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Edição 2053

26 de março de 2008
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Auto-retrato
Melanie Betancourt

A dor de um seqüestro é devastadora – e a mesma sensação é experimentada pelas famílias dos reféns. A estudante francesa Melanie Betancourt carrega há seis anos esse sofrimento. É filha da ex-deputada e candidata à Presidência da Colômbia Ingrid Betancourt, que permanece em poder das Farc. Melanie, 22 anos, falou ao repórter Ronaldo Soares sobre o seu medo de que a mãe morra antes de reencontrá-la.

COMO TEM SIDO VIVER SEM SUA MÃE DURANTE TANTOS ANOS? Esses seis anos têm sido muito, muito difíceis. A ausência dela é bastante pesada para mim e para meu irmão. Sempre fomos muito próximas. Mesmo quando tivemos de nos separar, por questões de segurança, nós nos falávamos todos os dias pelo telefone ou pela internet. Agradeço aos céus por ter a mãe que tenho. Ainda que estejamos passando por momentos tão difíceis, sei que tenho muita sorte de ser filha dela.

SENDO UMA MULHER OCUPADA E COM UMA CARREIRA EM ASCENSÃO, ELA TINHA TEMPO PARA OS FILHOS? Ela sempre trabalhou bastante, mas nunca deixou de nos dar atenção. Quando trabalhava até muito tarde, fazia questão de acordar de manhã cedo para tomar café com a gente e nos levar à escola. Mesmo quando chegava exausta, sentava-se ao lado do meu irmão, que é três anos mais novo do que eu, para ajudá-lo a fazer o dever de casa. Ela sempre foi assim.

VOCÊ ACREDITA NA SUA LIBERTAÇÃO? Claro. Acho que não temos o direito de fraquejar. O que minha mãe e os reféns estão passando naquela selva é realmente assustador. Quando penso nisso, repito para mim mesma que não tenho o direito de desanimar. Tiro forças do amor que tenho por ela. Da imensa vontade de reencontrá-la. Cabe a nós, que estamos livres, ser fortes. Os reféns precisam de nosso apoio, para que sejam libertados logo.

QUAL FOI O PIOR MOMENTO NESSA ESPERA? Todos. Hoje, a diferença é que temos certeza de que minha mãe está viva, apesar das más condições em que se encontra. Ela está muito doente, com sério risco de morrer. Não temos muito tempo pela frente. É isso que me assusta. Hoje, tenho realmente esperança de tirá-la de lá, só que isso tem de ser feito urgentemente. Nas condições a que está submetida, ela não vai suportar muito tempo mais. É preciso tirá-la imediatamente de lá, na próxima semana ou, no máximo, no mês que vem; caso contrário ela vai morrer.

EXISTE UMA DATA EM QUE A DOR AUMENTA? O aniversário dela, que cai justamente no Natal. É uma coincidência que torna ainda mais doloroso tudo o que já é difícil todos os dias.

JÁ LHE PASSOU PELA CABEÇA QUE SERIA MELHOR ESTAR NO LUGAR DELA? Sei que minha avó responderia "claro que sim", se essa pergunta fosse feita a ela. Eu quero muito que minha mãe volte, mas quero viver também. Ninguém deve estar naquela situação. Agora, se pudesse ir lá buscá-la, eu iria. Isso sim é algo que me passa pela cabeça. Se fosse possível, colocaria minha mochila nas costas e entraria na selva para pegá-la pela mão e trazê-la de volta.

VOCÊ CONSIDERA SUA MÃE UMA ESPÉCIE DE JOANA D’ARC DOS TEMPOS MODERNOS, COMO CHEGOU A SER DITO A RESPEITO DELA? Penso que minha mãe prescinde desse tipo de comparação. Ela é uma pessoa extraordinária. E acho que está nos provando isso pela força e determinação que tem mantido.

COMO VOCÊ VÊ AS FARC? SÃO UM GRUPO TERRORISTA OU POLÍTICO? Como elas praticam seqüestros, não podem ser consideradas um grupo político. Somente se começarem a libertar todos os reféns, se se comprometerem a não praticar mais seqüestros e se engajarem num esforço de paz na Colômbia, poderão ser vistas de outra forma.



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