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Realidade
paralela
Jack Nicholson cria
uma versão
terrível de si
mesmo em Schmidt
Isabela
Boscov
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New Line Production

Nicholson,
como Schmidt: pequeno,
sem cor e emasculado
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Veja também |
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Jack
Nicholson é o expoente inconteste do minúsculo grupo dos
atores que têm na inteligência uma das partes mais atraentes
de seu talento. Isso significa que ele é não só o
mais bem-sucedido nessa categoria, mas também aquele em que a importância
do desafio é mais óbvia: Nicholson é capaz de interpretações
memoráveis quando o papel exige dele, e também de atuações
incrivelmente preguiçosas quando não encontra algo que o
estimule. Não à toa, portanto, ele se deixou atrair por
As Confissões de Schmidt (About Schmidt, Estados
Unidos, 2002), desde sexta-feira em cartaz no país. Warren Schmidt
é um analista de seguros que trabalhou desde sempre na mesma empresa
e agora, aos 66 anos, está se aposentando. Sem emprego e sem outros
interesses, Schmidt vê sua vida, para a frente e para trás,
como uma paisagem plana. Sua mulher é para ele uma velha desconhecida
que mora na mesma casa. O único evento nesse horizonte é
o casamento meio tardio de sua filha única com um caipira vendedor
de colchões de água, que ele detesta como sinal de que a
moça quer negá-lo como imagem masculina. Schmidt é,
enfim, a emasculação personificada. É um homem sem
ânimo e sem função, que a mulher obriga a usar o banheiro
sentado. E é o oposto de tudo o que Nicholson sempre representou,
na tela ou como personalidade.
| As
indicações |
Ator Jack Nicholson
Atriz coadjuvante Kathy Bates |
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As
Confissões de Schmidt é, em tese, uma adaptação
do livro Sobre Schmidt, do polonês radicado nos Estados Unidos
Louis Begley. O caso é que o diretor e co-roteirista Alexander
Payne (dos excelentes Ruth em Questão e Eleição)
jogou quase todo o original fora, sem que houvesse um bom motivo para
tanto, e trocou a sutil melancolia do livro por uma mistura instável
de sarcasmo e sentimentalismo como se um desculpasse o outro. É
mais por iniciativa de Nicholson que de Payne que alguns dos temas tratados
por Begley a solidão e as escolhas passadas que não
podem ser remediadas ganham corpo aqui. O ator interpreta Schmidt
como uma versão paralela, e terrível, de si mesmo: um Jack
Nicholson que, na juventude, tivesse trocado o arriscado pelo certo, até
envelhecer pequeno e sem cor. Para fazer isso, não é preciso
apenas ser um grande ator. É preciso ter coragem para se auto-examinar
sem piedade.
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