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Edição 1 795 - 26 de março de 2003
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Blá, blá, blá
no reino de Lula lá

Com muito gogó e ações
desencontradas, governo
se enrola em reuniões
intermináveis e consultas
às bases – e não decide nada

Alexandre Oltramari

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A guerra aqui é de outro tipo

Na semana passada, o governo anunciou várias providências. Diante da necessidade de elaborar um plano estratégico de desenvolvimento para os próximos quatro anos, o chamado PPA, o governo esclareceu: fará reuniões ou, usando a expressão do secretário-geral do Palácio do Planalto, Luiz Dulci, uma "ampla consulta à sociedade". Diante dos arreganhos do MST, que deseja mudar uma medida provisória que fulminou as invasões de terra, o governo explicitou: fará reuniões ou, como disse Miguel Rossetto, ministro do Desenvolvimento Agrário, um "amplo debate com a sociedade". Atolado na interminável polêmica em torno da reforma da Previdência Social, o governo está meditando sobre uma alternativa: fazer reuniões, ou, segundo o ministro da área, Ricardo Berzoini, um "plebiscito nacional". Com a eterna crise no programa Fome Zero, o governo decretou: fará reuniões ou, recorrendo ao vocabulário governista, um "mutirão social". Seja o que for, o governo tem uma saída: uma reunião, um encontro, um fórum – enfim, sempre um amplo debate. Por que não?

Porque a fórmula costuma funcionar em movimentos sociais, sindicatos, entidades estudantis, associações de bairro ou partidos políticos, mas não se tem notícia de que seja um instrumento eficaz para governar. Tem-se notícia, ao contrário, de que esse é o instrumento por excelência do Congresso Nacional, que também pode ser chamado de Parlamento – nome que vem de parlar, falar, debater. A parlapatice em torno do PPA é um exemplo lapidar. O PPA, sigla de Plano Plurianual, é uma obrigação governamental. Em tempos sem parlengas, o governo elabora o PPA, o Congresso parola a respeito da proposta e o governo a executa. Agora, não. Primeiro, o governo tagarela sobre seu plano, com ministros e assessores. As idéias podem ser submetidas ao Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, um parlante fórum de 82 membros fixos. Na semana passada, na mais paroleira reunião ministerial da história do Brasil, que durou cerca de oito horas, debateu-se o PPA. Ao final, anunciou-se que a proposta passará por uma "ampla consulta à sociedade". Mas há divergências...

Na entrevista coletiva que se seguiu à reunião, duas autoridades defenderam idéias distintas sobre o assunto. Luiz Dulci, secretário-geral do Planalto, disse que a consulta à sociedade terá "participação efetiva" da população, ainda que tenha lembrado o óbvio – que a decisão final cabe ao Congresso. O ministro do Planejamento, Guido Mantega, fez um reparo, esclarecendo que o governo apenas pretende "ouvir" a sociedade. Em seguida, Dulci retomou a palavra para voltar a frisar seu ponto de vista. "Não é coleta de informações. Isso o governo já tem. A população vai opinar concretamente", esclareceu. Ou seja: o governo quer criar um terceiro círculo em torno da mesma coisa. Já existe o Congresso, que é formado por representantes eleitos pela sociedade. Já existe o Conselho de Desenvolvimento, integrado por representantes da sociedade. E, agora, haverá a ampla consulta à sociedade. Com tantos vôos sobre a mesma planície, o senador Heráclito Fortes, do PFL do Piauí, resolveu divertir-se: "Estamos num vácuo perigoso. Nós não sabemos ser oposição e o PT não sabe governar".

Para piorar, o Conselho de Desenvolvimento anda com o ibope baixo. "Aquilo lá está um inferno", exaspera-se o presidente da Força Sindical, Paulo Pereira da Silva, um dos 82 membros. "Cada um dá palpite diferente, e o governo anota tudo. Mas não sei o que eles fazem com a papelada. É muita conversa para pouco resultado", completa ele, que deixou de comparecer às reuniões. Em vez disso, manda um técnico para representá-lo – atitude, aliás, tomada também por João Felício, presidente da CUT, a central sindical ligada ao PT. Dos 82 membros do conselho, apenas dez ainda comparecem às reuniões. Os demais mandam representantes. Nos últimos dias, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vem dando sinais de que está incomodado com a falta de afinação do governo e, particularmente, com o excesso de blá-blá-blá. Na reunião ministerial da semana passada, aquela que durou oito horas, Lula cobrou pressa nas reformas estruturais, exigiu um plano ousado para a área social, pediu o fim dos desacertos públicos entre ministros e mandou um recado claro: "Muitas vezes temos a boca maior que os ouvidos, e isso não é nada bom".

O presidente dá sinais de andar chateado com o fato de que seu governo tem sido elogiado pela serenidade na condução da política econômica (igualzinha à do antecessor, diga-se) e criticado pelas derrapadas na área social, um terreno em que o PT sempre se considerou imbatível. O problema é que o próprio presidente acaba por incentivar o gogó com suas freqüentes conclamações à criação de fóruns e à audição das bases. Por sua experiência, com a militância no movimento sindical e a convivência interna no PT, o presidente está habituado às longas reuniões, ao típico assembleísmo de seu partido, e tende a achar que a melhor solução dos problemas é uma boa reunião, um bom encontro, um bom congresso. Até em questões internacionais, esse cacoete apareceu. No auge das discussões sobre a crise do Iraque, Lula chegou a sugerir a criação de um fórum internacional para debater o assunto – como se a ONU, o maior fórum internacional do planeta, não estivesse fazendo exatamente isso desde o início da tensão no Golfo Pérsico.

Nos bastidores, o estilo de Lula governar tem provocado algumas queixas veladas de assessores. Eles reclamam que o presidente os solicita demais. Ao receber sindicalistas, por exemplo, faz questão de estar acompanhado pelo ministro do Trabalho, Jaques Wagner. Quando se reúne com empresários, quer que o ministro da Fazenda, Antônio Palocci, esteja a seu lado. Se o interlocutor do presidente é algum parlamentar de relevo, Lula tende a convocar José Dirceu, chefe da Casa Civil. Com isso, o presidente entende que agiliza a resolução dos problemas – ao mesmo tempo que sinaliza aos interlocutores que está dando importância ao assunto. A estratégia, no entanto, tem efeitos colaterais negativos. Os ministros correm o risco de passar mais tempo no Planalto do que em seus gabinetes. Suas agendas são diariamente derrubadas pelas convocações presidenciais. Quando não é o presidente, o ministro José Dirceu é quem aparece convocando os ministros sem aviso prévio. "Vamos, vamos, que o está chamando", exasperava-se um ministro com um assessor, dias atrás, enquanto reunia a papelada sobre a mesa para uma reunião convocada às pressas pelo chefe da Casa Civil. O risco é de, no futuro, alguém dizer que o tempo passou na janela e só o governo Lula não viu.

 
 
   
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