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Edição 1 795 - 26 de março de 2003
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Inimigo desconhecido

Uma pneumonia misteriosa que
surgiu na Ásia e se espalhou por
quatro continentes deixa os médicos
em alerta. Ela não tem tratamento

Paula Neiva

 
Fotos AP
Pacientes na sala de espera de um hospital em Hong Kong: a região tem o maior número de mortos

Numa investigação digna de Sherlock Holmes, epidemiologistas do Departamento de Saúde de Hong Kong conseguiram traçar a rota de contaminação da síndrome respiratória aguda severa (SARS), a misteriosa pneumonia que se alastrou do Sudeste Asiático para o resto do mundo. Os médicos descobriram que, entre meados de fevereiro e início de março, sete vítimas da doença se hospedaram ou visitaram o 9º andar do Hotel Metropole, um quatro-estrelas localizado no distrito de Kowloon, em Hong Kong. A vítima número 1 do surto foi um professor de medicina, de 64 anos. De 15 a 23 de fevereiro, ele permaneceu no hotel. Poucos dias depois, de volta para casa, na China continental, o professor morreu. Tinha febre alta, dores musculares e muita dificuldade para respirar. Uma semana antes da viagem a Hong Kong, ele já não se sentia muito bem. O professor estava contaminado e levou a doença para a região.

No Hotel Metropole, ele recebeu a visita de um amigo, que mora na cidade. Contaminado pelo professor, antes de ser diagnosticado com a síndrome, esse homem transmitiu a doença para uma dezena de outras pessoas. Também foram infectados no Hotel Metropole três turistas de Cingapura e um casal do Canadá. Foi assim que a SARS começou a se alastrar por Hong Kong e a ganhar o mundo. A velocidade da epidemia é assustadora. Em viagem de negócios a Hanói, no Vietnã, um executivo americano de 50 anos fez escala de um dia em Hong Kong. Ao chegar à capital vietnamita, ele começou a passar mal e teve de ser internado às pressas. Recebeu o típico tratamento dispensado às vítimas de pneumonia. Nenhum antibiótico, no entanto, surtia efeito, e seu estado de saúde era cada vez mais precário. Rapidamente, a doença se espalhou pelo hospital e contaminou cerca de quarenta pessoas, na maioria médicos e enfermeiras que tiveram algum contato com o doente. Transferido para Hong Kong, o executivo morreu. Uma enfermeira e um médico do hospital de Hanói também não resistiram à enfermidade.


O Hotel Metropole, em Hong Kong: foi de lá que a doença se alastrou para o resto do mundo

Para os especialistas, a SARS está diretamente relacionada a uma outra epidemia de pneumonia que começou em novembro do ano passado na província de Guangdong, vizinha a Hong Kong. Em três meses, 300 pessoas ficaram doentes e cinco morreram com sintomas muito semelhantes aos da síndrome de agora. Por descaso das autoridades chinesas, os dados dessa primeira epidemia não foram devidamente reportados. Se as notificações tivessem sido feitas, a busca para decifrar o agente infeccioso poderia estar bem mais avançada. Na semana passada, pesquisadores alemães e chineses isolaram partículas de um mesmo vírus em amostras de sangue de três pacientes. Trata-se de exemplares da família Paramyxoviridae, causadores de doenças como sarampo, caxumba, otite, distúrbios respiratórios e encefalite. Pelo que se sabe, essa classe de vírus não causa pneumonias graves. Mas um de seus exemplares pode ter sofrido uma mutação. Ainda é cedo para estabelecer uma relação direta de causa e efeito entre esse tipo de micróbio e a SARS. "Pode ser apenas uma coincidência o fato de os três doentes serem portadores do mesmo vírus", afirma o infectologista Sergio Wey, do Hospital Albert Einstein, em São Paulo. Sem conhecer a identidade do agente causador da doença, há pouco (ou quase nada) que se possa fazer . "Como os antibióticos simplesmente não funcionam, aos médicos cabe apenas manter os pacientes hidratados e nutridos, para que o organismo deles não se deixe abater pela doença", disse a VEJA o médico canadense Stephen Corber, da Organização Mundial de Saúde.

Apesar da velocidade da contaminação, a SARS não parece ser uma doença facilmente transmissível. Até o momento, a grande maioria das infecções deu-se por contato muito próximo com os doentes. O cenário seria mais preocupante se o agente causador da SARS fosse parecido com o vírus da gripe, que é transmitido pelo ar. Mesmo assim, em menos de um mês ele apareceu em quatro continentes (veja mapa abaixo). No passado, provavelmente ficaria restrito ao seu epicentro, o Sudeste Asiático. Hoje, com as facilidades do transporte aéreo, um vírus ou bactéria viaja de um canto a outro do planeta em questão de dias. O vírus da gripe, por exemplo, leva apenas quatro dias para dar a volta ao mundo. Antes, precisava de quatro meses. O primeiro doente de SARS registrado no continente europeu é um médico, de 32 anos, proveniente de Cingapura. Depois de tratar duas vítimas da síndrome em sua terra natal, ele embarcou com a mulher grávida e a sogra para um congresso de medicina em Nova York, nos Estados Unidos. De volta para casa, na escala em Frankfurt, na Alemanha, ele teve de ser hospitalizado. Foi esse médico que, provavelmente, também transportou o vírus para território americano.

   
 

 

   
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