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Edição 1 795 - 26 de março de 2003
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Roberto Pompeu de Toledo

Canto de passarinho
numa hora dessas?

Cogitações sobre a indecente
intromissão da normalidade na
tragédia
e outros assuntos

Os passarinhos cantavam, ao amanhecer da última quinta-feira em Bagdá. Dava para ouvir na televisão, nas ocasiões em que os locutores silenciavam e ficavam no ar só a imagem e o som local da capital do Iraque. Havia algo de brutal naquele piu-piu. Aquele não era um dia como os outros. Pelo contrário, o que raiava era o dia do Armagedom, aquele em que, vencido o ultimato americano, as bombas começariam a chover sobre a cidade. A lógica mais comezinha recomendaria que os passarinhos não cantassem. Alguém deveria ter providenciado isso. Numa ocasião como essa, os passarinhos bem que podiam ser dispensados de seu papel na trilha sonora que anuncia o nascimento das manhãs. Mas não. Eles piavam. E o som que emitiam era a infiltração do absurdo no cenário cheio de maus presságios da capital do Iraque.

O problema com o canto dos passarinhos era que acrescentava às circunstâncias um toque de normalidade. E nada mais deslocado, nada mais sem vez nem propósito, numa oportunidade dessas, do que algum resquício de normalidade. Num momento em que vidas estavam para ser ceifadas, nações se viam postas de cabeça para baixo, populações eram sacudidas de suas rotinas e o próprio eixo do mundo parecia prestes a ser deslocado, o canto dos passarinhos conspurcava o cenário com uma marca de indecente indiferença.

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Pausa para uma sessão de perguntas. "A ameaça representada pelo ditador iraquiano justifica uma guerra, que certamente matará milhares de crianças, homens e mulheres?" (chanceler alemão Gerhard Schroeder). "Se o Iraque produzisse rabanetes, em vez de petróleo, a quem ocorreria invadir esse país?" (jornalista uruguaio Eduardo Galeano). Schroeder respondeu "não" à própria pergunta. Galeano não julgou necessário avançar resposta à sua.

• • •

A BBC de Londres adiantou-se e pôs o presidente George W. Bush no ar antes do que devia. Dali a instantes, na noite da última quinta-feira, ele anunciaria que a guerra contra o Iraque estava começando. A BBC revelou-o ainda na preparação da aparição na TV. Bush, já sentado na cadeira, mas ainda se ajeitando em busca da melhor posição, movimenta os lábios. A cena é muda, mas dá para perceber que ele está repassando o texto que recitará dali a pouco. Enquanto isso, mãos femininas – só dá para ver as mãos – passam-lhe um pente nos cabelos. As mãos se retiram, mas logo voltam, de novo insistindo em ajeitar os últimos pêlos na cabeleira presidencial. A cena é chocante. Aquele homem está na iminência iminentíssima de desencadear uma guerra que matará milhares de pessoas, talvez dezenas de milhares, talvez centenas de milhares, e placidamente se deixa pentear. Sua assessoria cuida para que se apresente de forma impecável, com cada fio de cabelo no devido lugar. O pente que desliza sobre a cabeça presidencial representa, de novo, a invasão do absurdo no momento mesmo em que estão para ser soltas as bestas do Apocalipse. É a normalidade, de novo, imiscuindo-se, de forma brutal – nada mais brutal do que a intromissão da normalidade, numa hora dessas –, no Armagedom.

• • •

Seria comovente, se não fosse patética, a defesa que o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, fez, nestes meses todos, da guerra contra o Iraque. Suponhamos que Bush não tivesse ganhado a eleição. Ou melhor: suponhamos que a eleição americana não tivesse sido fraudada, como foi, e Al Gore estivesse hoje na Presidência. Suponhamos ainda que, nessas condições, o que parece provável, o Iraque permanecesse tão esquecido, ou cuidado de forma tão distante, quanto o foi durante os anos Clinton. Acrescentamos então mais uma, à nossa sessão de perguntas: Tony Blair também teria achado, nessas circunstâncias, que era preciso fazer guerra contra o Iraque? Se ele parece tão convencido, hoje, de que a guerra era necessária, é de supor que, mesmo sem a iniciativa dos Estados Unidos, lutaria por ela e até, quem sabe, se proporia a levá-la a cabo sozinho. Mas... Será? Blair precisa urgentemente de uma reengenharia de imagem. O apelido de "cachorrinho poodle" de Bush pegou firme.

• • •

O motorista de táxi sobe a Rua da Consolação, em São Paulo, envolvido em cismas ominosas. "A guerra desta vez vai, não vai?", pergunta ao passageiro. Ele está horrorizado: que absurdo, que loucura... "Como é que os Estados Unidos, o país mais importante, fazem uma coisa dessas? Para quê? Vai morrer tanta gente inocente." Depois, cheio de preocupação: "Ouvi hoje no rádio que o governo brasileiro está contra a guerra. Será verdade?". O passageiro confirma. O motorista comenta, quase já sentindo a guerra na pele, quase já ouvindo a bomba cair nas suas vizinhanças: "Seria bom nosso governo falar isso bem baixo".

George W. Bush e sua turma não conseguiram apenas tornar realidade a sonhada guerra contra o Iraque. Conseguiram espalhar o medo pelo mundo afora.

 
 
   
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