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Livros Nova história
da "Missão Francesa" mostra que
Numa obra vigorosa e judiciosamente ilustrada, O Sol do Brasil (Companhia das Letras; 400 páginas; 55 reais), Lilia Moritz Schwarcz revisita um dos mitos da história da arte no Brasil: a Missão Francesa. Autora de vários livros sobre história cultural como As Barbas do Imperador , ela se debruça sobre o período de dom João VI no Brasil para oferecer ao leitor um amplo afresco sobre pintura e pintores e a relação de ambos com o cenário brasileiro. O fio condutor é Nicolas-Antoine Taunay. Nascido numa família de artesãos ligados à manufatura de Sèvres, Taunay integrou o grupo de emigrados que, por muito tempo, se acreditou "convidado" por dom João VI para trazer a civilidade francesa aos trópicos. O convite nunca existiu, e a tal "missão" francesa, que chegou ao Brasil em 1816, foi antes uma reunião fortuita de artistas. Esse foi também um momento em que a pintura ficou a serviço do estado. Sem cerimônia, podia servir a um rei Bourbon, passar do seu serviço ao dos sanguinários revolucionários e destes a Napoleão, que encarnava, nas telas de David, a noção de heroísmo. Napoleão era homenageado nos salões de pintura, enquanto Josefina, sua mulher, vivia cercada de artistas em cuja órbita girava Taunay. Quando o poder de Bonaparte começou a declinar, uma visível mudança na hierarquia de gêneros ocorreu: a pintura histórica, que retratava batalhas, cedeu espaço à paisagem, que se tornou sinônimo de terra natal e de pátria amada. A decisão de vir para o Brasil associava, portanto, duas tendências: a viagem em busca de repertórios paisagísticos novos e a fuga de uma Europa mergulhada em sangue e conflitos.
É nesse contexto que um grupo de artistas franceses se uniu para empreender a travessia. Sonhos individuais se cruzavam com coletivos: da fundação de uma Academia de Artes nos trópicos à aspiração de ser preceptor dos filhos do rei, como desejava Taunay. Eles chegaram à Baía de Guanabara em março de 1816. Lilia mostra que nada houve de convite oficial nem de garantia de emprego. Mas, afinal, quem inventou a Missão Francesa? Debret é o pai da história, que apresenta o grupo como um conjunto de generosos missionários que vieram ensinar beleza aos selvagens. Como quem conta um conto aumenta um ponto, ela foi se enfeitando graças a vários autores, de Araújo Porto Alegre a Morales de Los Rios. Até bater, já no século XX, em Mário Pedrosa e Donato Mello Júnior, que começaram a "desconstruir" o mito: foram eles, os franceses, que se convidaram. Eles quiseram vir. Não deu certo e os trópicos acabaram por expulsá-los. A tentativa de unir a valorização da monarquia com a paisagem natural, fórmula bem-sucedida na França, não funcionou aqui. Taunay não tinha alunos nem clientes, e, segundo ele, o país sofria de um grave "retardo cultural". Essa sinfonia de informações é magistralmente dirigida por Lilia, que dialoga com autores de peso, como o historiador Simon Schama e o crítico de arte E.H. Gombrich. O Sol do Brasil é uma obra que nasce clássica. As outras tentativas de desconstruir a missão, por várias razões, não tiveram o mesmo calor nem o mesmo brilho.
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