BUSCA

Revistas
Notícias
FALE CONOSCO
Escreva para VEJA
Para anunciar
Abril SAC
ACESSO LIVRE
Conheça as seções e áreas de VEJA.com
com acesso liberado
REVISTAS
VEJA
Edição 2053

26 de março de 2008
ver capa
NESTA EDIÇÃO
Índice
COLUNAS
André Petry
Stephen Kanitz
Diogo Mainardi
Gustavo Ioschpe
Millôr
Roberto Pompeu de Toledo
SEÇÕES
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
VEJA.com
Holofote
Contexto
Radar
Veja essa
Gente
Auto-retrato
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 

Livros
Eles se convidaram

Nova história da "Missão Francesa" mostra que
ela não veio ao Brasil a chamado de dom João VI


Mary Del Priore

Fotos Divulgação

O Rio de Janeiro em três pinturas de Taunay: o neoclassicismo francês abandonou as cenas heróicas de batalha para retratar as paisagens que representavam a pátria amada

VEJA TAMBÉM
Exclusivo on-line
Trecho do livro

Numa obra vigorosa e judiciosamente ilustrada, O Sol do Brasil (Companhia das Letras; 400 páginas; 55 reais), Lilia Moritz Schwarcz revisita um dos mitos da história da arte no Brasil: a Missão Francesa. Autora de vários livros sobre história cultural – como As Barbas do Imperador –, ela se debruça sobre o período de dom João VI no Brasil para oferecer ao leitor um amplo afresco sobre pintura e pintores e a relação de ambos com o cenário brasileiro. O fio condutor é Nicolas-Antoine Taunay. Nascido numa família de artesãos ligados à manufatura de Sèvres, Taunay integrou o grupo de emigrados que, por muito tempo, se acreditou "convidado" por dom João VI para trazer a civilidade francesa aos trópicos. O convite nunca existiu, e a tal "missão" francesa, que chegou ao Brasil em 1816, foi antes uma reunião fortuita de artistas.

Para refazer a viagem do paisagista francês, Lilia vai às raízes das relações entre o Brasil e a França. Teriam os relatos de Jean de Léry, no século XVI, e de outros viajantes de passagem colaborado para forjar um imaginário sobre a natureza brasileira? Tudo indica que sim, e que a moda das viagens pitorescas contribuiu para que um grupo de bonapartistas caídos em desgraça depois da derrota do imperador em Waterloo, em junho de 1815, resolvesse correr o risco de atravessar o Atlântico. A abundância de plantas e animais teria acenado como uma promessa de inspiração estética. Calcada no retorno ao passado, voltada para o primado da forma e o elogio da nação, a pintura neoclássica estava na raiz da formação de Taunay. Ombreando com artistas da mesma época ligados a diferentes gêneros – o histórico, os retratos, a paisagem –, como Jacques-Louis David ou Jean-Baptiste Greuze, Taunay vai bebendo nas várias fontes e aprimorando o próprio estilo. A grande figura de então era, sem dúvida, David, pintor do conhecido A Morte de Marat. Debret, outro membro célebre da chamada Missão Francesa, era primo de David e costumava freqüentar seu ateliê.

Esse foi também um momento em que a pintura ficou a serviço do estado. Sem cerimônia, podia servir a um rei Bourbon, passar do seu serviço ao dos sanguinários revolucionários e destes a Napoleão, que encarnava, nas telas de David, a noção de heroísmo. Napoleão era homenageado nos salões de pintura, enquanto Josefina, sua mulher, vivia cercada de artistas em cuja órbita girava Taunay. Quando o poder de Bonaparte começou a declinar, uma visível mudança na hierarquia de gêneros ocorreu: a pintura histórica, que retratava batalhas, cedeu espaço à paisagem, que se tornou sinônimo de terra natal e de pátria amada. A decisão de vir para o Brasil associava, portanto, duas tendências: a viagem em busca de repertórios paisagísticos novos e a fuga de uma Europa mergulhada em sangue e conflitos.

Taunay: planos de ser tutor da casa real frustrados pelo "retardo cultural" do Brasil

É nesse contexto que um grupo de artistas franceses se uniu para empreender a travessia. Sonhos individuais se cruzavam com coletivos: da fundação de uma Academia de Artes nos trópicos à aspiração de ser preceptor dos filhos do rei, como desejava Taunay. Eles chegaram à Baía de Guanabara em março de 1816. Lilia mostra que nada houve de convite oficial nem de garantia de emprego. Mas, afinal, quem inventou a Missão Francesa? Debret é o pai da história, que apresenta o grupo como um conjunto de generosos missionários que vieram ensinar beleza aos selvagens. Como quem conta um conto aumenta um ponto, ela foi se enfeitando graças a vários autores, de Araújo Porto Alegre a Morales de Los Rios. Até bater, já no século XX, em Mário Pedrosa e Donato Mello Júnior, que começaram a "desconstruir" o mito: foram eles, os franceses, que se convidaram. Eles quiseram vir. Não deu certo e os trópicos acabaram por expulsá-los. A tentativa de unir a valorização da monarquia com a paisagem natural, fórmula bem-sucedida na França, não funcionou aqui. Taunay não tinha alunos nem clientes, e, segundo ele, o país sofria de um grave "retardo cultural".

Essa sinfonia de informações é magistralmente dirigida por Lilia, que dialoga com autores de peso, como o historiador Simon Schama e o crítico de arte E.H. Gombrich. O Sol do Brasil é uma obra que nasce clássica. As outras tentativas de desconstruir a missão, por várias razões, não tiveram o mesmo calor nem o mesmo brilho.



Publicidade

 
Publicidade

 
  VEJA | Veja São Paulo | Veja Rio | Expediente | Fale conosco | Anuncie | Newsletter |