Os tibetanos não
se rendem facilmente. Há duas décadas, a China
alicia o Tibete com todo tipo de agrado econômico. Construiu
ferrovias, aeroportos, estradas, escolas e prédios públicos
em uma província que, na primeira metade do século
passado, ainda tinha padrão de vida medieval. Pouco adiantou.
Nos últimos dez dias, os tibetanos foram às ruas
para dizer que sua identidade não está à
venda. No aniversário de 49 anos do maior levante contra
a invasão chinesa, ocorrida em 1950, cerca de 300 monges
budistas fizeram uma passeata pacífica pedindo o retorno
do Dalai-Lama, o líder espiritual máximo do budismo
tibetano, exilado na Índia. A manifestação
foi reprimida com violência pela polícia e dezenas
de monges foram presos. Nos dias que se seguiram, tibetanos
de outras províncias e de países vizinhos se rebelaram.
Lojas de chineses, carros e agências do Banco da China
foram destruídos. Nos conflitos, quase 100 pessoas morreram.
Em Lhasa, a capital do Tibete, mais de 900 foram presas.
Para o mundo não
testemunhar a brutalidade, isolou-se completamente a região.
Barricadas foram montadas nas estradas e jornalistas estrangeiros,
expulsos. Para o regime chinês, é uma questão
de segurança nacional. A China considera que o Tibete
sempre lhe pertenceu e teme que a independência da região
leve ao esfacelamento de seu território. A verdade é
que, antes de ser invadido, em 1950, o Tibete era um país
independente com status reconhecido por outras nações.
Do exílio, o Dalai-Lama disse que não almeja a
independência, apenas mais autonomia. Os tibetanos querem
ensinar a própria língua nas escolas e adorar
os seus líderes religiosos. Desde setembro do ano passado,
uma lei chinesa estabelece que um religioso precisa do aval
do Partido Comunista Chinês para ser considerado reencarnação
de Buda. Em um mundo em que até os albaneses da Sérvia
se viram, no mês passado, no direito de ter um estado
independente, o Kosovo, fica difícil negar o mesmo ao
Tibete. E a proximidade da Olimpíada de Pequim torna
mais visível a luta dos tibetanos.