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Edição 2053

26 de março de 2008
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Moda
O salto sumiu

Na corrida pelo mais inusitado, estilista cria
o sapato alto sem apoio para o calcanhar


Fotos Marcio Madeira
Saltos ornamentais: de frente para trás, na idéia original de Marc Jacobs, o duplo de inspiração oriental de McQueen e o agulha Yves Saint-Laurent apoiado em tira de metal no lugar de sola

Apoiada nos dedos, com o calcanhar nas alturas, a mulher caminha com o ar de poder e sensualidade que o salto alto lhe confere. Quem não usa, ou usa pouco, se pergunta como alguém se dispõe, por livre e espontânea vontade, a passar horas equilibrando-se em tão precária base. Pois os que consideram o salto agulha e as plataformas uma temeridade ainda não viram nada. Tendo nos acessórios a sua inesgotável fonte de renda, e sendo os sapatos um artigo ainda pouco explorado, o mundo da moda, nas últimas temporadas de desfile, tem ousado tanto na busca do inusitado que atingiu o impensável: o sapato alto sem salto. Isso mesmo: no grupo B dos estilistas que desfilam duas vezes por ano em Paris, o inglês Antonio Berardi, 39 anos, fez suas modelos caminhar na passarela em botas com o calcanhar pairando no ar, a 14 centímetros do solo. "Chegamos ao limite: o sapato que segura apenas o que precisa ser segurado", disse Berardi a VEJA, em tom de orgulho.

Karl Prouse/Getty Images
Modelo desfila a bota de Berardi: meio pé apoiado, meio pé no ar


A idéia não é nova: já havia sido explorada por Jean Paul Gaultier e Marc Jacobs, ambos idealizadores de uma espécie de "salto ao contrário", que começa na frente e, no de Jacobs, nem chega até o calcanhar – o qual, nos dois casos, "flutua" sem apoio aparente. Mas Berardi foi mais longe, instalando o conceito do salto sem salto em todo tipo de calçado e colocando os modelos à venda (por preços astronômicos, diga-se). O segredo, diz ele, está na plataforma mais longa, feita para acomodar toda a porção da planta que efetivamente sustenta o pé. "Estamos acostumados com o salto dando estabilidade ao sapato. Mas isso não é obrigatório. Ninguém precisa ter medo de experimentar minha proposta", assegura Berardi. Embora pareça ter sido milimetricamente calculada na prancheta, a fórmula do salto alto sem salto é fruto de tentativa e erro. "Fiz minha assistente calçar e caminhar com todo tipo de plataforma. Quando era muito difícil andar, aumentava um pouco; quando ficava muito fácil, diminuía. Assim foi até encontrar o ponto de equilíbrio, no meio do arco do pé", explica. De fato, tenha ou não salto, a estrutura da maioria dos sapatos se apóia mesmo no que os sapateiros chamam de "alma de aço", uma chapa metálica de 0,8 a 1,5 centímetro de comprimento, envolta em celulose de alta resistência, que é embutida na sola e garante o equilíbrio mesmo sobre grandes alturas. No sapato alto comum, essa estrutura vai até o calcanhar e é parafusada a um tubo de metal localizado no salto; no sapato de Berardi, fica no ar, presa apenas na parte da frente do calçado. "É preciso lembrar de pisar com o antepé primeiro, não com o calcanhar. E não dá para ficar muito tempo com os sapatos", ensina o inventor.

Os especialistas desconfiam. "A sola sustenta o pé, mas o salto tem papel importante no equilíbrio, evitando que se caia para trás", diz Jefferson Pereira, que há doze anos desenvolve sapatos para a marca Schutz, do Rio Grande do Sul. "A pessoa não deve andar do mesmo jeito que com um sapato com salto." Salto, simplesmente, porém, não é garantia de equilíbrio. Em seu último desfile em Paris, a platéia de outro inglês, Alexander McQueen – este do time A –, prendeu a respiração quando a oscilante modelo atravessou a passarela, evidentemente pouco à vontade, num sapato de dois saltos e inspiração oriental. Já no da Yves Saint Laurent, sapatos de salto agulha em que a sola era uma fina tira de metal (a tal "alma de aço" exposta ao público em sua mais reduzida versão) davam a impressão de que as moças andavam na corda bamba. Nina Ricci construiu saltos na forma de garras; Chloé criou triângulos invertidos, no formato do dente de tubarão dos desenhos animados. A diferença entre essas extravagâncias e o sapato alto sem salto de Berardi é que o dele já aceita encomendas e tem lista de espera de cinco semanas. O de couro preto custa 2.000 euros (5.300 reais); o de pele de cobra, 3.000 euros (8.000 reais), e Victoria Beckham já encomendou um par.

 

 

 
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