O prêmio Nobel
de Economia diz que as pessoas precisam
de estímulos concretos para agir em prol da maioria.
Sem entender isso, nenhuma empresa ou nação cresce
Monica Weinberg
Tim Shaffer/Reuters
"A lei de patentes
desacelerou
o ritmo de inovação em certas
áreas da tecnologia. Às vezes,
a imitação é fundamental"
O trabalho do americano
Eric Maskin, de 57 anos, representa um avanço na área
da economia focada no entendimento do mecanismo de incentivos
e punições que leva pessoas, empresas e países
a crescer e melhorar. Seus estudos permitem entender em que
situações e em que medida a interferência
da mão protetora e punitiva do estado é mais desejável.
Maskin recebeu o prêmio Nobel no ano passado, com mais
dois economistas americanos. Eles fazem parte de uma sólida
escola de pensamento econômico que leva em conta em suas
análises também os aspectos psicológicos.
"Não dá para criar regras em um mundo tão
complexo quanto o atual sem compreender as reais motivações
das pessoas." Ph.D. em matemática aplicada por Harvard,
Maskin é atualmente pesquisador do Instituto de Estudos
Avançados de Princeton, nos Estados Unidos, em cujo campus
mora com a família na casa que antes abrigou Albert Einstein.
Ele concedeu a VEJA a seguinte entrevista.
Veja Em
uma de suas posições mais polêmicas, o senhor
defende o desrespeito à lei de patentes. Que argumentos
podem existir contra a proteção intelectual? Maskin Quem me critica por isso se apóia
apenas no senso comum e deixa de observar a realidade objetiva,
na qual eu me baseio. De um lado, ela mostra que a proteção
intelectual, de fato, pode incentivar a produção
científica e a inovação, como todo mundo
diz. Isso porque a lei confere ao inventor certa garantia de
que ninguém vai se apropriar de seu trabalho e ainda
faz da atividade criativa um negócio rentável.
Essa lógica vale para algumas das áreas mais vitais
do conhecimento. Para outras, no entanto, ela só atrapalha.
No caso da indústria de software, a proteção
é inimiga da diversidade e da inovação.
Veja Como
exatamente? Maskin
Os estudos sobre o assunto mostram que a proteção
intelectual se provou desastrosa para a indústria de
software por uma razão: esse não é propriamente
um campo que vive de grandes descobertas, mas sim de uma série
de pequenas inovações cujo mérito é
justamente aprimorar o que já existe. Para dar vida a
uma nova idéia, portanto, o inventor precisa necessariamente
ter acesso livre ao que já existe. A imitação
é um motor fundamental para a inovação,
e as patentes se transformam em óbvios obstáculos.
Depois da lei de proteção intelectual nos Estados
Unidos, houve uma desaceleração no ritmo de evolução
dos programas de computador. Liberar a pirataria, nesse caso
específico, teria sido uma solução mais
lucrativa para o país. Há ainda outras situações
em que a lei de patentes no mundo tecnológico não
chega a atrapalhar, mas em compensação não
surte efeito algum é apenas obsoleta e inútil.
Veja O
senhor poderia ser mais específico? Maskin Certas
empresas na área de tecnologia já optam por não
patentear seus inventos, porque eles estão se tornando
ultrapassados da noite para o dia. Não compensa, portanto,
enfrentar toda a burocracia por algo que logo se torna desprovido
de valor. A discussão sobre patentes que faço
aqui ajuda a reforçar a idéia de que a interferência
do estado em algumas áreas parece vital, mas é,
para dizer o mínimo, desnecessária, quando não
claramente prejudicial.
Veja Sua
idéia é bastante defensável quando se fala
de patentes de alta tecnologia digital, mas, de modo mais amplo,
qual sua opinião sobre a interferência do estado
na vida das pessoas e nas empresas? Maskin Os governos
freqüentemente extrapolam suas funções
no mau sentido. A experiência mostra que o estado é
necessário e útil na hora de garantir um bom conjunto
de instituições por meio das quais contratos e
outros arranjos da sociedade civil sejam respeitados sem muito
custo. De resto, ele deve servir para criar regras e incentivos
apenas naquelas áreas em que o mercado, por si só,
não está sendo capaz de promover o bem-estar dos
cidadãos. Um exemplo bem palpável e universal
é o trânsito. Em grandes cidades, em geral o trânsito
é péssimo. Isso independe do grau de educação
das pessoas. Há tempos observo essa questão e
cheguei à conclusão de que as raras e boas exceções
à incivilidade geral são sempre produto de alguma
espécie de intervenção do estado através
de incentivos aos motoristas. As faixas especiais nas ruas e
estradas para motoristas que transportam caronas são
um exemplo. Elas funcionam bem em muitas capitais e diminuem
os problemas de tráfego. Sem esse incentivo por parte
do estado, a situação certamente estaria pior.
Veja Deixado
ao sabor dos mercados, o trânsito só piora, como
o senhor observou. Em outras áreas também é
assim? Maskin As
pessoas costumam me perguntar: "Afinal, o mercado é
ou não é auto-suficiente?". Na maioria das
vezes, ele é. Em outras, não. A sabedoria está
em diferenciar uma situação da outra. O próprio
Adam Smith (filósofo escocês, 1723-1790),
pai do liberalismo econômico, observou em seu livro A
Riqueza das Nações que os homens de negócios
de seu tempo raramente se encontravam em ocasiões sociais,
mas, sempre que isso ocorria, eles aproveitavam para conspirar
"contra o público, para fazer subir o preço"
de suas mercadorias. Smith alertou para as imperfeições
do mercado. A meu ver, o estado deve entrar em cena justamente
nas crises e apenas para corrigir imperfeições,
sem jamais aspirar a ser o protagonista da história.
Veja Mas é comum que o estado queira justamente
ser o personagem central, não? Maskin Um mergulho
na história mostra que, com freqüência bem
maior do que a desejada, os governantes têm caído
na tentação de se colocar no centro das questões
econômicas de modo permanente. Nesses casos, o desfecho
não é outro senão o fracasso. Mas também
é fato concreto que, intervindo na medida certa, o estado
pode, sim, exercer um papel fundamental e benéfico. Um
exemplo é a criação de regras que incentivem
aqueles que estão em busca de um benefício pessoal
a, de algum modo, favorecer também a sociedade nesse
processo.
Veja Mas é possível chegar a uma fórmula
que determine o grau de interferência do estado e os casos
em que isso é bom? Não parece utópico? Maskin Tome-se
aqui a questão ambiental. A combinação
de punição com incentivos em doses certas em alguns
estados produziu ótimos resultados na redução
da emissão de gases de carbono pelas empresas. Na área
da ciência, por sua vez, países como a Coréia
do Sul também colheram bons resultados depois de o governo
incentivar com corte de impostos as empresas cujos investimentos
em pesquisa e desenvolvimento se destacassem em relação
à média. São dois exemplos distintos, mas
que guardam entre si uma semelhança básica. Em
ambos os casos, o estado conseguiu criar um sistema para reconhecer
e premiar os eficientes e punir os menos dispostos a contribuir
para o bem comum. Repare que tanto o caso ambiental americano
como o da ciência coreana dizem muito sobre a natureza
humana. Ela sempre reage a incentivos e punições.
Veja Por
que isso pode ser considerado uma lei universal humana? Maskin As
pessoas sempre pensam em si mesmas antes de levar em conta o
bem-estar geral. Não adianta querer mudar isso. A espécie
humana é essencialmente egoísta e precisa freqüentemente
receber estímulos individuais para agir em prol de uma
causa que transcenda o próprio raio de interesses. O
prêmio ao empresário que corta suas emissões
de carbono é um exemplo. Sem esse incentivo, ele estaria
poluindo bem mais do que efetivamente está. O mesmo tipo
de comportamento se observa em uma empresa privada. A princípio,
todo mundo trabalha impulsionado por objetivos próprios,
entre eles o progresso na carreira e o salário no fim
do mês. A única forma de fazer um funcionário
voltar-se também para os interesses da empresa é
motivá-lo por meio de um conjunto concreto de benefícios
extras. Não é por acaso que as companhias que
implantaram políticas de reparte de lucros ou de premiação
em dinheiro aos funcionários mais talentosos e esforçados
tendem a superar as demais em produtividade e lucro. Sempre
digo em minhas palestras que, em um mundo tão complexo,
economistas, empresários e governantes precisam saber
mais sobre psicologia. Do contrário, eles vão
fracassar nas tentativas de estabelecer regras e edificar instituições
duradouras.
Veja A dose
certa de incentivo e punição ainda me parece a
questão principal quando se tenta influenciar o comportamento
humano, não? Maskin Sim.
Os governos tendem a exagerar na distribuição
de benefícios a todo mundo, sem levar em conta o mérito
ou sem exigir contrapartida dos agraciados. Em muitos dos países
em desenvolvimento, onde ainda há concentração
de pobreza, os governos cometem o erro de sair dando dinheiro
às famílias sem estabelecer com elas um termo
de compromisso segundo o qual tal benefício deve estar
atrelado a alguma boa ação, como a obrigação
de matricular um filho na escola. Esse é o velho assistencialismo.
Certos países, e tem-se a impressão de ser esse
o caso do Brasil, parecem finalmente entender que os avanços
começam mesmo quando se passa a exigir contrapartida
dos beneficiários de programas sociais.
Veja Do
ponto de vista econômico, quais são as vantagens
desse tipo de programa? Maskin Os governos
benfeitores à moda antiga ignoram o fato de que as pessoas
precisam de um empurrão para tomar a decisão mais
acertada para a própria vida. Quando simplesmente se
distribui dinheiro de graça, o efeito empurrão
não se manifesta e perde-se, então, o mais vital
nesses casos, que é a mudança individual com ganhos
para o bem-estar geral. Ao exigir contrapartida, o governo consegue
atender a duas necessidades ao mesmo tempo. Ele incentiva o
ingresso na escola e, assim, melhora as perspectivas dos indivíduos.
O país ganha quando mais gente vai à escola. Está
provado hoje que, sem uma concentração de gente
bem-educada, nenhuma nação avança. Nesses
casos, a mão do estado que incentiva tem se mostrado
muito eficaz. Seria altamente desejável que se tornasse
mais abrangente no mundo um mecanismo tão útil
quanto esse para incentivar o comportamento ambiental vantajoso
para os indivíduos e para a sociedade.
Veja A
que se deve o atraso institucional na área de meio ambiente? Maskin Alguns poucos países já conseguiram criar
com sucesso mecanismos para restringir a poluição
do ar. Mas esses mecanismos estão longe de se universalizar.
A dificuldade está justamente em chegar a um acordo para
reduzir a emissão de carbono que contemple a realidade
de cada um dos países. Sem a existência de uma
instituição sólida e influente à
frente do processo, essa tarefa parece impossível. Digo
isso porque o único órgão que, em tese,
se aproximaria disso são as Nações Unidas
(ONU). Mas, na prática, nem de longe a ONU demonstra
ter eficiência e poder para se impor aos governos locais
em questões ambientais. Se fosse possível criar
um governo mundial com uma legislação acima da
dos países, não tenho dúvida de que estaríamos
em situação ambiental bem melhor. Não se
podem minimizar, porém, os riscos e as dificuldades que
se corre ao tentar um acordo internacional dessa magnitude.
A maior complexidade aí é que o acordo precisa
parecer aceitável para todos os países signatários,
sem exceção. Se a China ou os Estados Unidos,
por exemplo, se recusarem a participar, o esforço de
todos terá sido em vão. Mas pode ser que o momento
seja propício agora que, no tabuleiro geopolítico,
chineses e americanos dependem tanto uns dos outros.
Veja O
senhor vê alguma possibilidade de as relações
entre China e Estados Unidos se manterem estáveis? Maskin Os Estados
Unidos estão evidentemente habituados à supremacia
econômica e muitos cidadãos americanos sofrem com
a idéia de perder o posto de nação número
1 do planeta. Mas, para mim, esse é o lado menos relevante
da questão. O que mais me interessa é o potencial
de equilíbrio entre os dois países, situação
da qual ambos se beneficiam em grau semelhante. Isso nos remete
ao básico da teoria econômica. Se a China enriquecer
mais, ela se tornará um mercado ainda mais atraente para
as empresas americanas. Caso os Estados Unidos fiquem ainda
mais prósperos, haverá mais capital disponível
para investir na economia chinesa. Ou seja, a prosperidade americana
interessa à China na medida em que ela vai experimentar
um desenvolvimento ainda maior. Os dois países, portanto,
tendem a incentivar naturalmente o sucesso um do outro. É
fundamental o fato de que não há motivo para um
conflito entre as duas superpotências. A competição
entre as duas economias, no entanto, é saudável.
Ao fim e ao cabo, a competição econômica
é um processo muito positivo para os Estados Unidos.
Venho refletindo muito sobre esse processo ultimamente.
Veja Que
processo é esse? Maskin Sem
a China no horizonte, os Estados Unidos estariam mais acomodados
em sua liderança, o que é fatal para a produtividade
de uma nação. A recente crise imobiliária
americana evidenciou certas fragilidades que dão conta
de quanto o país ainda precisa evoluir institucionalmente.
Uma delas diz respeito ao fato de até hoje não
dispormos de um mecanismo capaz de evitar que as pessoas peguem
dinheiro emprestado sem, em última análise, ter
as mínimas condições de saber se vão
ou não poder pagar o empréstimo no futuro. Elas
precisam receber as informações necessárias
e as análises econômicas e financeiras que lhes
permitam tomar decisões menos arriscadas. Por outro lado,
o sistema financeiro precisa urgentemente se tornar mais transparente.
A meu ver, sem a competição da China as reformas
que acabo de citar não teriam chance de ser feitas. Com
a China nos calcanhares, os Estados Unidos devem se apressar
a corrigir essas e outras imperfeições. Nesse
campo, as nações tendem a reagir exatamente como
as pessoas e as empresas privadas. Incentive a concorrência
entre elas e o resultado será o crescimento da economia
e a melhoria da sociedade e de suas instituições.