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Blá,
blá, blá
no reino de Lula lá
Com
muito gogó e ações
desencontradas, governo
se enrola em reuniões
intermináveis e consultas
às bases e não decide nada
Alexandre Oltramari

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Na
semana passada, o governo anunciou várias providências. Diante
da necessidade de elaborar um plano estratégico de desenvolvimento
para os próximos quatro anos, o chamado PPA, o governo esclareceu:
fará reuniões ou, usando a expressão do secretário-geral
do Palácio do Planalto, Luiz Dulci, uma "ampla consulta à
sociedade". Diante dos arreganhos do MST, que deseja mudar uma medida
provisória que fulminou as invasões de terra, o governo
explicitou: fará reuniões ou, como disse Miguel Rossetto,
ministro do Desenvolvimento Agrário, um "amplo debate com a sociedade".
Atolado na interminável polêmica em torno da reforma da Previdência
Social, o governo está meditando sobre uma alternativa: fazer reuniões,
ou, segundo o ministro da área, Ricardo Berzoini, um "plebiscito
nacional". Com a eterna crise no programa Fome Zero, o governo decretou:
fará reuniões ou, recorrendo ao vocabulário governista,
um "mutirão social". Seja o que for, o governo tem uma saída:
uma reunião, um encontro, um fórum enfim, sempre
um amplo debate. Por que não?
Porque a fórmula costuma funcionar em movimentos sociais, sindicatos,
entidades estudantis, associações de bairro ou partidos
políticos, mas não se tem notícia de que seja um
instrumento eficaz para governar. Tem-se notícia, ao contrário,
de que esse é o instrumento por excelência do Congresso Nacional,
que também pode ser chamado de Parlamento nome que vem de
parlar, falar, debater. A parlapatice em torno do PPA é um exemplo
lapidar. O PPA, sigla de Plano Plurianual, é uma obrigação
governamental. Em tempos sem parlengas, o governo elabora o PPA, o Congresso
parola a respeito da proposta e o governo a executa. Agora, não.
Primeiro, o governo tagarela sobre seu plano, com ministros e assessores.
As idéias podem ser submetidas ao Conselho de Desenvolvimento Econômico
e Social, um parlante fórum de 82 membros fixos. Na semana passada,
na mais paroleira reunião ministerial da história do Brasil,
que durou cerca de oito horas, debateu-se o PPA. Ao final, anunciou-se
que a proposta passará por uma "ampla consulta à sociedade".
Mas há divergências...
Na entrevista coletiva que se seguiu à reunião, duas autoridades
defenderam idéias distintas sobre o assunto. Luiz Dulci, secretário-geral
do Planalto, disse que a consulta à sociedade terá "participação
efetiva" da população, ainda que tenha lembrado o óbvio
que a decisão final cabe ao Congresso. O ministro do Planejamento,
Guido Mantega, fez um reparo, esclarecendo que o governo apenas pretende
"ouvir" a sociedade. Em seguida, Dulci retomou a palavra para voltar a
frisar seu ponto de vista. "Não é coleta de informações.
Isso o governo já tem. A população vai opinar concretamente",
esclareceu. Ou seja: o governo quer criar um terceiro círculo em
torno da mesma coisa. Já existe o Congresso, que é formado
por representantes eleitos pela sociedade. Já existe o Conselho
de Desenvolvimento, integrado por representantes da sociedade. E, agora,
haverá a ampla consulta à sociedade. Com tantos vôos
sobre a mesma planície, o senador Heráclito Fortes, do PFL
do Piauí, resolveu divertir-se: "Estamos num vácuo perigoso.
Nós não sabemos ser oposição e o PT não
sabe governar".
Para piorar, o Conselho de Desenvolvimento anda com o ibope baixo. "Aquilo
lá está um inferno", exaspera-se o presidente da Força
Sindical, Paulo Pereira da Silva, um dos 82 membros. "Cada um dá
palpite diferente, e o governo anota tudo. Mas não sei o que eles
fazem com a papelada. É muita conversa para pouco resultado", completa
ele, que deixou de comparecer às reuniões. Em vez disso,
manda um técnico para representá-lo atitude, aliás,
tomada também por João Felício, presidente da CUT,
a central sindical ligada ao PT. Dos 82 membros do conselho, apenas dez
ainda comparecem às reuniões. Os demais mandam representantes.
Nos últimos dias, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva
vem dando sinais de que está incomodado com a falta de afinação
do governo e, particularmente, com o excesso de blá-blá-blá.
Na reunião ministerial da semana passada, aquela que durou oito
horas, Lula cobrou pressa nas reformas estruturais, exigiu um plano ousado
para a área social, pediu o fim dos desacertos públicos
entre ministros e mandou um recado claro: "Muitas vezes temos a boca maior
que os ouvidos, e isso não é nada bom".
O presidente dá sinais de andar chateado com o fato de que seu
governo tem sido elogiado pela serenidade na condução da
política econômica (igualzinha à do antecessor, diga-se)
e criticado pelas derrapadas na área social, um terreno em que
o PT sempre se considerou imbatível. O problema é que o
próprio presidente acaba por incentivar o gogó com suas
freqüentes conclamações à criação
de fóruns e à audição das bases. Por sua experiência,
com a militância no movimento sindical e a convivência interna
no PT, o presidente está habituado às longas reuniões,
ao típico assembleísmo de seu partido, e tende a achar que
a melhor solução dos problemas é uma boa reunião,
um bom encontro, um bom congresso. Até em questões internacionais,
esse cacoete apareceu. No auge das discussões sobre a crise do
Iraque, Lula chegou a sugerir a criação de um fórum
internacional para debater o assunto como se a ONU, o maior fórum
internacional do planeta, não estivesse fazendo exatamente isso
desde o início da tensão no Golfo Pérsico.
Nos bastidores, o estilo de Lula governar tem provocado algumas queixas
veladas de assessores. Eles reclamam que o presidente os solicita demais.
Ao receber sindicalistas, por exemplo, faz questão de estar acompanhado
pelo ministro do Trabalho, Jaques Wagner. Quando se reúne com empresários,
quer que o ministro da Fazenda, Antônio Palocci, esteja a seu lado.
Se o interlocutor do presidente é algum parlamentar de relevo,
Lula tende a convocar José Dirceu, chefe da Casa Civil. Com isso,
o presidente entende que agiliza a resolução dos problemas
ao mesmo tempo que sinaliza aos interlocutores que está
dando importância ao assunto. A estratégia, no entanto, tem
efeitos colaterais negativos. Os ministros correm o risco de passar mais
tempo no Planalto do que em seus gabinetes. Suas agendas são diariamente
derrubadas pelas convocações presidenciais. Quando não
é o presidente, o ministro José Dirceu é quem aparece
convocando os ministros sem aviso prévio. "Vamos, vamos, que o
Zé está chamando", exasperava-se um ministro com
um assessor, dias atrás, enquanto reunia a papelada sobre a mesa
para uma reunião convocada às pressas pelo chefe da Casa
Civil. O risco é de, no futuro, alguém dizer que o tempo
passou na janela e só o governo Lula não viu.
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