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Edição 1 795 - 26 de março de 2003
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Realidade paralela

Jack Nicholson cria uma versão
terrível de
si mesmo em Schmidt

Isabela Boscov

 

New Line Production

Nicholson, como Schmidt: pequeno, sem cor e emasculado

Veja também
Estação VEJA: trailer e fotos do filme e perfil do ator Jack Nicholson

Jack Nicholson é o expoente inconteste do minúsculo grupo dos atores que têm na inteligência uma das partes mais atraentes de seu talento. Isso significa que ele é não só o mais bem-sucedido nessa categoria, mas também aquele em que a importância do desafio é mais óbvia: Nicholson é capaz de interpretações memoráveis quando o papel exige dele, e também de atuações incrivelmente preguiçosas quando não encontra algo que o estimule. Não à toa, portanto, ele se deixou atrair por As Confissões de Schmidt (About Schmidt, Estados Unidos, 2002), desde sexta-feira em cartaz no país. Warren Schmidt é um analista de seguros que trabalhou desde sempre na mesma empresa e agora, aos 66 anos, está se aposentando. Sem emprego e sem outros interesses, Schmidt vê sua vida, para a frente e para trás, como uma paisagem plana. Sua mulher é para ele uma velha desconhecida que mora na mesma casa. O único evento nesse horizonte é o casamento meio tardio de sua filha única com um caipira vendedor de colchões de água, que ele detesta como sinal de que a moça quer negá-lo como imagem masculina. Schmidt é, enfim, a emasculação personificada. É um homem sem ânimo e sem função, que a mulher obriga a usar o banheiro sentado. E é o oposto de tudo o que Nicholson sempre representou, na tela ou como personalidade.


As indicações
Ator ­ Jack Nicholson

Atriz coadjuvante ­ Kathy Bates

As Confissões de Schmidt é, em tese, uma adaptação do livro Sobre Schmidt, do polonês radicado nos Estados Unidos Louis Begley. O caso é que o diretor e co-roteirista Alexander Payne (dos excelentes Ruth em Questão e Eleição) jogou quase todo o original fora, sem que houvesse um bom motivo para tanto, e trocou a sutil melancolia do livro por uma mistura instável de sarcasmo e sentimentalismo – como se um desculpasse o outro. É mais por iniciativa de Nicholson que de Payne que alguns dos temas tratados por Begley – a solidão e as escolhas passadas que não podem ser remediadas – ganham corpo aqui. O ator interpreta Schmidt como uma versão paralela, e terrível, de si mesmo: um Jack Nicholson que, na juventude, tivesse trocado o arriscado pelo certo, até envelhecer pequeno e sem cor. Para fazer isso, não é preciso apenas ser um grande ator. É preciso ter coragem para se auto-examinar sem piedade.

   
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