Na corrida pelo mais
inusitado, estilista cria
o sapato alto sem apoio para o calcanhar
Fotos
Marcio Madeira
Saltos ornamentais: de frente
para trás, na idéia original de Marc Jacobs,
o duplo de inspiração oriental de McQueen
e o agulha Yves Saint-Laurent apoiado em tira de metal no
lugar de sola
Apoiada nos dedos,
com o calcanhar nas alturas, a mulher caminha com o ar de poder
e sensualidade que o salto alto lhe confere. Quem não
usa, ou usa pouco, se pergunta como alguém se dispõe,
por livre e espontânea vontade, a passar horas equilibrando-se
em tão precária base. Pois os que consideram o
salto agulha e as plataformas uma temeridade ainda não
viram nada. Tendo nos acessórios a sua inesgotável
fonte de renda, e sendo os sapatos um artigo ainda pouco explorado,
o mundo da moda, nas últimas temporadas de desfile, tem
ousado tanto na busca do inusitado que atingiu o impensável:
o sapato alto sem salto. Isso mesmo: no grupo B dos estilistas
que desfilam duas vezes por ano em Paris, o inglês Antonio
Berardi, 39 anos, fez suas modelos caminhar na passarela em
botas com o calcanhar pairando no ar, a 14 centímetros
do solo. "Chegamos ao limite: o sapato que segura apenas
o que precisa ser segurado", disse Berardi a VEJA, em tom
de orgulho.
Karl
Prouse/Getty Images
Modelo desfila a bota de Berardi:
meio pé apoiado, meio pé no ar
A idéia não é nova: já havia sido
explorada por Jean Paul Gaultier e Marc Jacobs, ambos idealizadores
de uma espécie de "salto ao contrário",
que começa na frente e, no de Jacobs, nem chega até
o calcanhar o qual, nos dois casos, "flutua"
sem apoio aparente. Mas Berardi foi mais longe, instalando o
conceito do salto sem salto em todo tipo de calçado e
colocando os modelos à venda (por preços astronômicos,
diga-se). O segredo, diz ele, está na plataforma mais
longa, feita para acomodar toda a porção da planta
que efetivamente sustenta o pé. "Estamos acostumados
com o salto dando estabilidade ao sapato. Mas isso não
é obrigatório. Ninguém precisa ter medo
de experimentar minha proposta", assegura Berardi. Embora
pareça ter sido milimetricamente calculada na prancheta,
a fórmula do salto alto sem salto é fruto de tentativa
e erro. "Fiz minha assistente calçar e caminhar
com todo tipo de plataforma. Quando era muito difícil
andar, aumentava um pouco; quando ficava muito fácil,
diminuía. Assim foi até encontrar o ponto de equilíbrio,
no meio do arco do pé", explica. De fato, tenha
ou não salto, a estrutura da maioria dos sapatos se apóia
mesmo no que os sapateiros chamam de "alma de aço",
uma chapa metálica de 0,8 a 1,5 centímetro de
comprimento, envolta em celulose de alta resistência,
que é embutida na sola e garante o equilíbrio
mesmo sobre grandes alturas. No sapato alto comum, essa estrutura
vai até o calcanhar e é parafusada a um tubo de
metal localizado no salto; no sapato de Berardi, fica no ar,
presa apenas na parte da frente do calçado. "É
preciso lembrar de pisar com o antepé primeiro, não
com o calcanhar. E não dá para ficar muito tempo
com os sapatos", ensina o inventor.
Os especialistas desconfiam.
"A sola sustenta o pé, mas o salto tem papel importante
no equilíbrio, evitando que se caia para trás",
diz Jefferson Pereira, que há doze anos desenvolve sapatos
para a marca Schutz, do Rio Grande do Sul. "A pessoa não
deve andar do mesmo jeito que com um sapato com salto."
Salto, simplesmente, porém, não é garantia
de equilíbrio. Em seu último desfile em Paris,
a platéia de outro inglês, Alexander McQueen
este do time A , prendeu a respiração quando
a oscilante modelo atravessou a passarela, evidentemente pouco
à vontade, num sapato de dois saltos e inspiração
oriental. Já no da Yves Saint Laurent, sapatos de salto
agulha em que a sola era uma fina tira de metal (a tal "alma
de aço" exposta ao público em sua mais reduzida
versão) davam a impressão de que as moças
andavam na corda bamba. Nina Ricci construiu saltos na forma
de garras; Chloé criou triângulos invertidos, no
formato do dente de tubarão dos desenhos animados. A
diferença entre essas extravagâncias e o sapato
alto sem salto de Berardi é que o dele já aceita
encomendas e tem lista de espera de cinco semanas. O de couro
preto custa 2.000 euros (5.300 reais); o de pele de cobra, 3.000
euros (8.000 reais), e Victoria Beckham já encomendou
um par.