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Edição 2053

26 de março de 2008
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Crime
Como alguém é capaz
de fazer isso?

Cárcere e tortura de menina em Goiânia
tiveram pelo menos dois precedentes


Juliana Linhares

Imagem TV-Anhanguera Cinegrafista Joselito Barreto/Vantuir Olivia

Quando a agente policial de Goiânia Jussara Assis entrou no apartamento de Sílvia Calabresi Lima, de 41 anos, deparou com a menina L., de 12 anos, amarrada na área de serviço. A menina tinha os dois braços erguidos e acorrentados a uma escada de ferro. Seus pés mal tocavam o chão, a boca estava tampada por uma gaze embebida em pimenta e oito dos dedos das mãos estavam quebrados – a maioria havia tido as unhas arrancadas. "Comecei a tremer tanto que tive dificuldade em desamarrá-la", disse a policial. Adotada informalmente por Sílvia, L. morava havia dois anos com ela numa cobertura dúplex de 200 metros quadrados, em um dos bairros mais caros da cidade. Nesse período, conforme relatou à polícia, foi sistematicamente torturada pela mulher: teve o corpo queimado a ferro quente, dedos esmagados em dobradiças de portas e dentes quebrados a marteladas, entre outros suplícios. Sílvia – ela própria adotada (teria ficado órfã quando criança) – foi presa em flagrante. Ela vivia com o marido, que é engenheiro, dois dos três filhos do casal (de 20 e 3 anos de idade), a mãe adotiva e a empregada Vanice Novais, de 23 anos. Vanice também foi presa sob acusação de participar das torturas. Os demais membros da família serão indiciados por crime de omissão em caso de tortura.

À sucessão de horrores que os investigadores descobriram a partir da prisão de Sílvia, seguiu-se uma revelação: L. não foi a única vítima da mulher. Sílvia, segundo testemunhas, torturou e manteve encarceradas pelo menos outras duas meninas – entre elas C., hoje com 11 anos, cuja família prestou queixa de maus-tratos contra Sílvia há seis anos, em um processo que não foi adiante por falta de provas.

Fotos Mantovani Fernandes/O Popular
Sílvia Calabresi, acusada de torturar L., e uma das mãos da menina: suplício

Sílvia, diz a polícia, atuava com método. L. e as outras meninas que disseram ter sido torturadas por ela têm perfil parecido e contam histórias praticamente idênticas. Todas nasceram em famílias pobres e a conheceram por meio de pessoas que trabalhavam para ela: L. é sobrinha de uma ex-empregada de Sílvia. C. é filha de uma manicure de um salão de beleza que Sílvia freqüentava. Ambas dizem que, no começo, a mulher mostrava-se simpática e as convidava para ir à sua casa e visitar o sítio da família. Depois de ganhar a confiança das crianças, pedia a seus pais que as deixassem morar com ela, alegando que tinha três filhos homens e sentia falta de uma menina. Para L., cujo sonho é ser policial, Sílvia prometeu matrícula na Escola Militar de Goiânia (onde a menina estudou apenas por seis meses). Também comprou-lhe um par de patins (que a criança nunca foi autorizada a usar).

Uma vez na casa de Sílvia, as meninas passavam a ser submetidas a todo tipo de violência – que, no caso de L., incluía ser obrigada a ingerir fezes de animais. Os pretextos eram os mais diversos. "L. contou que o que mais despertava a ira de Sílvia era quando ela chorava, pedia comida ou dizia querer falar com os pais", diz a delegada responsável pelo caso, Adriana Accorsi. A menina C. voltou para a casa da mãe depois que, na escola, professores notaram marcas de tortura em seu corpo e avisaram a polícia. L. foi libertada graças a uma denúncia anônima. Para a delegada, Sílvia apresenta sinais claros de psicopatia: "Ela é sádica, sente prazer em machucar meninas e em momento nenhum demonstrou arrependimento pelo que fez", avalia a delegada. É da matéria de que são produzidos os monstros.



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