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Edição 2053

26 de março de 2008
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História
Cartola do início ao fim

O primeiro grande levantamento da obra do
sambista traz a público 63 canções inéditas


Ronaldo Soares

Carlos Namba

Cartola em cena e uma pérola: a origem de As Rosas Não Falam

"Ele não tinha a menor idéia de que se podia vender um samba. Achava que era a mesma coisa que vender a dor, o amor, a saudade." Assim era Angenor de Oliveira, o Cartola (1908-1980), na descrição soberba do jornalista Sérgio Cabral, que conviveu com ele por mais de vinte anos. Cartola deixou uma das mais cultuadas obras da música brasileira. Clássicos como Acontece, Divina Dama e O Mundo É um Moinho o consagraram dono de um refinamento musical incomum. O mais completo levantamento já feito sobre esse trabalho está prestes a dar a real dimensão da obra do sambista. Trata-se de uma minuciosa pesquisa realizada pela produtora musical Nilcemar Nogueira, neta de Cartola. Ela catalogou todas as músicas do avô, num total de 187 composições – incluindo 63 letras inéditas –, e descobriu ainda outras 37 inacabadas. O material será transformado em livro, com previsão de lançamento para outubro, quando se comemora o centenário de nascimento do sambista.

Ex-presidente do Museu da Imagem e do Som (MIS) do Rio de Janeiro, Nilcemar começou a revirar textos, cartas e manuscritos em 2005, para uma tese de mestrado pela Fundação Getulio Vargas. Além de garimpar os documentos, que estavam na casa onde Cartola e dona Zica moraram na Mangueira, ela entrevistou parceiros do avô. Com isso, foi possível recuperar a melodia de dez músicas inéditas e conhecer muito do jeito de Cartola trabalhar. Há anotações de letras e poemas em papel timbrado do Ministério da Indústria e Comércio, onde ele trabalhou como contínuo, e em maços de cigarros, além de histórias da gênese de alguns clássicos, como As Rosas Não Falam (veja reprodução).

Cartola passou boa parte da infância na Zona Sul do Rio de Janeiro, e aos 11 anos mudou-se com a família para o Morro da Mangueira. Foi um dos fundadores da escola de samba local, da qual escolheu as cores – verde e rosa. Nos anos 1940, desapareceu misteriosamente. Só seria redescoberto na década seguinte, fazendo bicos como lavador de carros e vigia noturno, pelo cronista Sérgio Porto. A trajetória incomum serviu para reforçar a aura de mito de um compositor cujo talento impressionava gente como Noel Rosa e Heitor Villa-Lobos.

"Ele se destacava porque, embora não tivesse estudo musical teórico, possuía uma inventividade musical assombrosa. Tinha soluções harmônicas muito sofisticadas, que não eram comuns no meio do samba", diz o produtor musical Nelson Motta. "Além disso, era um letrista brilhante, que criava imagens poéticas fortes, originais." O dono dessa rara combinação só não imaginava que poderia ganhar dinheiro com isso. Tanto que ficou espantado quando recebeu pela primeira vez uma proposta em dinheiro por um samba de sua autoria.



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