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Roberto
Pompeu de Toledo
Canto de passarinho
numa hora dessas?
Cogitações
sobre a
indecente
intromissão da normalidade na
tragédia e outros assuntos
Os passarinhos
cantavam, ao amanhecer da última quinta-feira em Bagdá.
Dava para ouvir na televisão, nas ocasiões em que os locutores
silenciavam e ficavam no ar só a imagem e o som local da capital
do Iraque. Havia algo de brutal naquele piu-piu. Aquele não era
um dia como os outros. Pelo contrário, o que raiava era o dia do
Armagedom, aquele em que, vencido o ultimato americano, as bombas começariam
a chover sobre a cidade. A lógica mais comezinha recomendaria que
os passarinhos não cantassem. Alguém deveria ter providenciado
isso. Numa ocasião como essa, os passarinhos bem que podiam ser
dispensados de seu papel na trilha sonora que anuncia o nascimento das
manhãs. Mas não. Eles piavam. E o som que emitiam era a
infiltração do absurdo no cenário cheio de maus presságios
da capital do Iraque.
O problema
com o canto dos passarinhos era que acrescentava às circunstâncias
um toque de normalidade. E nada mais deslocado, nada mais sem vez nem
propósito, numa oportunidade dessas, do que algum resquício
de normalidade. Num momento em que vidas estavam para ser ceifadas, nações
se viam postas de cabeça para baixo, populações eram
sacudidas de suas rotinas e o próprio eixo do mundo parecia prestes
a ser deslocado, o canto dos passarinhos conspurcava o cenário
com uma marca de indecente indiferença.
Pausa para
uma sessão de perguntas. "A ameaça representada pelo ditador
iraquiano justifica uma guerra, que certamente matará milhares
de crianças, homens e mulheres?" (chanceler alemão Gerhard
Schroeder). "Se o Iraque produzisse rabanetes, em vez de petróleo,
a quem ocorreria invadir esse país?" (jornalista uruguaio Eduardo
Galeano). Schroeder respondeu "não" à própria pergunta.
Galeano não julgou necessário avançar resposta à
sua.
A BBC de
Londres adiantou-se e pôs o presidente George W. Bush no ar antes
do que devia. Dali a instantes, na noite da última quinta-feira,
ele anunciaria que a guerra contra o Iraque estava começando. A
BBC revelou-o ainda na preparação da aparição
na TV. Bush, já sentado na cadeira, mas ainda se ajeitando em busca
da melhor posição, movimenta os lábios. A cena é
muda, mas dá para perceber que ele está repassando o texto
que recitará dali a pouco. Enquanto isso, mãos femininas
só dá para ver as mãos passam-lhe um
pente nos cabelos. As mãos se retiram, mas logo voltam, de novo
insistindo em ajeitar os últimos pêlos na cabeleira presidencial.
A cena é chocante. Aquele homem está na iminência
iminentíssima de desencadear uma guerra que matará milhares
de pessoas, talvez dezenas de milhares, talvez centenas de milhares, e
placidamente se deixa pentear. Sua assessoria cuida para que se apresente
de forma impecável, com cada fio de cabelo no devido lugar. O pente
que desliza sobre a cabeça presidencial representa, de novo, a
invasão do absurdo no momento mesmo em que estão para ser
soltas as bestas do Apocalipse. É a normalidade, de novo, imiscuindo-se,
de forma brutal nada mais brutal do que a intromissão da
normalidade, numa hora dessas , no Armagedom.
Seria comovente,
se não fosse patética, a defesa que o primeiro-ministro
britânico, Tony Blair, fez, nestes meses todos, da guerra contra
o Iraque. Suponhamos que Bush não tivesse ganhado a eleição.
Ou melhor: suponhamos que a eleição americana não
tivesse sido fraudada, como foi, e Al Gore estivesse hoje na Presidência.
Suponhamos ainda que, nessas condições, o que parece provável,
o Iraque permanecesse tão esquecido, ou cuidado de forma tão
distante, quanto o foi durante os anos Clinton. Acrescentamos então
mais uma, à nossa sessão de perguntas: Tony Blair também
teria achado, nessas circunstâncias, que era preciso fazer guerra
contra o Iraque? Se ele parece tão convencido, hoje, de que a guerra
era necessária, é de supor que, mesmo sem a iniciativa dos
Estados Unidos, lutaria por ela e até, quem sabe, se proporia a
levá-la a cabo sozinho. Mas... Será? Blair precisa urgentemente
de uma reengenharia de imagem. O apelido de "cachorrinho poodle" de Bush
pegou firme.
O motorista
de táxi sobe a Rua da Consolação, em São Paulo,
envolvido em cismas ominosas. "A guerra desta vez vai, não vai?",
pergunta ao passageiro. Ele está horrorizado: que absurdo, que
loucura... "Como é que os Estados Unidos, o país mais importante,
fazem uma coisa dessas? Para quê? Vai morrer tanta gente inocente."
Depois, cheio de preocupação: "Ouvi hoje no rádio
que o governo brasileiro está contra a guerra. Será verdade?".
O passageiro confirma. O motorista comenta, quase já sentindo a
guerra na pele, quase já ouvindo a bomba cair nas suas vizinhanças:
"Seria bom nosso governo falar isso bem baixo".
George W.
Bush e sua turma não conseguiram apenas tornar realidade a sonhada
guerra contra o Iraque. Conseguiram espalhar o medo pelo mundo afora.
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