porque sempre acrescentam algo de sólido e inesperado a esses filmes. Não têm o tipo de popularidade que os habilite a "abrir" superproduções, nas quais costumam ganhar os personagens secundários. Mas têm o cacife necessário para atrair visibilidade para produções menores. Quando Hoffman trabalha em Missão: Impossível III ou Jogos do Poder, ele é coadjuvante com a vantagem de ficar com o papel mais suculento. Quando faz Capote ou A Família Savage, tem o espaço que sua personalidade formidável pede mais a satisfação de saber que fez o projeto acontecer. Um semi-astro, portanto, vive no melhor de dois mundos. O mais relevante, contudo, é a constatação de que eles é que fazem o cinema americano girar como indústria e se renovar como ambiente criativo. Capote, que deu a Hoffman o Oscar, custou 7 milhões de dólares e rendeu sete vezes mais; Missão: Impossível III custou 150 milhões e faturou menos do que isso nos Estados Unidos, a despeito de Tom Cruise. Essa é uma história que tem se repetido com freqüência: por razões que os estúdios adorariam compreender, gente como Cruise, Tom Hanks, Brad Pitt e Julia Roberts tem falhado em recolher ingressos em proporção compatível com seus altíssimos cachês e inúmeros caprichos. Em compensação, os filmes de "conceito", como Superbad e Cloverfield, e as pequenas produções apoiadas nos personagens, como Pequena Miss Sunshine, Juno ou A Lula e a Baleia (em que Laura Linney ajudou o orçamento de 1,5 milhão a se multiplicar quase oito vezes na bilheteria), têm retorno financeiro e prestígio praticamente garantidos, já que é desse segmento que sai a maioria das premiações. Se alguém ainda tem dúvida sobre quem leva a melhor hoje, é só prestar atenção ao rumo que tomou George Clooney, o mais esperto dos apostadores de Hollywood. Desde 2005, ele fez um único filme como superastro Treze Homens e Um Novo Segredo e quatro como, digamos, operário: Syriana, Boa Noite e Boa Sorte, O Segredo de Berlim e Conduta de Risco. Saldo dessa investida: três indicações e uma vitória no Oscar, além de 155 milhões de dólares em lucro. Hoje, ser menos de fato é ser mais na ponta do lápis.
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