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Inimigo desconhecido
Uma
pneumonia misteriosa que
surgiu na Ásia e se espalhou por
quatro continentes deixa os médicos
em alerta. Ela não tem tratamento
Paula Neiva
Fotos AP
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| Pacientes
na sala de espera de um hospital em Hong Kong: a região tem
o maior número de mortos |
Numa
investigação digna de Sherlock Holmes, epidemiologistas
do Departamento de Saúde de Hong Kong conseguiram traçar
a rota de contaminação da síndrome respiratória
aguda severa (SARS), a misteriosa pneumonia que se alastrou do Sudeste
Asiático para o resto do mundo. Os médicos descobriram que,
entre meados de fevereiro e início de março, sete vítimas
da doença se hospedaram ou visitaram o 9º andar do Hotel Metropole,
um quatro-estrelas localizado no distrito de Kowloon, em Hong Kong. A
vítima número 1 do surto foi um professor de medicina, de
64 anos. De 15 a 23 de fevereiro, ele permaneceu no hotel. Poucos dias
depois, de volta para casa, na China continental, o professor morreu.
Tinha febre alta, dores musculares e muita dificuldade para respirar.
Uma semana antes da viagem a Hong Kong, ele já não se sentia
muito bem. O professor estava contaminado e levou a doença para
a região.
No Hotel Metropole, ele recebeu a visita de um amigo, que mora na cidade.
Contaminado pelo professor, antes de ser diagnosticado com a síndrome,
esse homem transmitiu a doença para uma dezena de outras pessoas.
Também foram infectados no Hotel Metropole três turistas
de Cingapura e um casal do Canadá. Foi assim que a SARS começou
a se alastrar por Hong Kong e a ganhar o mundo. A velocidade da epidemia
é assustadora. Em viagem de negócios a Hanói, no
Vietnã, um executivo americano de 50 anos fez escala de um dia
em Hong Kong. Ao chegar à capital vietnamita, ele começou
a passar mal e teve de ser internado às pressas. Recebeu o típico
tratamento dispensado às vítimas de pneumonia. Nenhum antibiótico,
no entanto, surtia efeito, e seu estado de saúde era cada vez mais
precário. Rapidamente, a doença se espalhou pelo hospital
e contaminou cerca de quarenta pessoas, na maioria médicos e enfermeiras
que tiveram algum contato com o doente. Transferido para Hong Kong, o
executivo morreu. Uma enfermeira e um médico do hospital de Hanói
também não resistiram à enfermidade.
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O Hotel Metropole, em Hong Kong: foi de lá que a doença se alastrou
para o resto do mundo |
Para
os especialistas, a SARS está diretamente relacionada a uma outra
epidemia de pneumonia que começou em novembro do ano passado na
província de Guangdong, vizinha a Hong Kong. Em três meses,
300 pessoas ficaram doentes e cinco morreram com sintomas muito semelhantes
aos da síndrome de agora. Por descaso das autoridades chinesas,
os dados dessa primeira epidemia não foram devidamente reportados.
Se as notificações tivessem sido feitas, a busca para decifrar
o agente infeccioso poderia estar bem mais avançada. Na semana
passada, pesquisadores alemães e chineses isolaram partículas
de um mesmo vírus em amostras de sangue de três pacientes.
Trata-se de exemplares da família Paramyxoviridae, causadores
de doenças como sarampo, caxumba, otite, distúrbios respiratórios
e encefalite. Pelo que se sabe, essa classe de vírus não
causa pneumonias graves. Mas um de seus exemplares pode ter sofrido uma
mutação. Ainda é cedo para estabelecer uma relação
direta de causa e efeito entre esse tipo de micróbio e a SARS.
"Pode ser apenas uma coincidência o fato de os três doentes
serem portadores do mesmo vírus", afirma o infectologista Sergio
Wey, do Hospital Albert Einstein, em São Paulo. Sem conhecer a
identidade do agente causador da doença, há pouco (ou quase
nada) que se possa fazer . "Como os antibióticos simplesmente não
funcionam, aos médicos cabe apenas manter os pacientes hidratados
e nutridos, para que o organismo deles não se deixe abater pela
doença", disse a VEJA o médico canadense Stephen Corber,
da Organização Mundial de Saúde.
Apesar da velocidade da contaminação, a SARS não
parece ser uma doença facilmente transmissível. Até
o momento, a grande maioria das infecções deu-se por contato
muito próximo com os doentes. O cenário seria mais preocupante
se o agente causador da SARS fosse parecido com o vírus da gripe,
que é transmitido pelo ar. Mesmo assim, em menos de um mês
ele apareceu em quatro continentes (veja mapa abaixo). No passado,
provavelmente ficaria restrito ao seu epicentro, o Sudeste Asiático.
Hoje, com as facilidades do transporte aéreo, um vírus ou
bactéria viaja de um canto a outro do planeta em questão
de dias. O vírus da gripe, por exemplo, leva apenas quatro dias
para dar a volta ao mundo. Antes, precisava de quatro meses. O primeiro
doente de SARS registrado no continente europeu é um médico,
de 32 anos, proveniente de Cingapura. Depois de tratar duas vítimas
da síndrome em sua terra natal, ele embarcou com a mulher grávida
e a sogra para um congresso de medicina em Nova York, nos Estados Unidos.
De volta para casa, na escala em Frankfurt, na Alemanha, ele teve de ser
hospitalizado. Foi esse médico que, provavelmente, também
transportou o vírus para território americano.
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