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A
cor do poder
Livro
lançado na Inglaterra mostra
que desde a Antiguidade as loiras
fascinam os homens e estão sempre
perto
dos poderosos e dos escândalos
Silvana Mautone
Algumas das melhores cabeças científicas do mundo conspiram
para que todas as mulheres possam ser loiras autênticas. A indústria
de cosmético gasta com pesquisas sobre colorantes e descolorantes
de cabelo mais do que os laboratórios farmacêuticos na busca
da cura de muitas doenças. Mas nem sempre foi assim. Um estudo
histórico feito pela inglesa Joanna Pitman e transformado no livro
On Blondes (Sobre as Loiras), que acaba de ser publicado na Inglaterra,
mostra que no decorrer dos séculos as mulheres se valeram de todos
os artifícios à disposição para clarear os
cabelos, alguns pouco nobres, como o esterco de pombo. Joanna Pitman capturou
uma tendência comum em diversos períodos históricos
de como as sociedades enxergam as loiras. "As loiras sempre foram vistas
como criaturas ao mesmo tempo inocentes, poderosas e produtos de uma intrigante
combinação de fantasia sexual e imagem angelical", diz Pitman.
Na Idade Média, na Europa, as mulheres loiras simbolizavam a tentação
em pessoa. No meio do século XIV, Eva aparecia de cabelos claros
na arte cristã. O mesmo ocorreu com Maria Madalena. No fim da Idade
Média, foi a vez de a Virgem Maria aparecer sem véu e de
cabelos claros. Nessa época, a conotação dos cachos
reluzentes nada tinha a ver com sexualidade e tentação,
mas, sim, com a pureza inquestionável do ouro.
Nada mais distante dos estereótipos modernos transformados em piadas
da "loira burra", só menos abundantes que as de advogado. Mais
de 500.000 sites na internet são dedicados a reproduzir piadas
sobre loiras contra apenas 1.300 sobre as morenas e somente 44
que fazem troça das ruivas. Uma clássica: "O que é
uma loira entre duas morenas? Bloqueio mental". As loiras são assim
mesmo, superlativas. Desde a deusa grega Afrodite, confirma a pesquisa
da inglesa Pitman, as loiras, falsas ou legítimas, estão
sempre perto do poder e é mais freqüente encontrá-las
metidas em eventos históricos, especialmente os violentos e escandalosos,
do que as morenas. A grande exceção a confirmar a regra
é Cleópatra, a rainha egípcia que conquistou o coração
do imperador Júlio César e, depois de sua morte, do poderoso
tribuno Marco Antônio. Pitman lembra que mesmo heroínas históricas
morenas vão se tornando loiras à medida que sua lenda se
perpetua na história. Cleópatra apareceu de cabelos claros
em diversos livros e pinturas. As mulheres em geral não querem
esperar muito tempo. Segundo uma pesquisa citada por Pitman, apenas uma
em vinte mulheres americanas é naturalmente loira. "Mas nas ruas
a contagem é diferente, pois uma em cada três americanas
adultas tem cabelos loiros", revela a autora, ela própria uma das
"falsas".
Como não escreveu um livro para atacar a reputação
das mulheres que preferem ter cabelos dourados, Pitman procura sempre
vê-las sob uma luz favorável. Não é difícil.
"Ser loira não é apenas ter essa cor de cabelo, é
um estado de espírito", diz Donatella Versace, a italiana herdeira
da marca famosa que talvez dispute com Madonna o posto de celebridade
mais loira da atualidade. O impacto de On Blondes foi tanto que
a National Portrait Gallery e a Getty Images Gallery, ambas em Londres,
lançaram exposições sobre o poder de beldades como
Marilyn Monroe, Grace Kelly, Twiggy, Diana e Madonna. "Não consigo
mais viver sem ser loira", disse a falsa loira Joanna a VEJA. Marilyn,
a deslumbrante loira falsa de Hollywood, foi a primeira a ganhar o título
de deusa incontestável em escala mundial. Também foi a que
inaugurou a classificação de loira avoada. Nos anos 50,
a indústria cinematográfica americana buscava uma diva que
afagasse a insatisfação dos soldados americanos que voltavam
para casa depois de combater na II Guerra Mundial e encontravam um país
com mulheres mais confiantes e independentes. Com o retorno dos chefes
de família, muitas mulheres não aceitavam a tarefa de apenas
pilotar o fogão. Os chefões de Hollywood tiveram uma idéia
brilhante, que se tornou também uma mina de dinheiro: as mulheres
bem-sucedidas e autoconfiantes tornaram-se raras nas telas de cinema e
a figura da estonteante e loiríssima Marilyn, que além de
sexy era submissa, ganhou espaço.
O loiro não foi associado apenas à sedução
e à pureza, mas também ao poder. Como nota Pitman, a inglesa
Margaret Thatcher, que tem os cabelos originalmente castanhos, passou
a clareá-los ao assumir o cargo de primeira-ministra. A senadora
americana Hillary Clinton deixou para trás os cabelos castanhos
durante a disputa eleitoral que levou seu marido, Bill Clinton, pela primeira
vez à Casa Branca. O tingimento causou bom impacto, foi elogiado
mas não a livrou das traições do marido com
a morena Monica Lewinsky. Madonna, a musa pop do século XX, teve
melhor sorte. De acordo com Joanna Pitman, ela estourou no mundo dos espetáculos
quando decidiu deixar para trás a naturalidade de seus cabelos
escuros. O álbum True Blue, de 1986, vendeu 20 milhões
de cópias, quatro vezes mais que o disco anterior. Por mais que
a camaleoa Madonna viva se reinventando, inclusive alternando radicalmente
o visual de seus cabelos, Joanna Pitman lembra que ela sempre volta a
ser loira. Em uma entrevista à revista Rolling Stone, a
cantora abriu o jogo: "Ser loira é definitivamente um jeito de
ser".
As pesquisas afirmam que as loiras e os loiros de verdade estão
se tornando um grupo cada vez menor no estoque de tipos da humanidade.
Os cabelos claros são resultado de genes recessivos. Com a globalização
e as grandes levas migratórias, a quantidade de casamentos inter-raciais
não pára de crescer. Por isso, o número de loiras
de verdade tende a diminuir dramaticamente nas próximas gerações.
Como se viu no livro da inglesa Pitman, a genética não vai
ser obstáculo para que nas ruas o número de mulheres loiras
aumente cada vez mais.
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MARILYN
MONROE
A
loiríssima diva de Hollywood era tudo o que os soldados americanos
sonhavam depois da II Guerra Mundial
GRACE
KELLY
A
atriz realizou sonho de se casar com o príncipe Rainier,
de Mônaco, em 1956
TWIGGY
A
modelo inglesa se tornou o símbolo de sua geração
nos anos 60
LADY
DI
A
princesa gastava mais
de 20 000
reais por ano
para tingir
os cabelos
MADONNA
Para
a
cantora americana,
ser loira é um jeito
de ser
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