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A
América precisa da ONU

Mario
Sabino
Reuters
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O
Conselho de Segurança
É o coração das Nações Unidas,
com cinco membros permanentes: China, Estados Unidos, Rússia,
França e Inglaterra. Todos têm poder de veto
Seus dez membros rotatórios são eleitos para um mandato
de dois anos
A presidência do Conselho muda mensalmente, de acordo com a
ordem alfabética, em inglês, dos países-membros.
Atualmente, ele é presidido pela Guiné
Para aprovar uma resolução grave, como a que leva a
uma guerra, são necessários nove votos e a concordância
de todos os integrantes permanentes
Por decisão do Conselho, a ONU realizou, entre 1946 e 2000,
53 intervenções no mundo
Hoje, estão em curso treze operações
Seu estatuto original previa a criação de um exército
supranacional. Essa idéia nunca foi posta em prática
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Veja também |
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Os
Estados Unidos foram à guerra contra o Iraque de Saddam Hussein
sem a aprovação do Conselho de Segurança da Organização
das Nações Unidas. É comum ler no noticiário
que a decisão americana representou um golpe sem precedentes na
ONU. Isso porque o Conselho de Segurança está para a instituição
assim como o coração para o corpo humano. Ele é a
instância responsável pela função primordial
das Nações Unidas, a manutenção da paz e da
segurança internacionais. Entre
os foros da ONU, o Conselho de Segurança é o único
cujas resoluções são obrigatórias, de acordo
com a carta fundadora das Nações Unidas. Não há
dúvida de que é grave o fato de a maior potência mundial,
os Estados Unidos, ter voltado as costas para ele. Mas não é
verdade que o pecado americano seja original. Desde que o Conselho foi
criado, em 1946, um ano após a fundação da ONU, seus
membros permanentes, China, Rússia, França, Inglaterra,
além dos próprios Estados Unidos, utilizaram em várias
oportunidades o poder de veto para anular resoluções. Foram
240 vetos entre 1946 e 1990, a maior parte deles (118) da Rússia,
na sua versão União Soviética. Os russos não
admitiram a intervenção do Conselho de Segurança,
por exemplo, quando ocuparam a então Checoslováquia, em
1968, para impedir que o país saísse de sua órbita.
Em 1979, eles também vetaram a resolução que os condenava
por invadir o Afeganistão. Em outras ocasiões, simplesmente
se fez de conta que o Conselho de Segurança não existia.
A França, hoje tão pacifista, nem sequer o consultou quando
resolveu usar de força militar na Argélia, nos anos 50,
o que resultou na mais sangrenta das guerras entre uma metrópole
e uma colônia, no século XX.
AFP
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CHECOSLOVÁQUIA
E ARGÉLIA
Os russos passaram por cima da ONU em 1968, quando invadiram a então
Checoslováquia (foto). Já os franceses nem se
deram ao trabalho de consultar as Nações Unidas, antes
de usar a força na Argélia, nos anos 50 |
A política externa de George W. Bush é um desastre sem tamanho.
Quando contrariados, os falcões instalados na Casa Branca mostram-se
arrogantes e mal-educados até mesmo com aliados fortes, como a
Alemanha. Mas nem eles ousaram ignorar o Conselho de Segurança.
Na crise com o Iraque, tentaram até o último momento amarrar
uma resolução que lhes fosse favorável. E, antes
de partir para a guerra sem o seu consentimento, preocuparam-se em afirmar
que estavam defendendo a entidade da desmoralização, porque
Saddam Hussein, durante doze anos, havia feito de bobos os inspetores
da ONU responsáveis por verificar se o Iraque eliminara as suas
armas de destruição em massa, conforme determinação
do próprio Conselho de Segurança. É um argumento
polêmico, para alguns até cínico, mas o que importa
aqui não é o conteúdo, e sim a forma. A verdade é
que, com o fim da Guerra Fria, a ONU e todo o seu aparato ganharam ainda
mais importância para os Estados Unidos, e não o contrário.
Nos anos 50 e 60, havia nos meios conservadores americanos quem defendesse
a extinção pura e simples das Nações Unidas.
Na década seguinte, o senador Jesse Helms, hoje em fim de carreira,
adquiriu fama no Comitê de Relações Exteriores do
Senado fazendo das críticas à ONU a sua profissão
de fé. De lá para cá, nunca mais apareceu um político
anti-ONU como ele.
As Nações
Unidas são um organismo fundamental para os americanos, porque
eles aprenderam que a melhor forma de exercer sua hegemonia no mundo é
por meio do consenso ou pelo menos algo próximo disso. Não
foi por outro motivo que, ao fim da II Guerra, Franklin Delano Roosevelt
e Harry Truman idealizaram a ONU e outras organizações multilaterais.
Os Estados Unidos não são um império colonialista
como tantos que surgiram e desapareceram ao longo da história.
Impõem-se, principalmente, por força de sua extraordinária
economia, pelo apelo universal de sua cultura e por cultivar a imagem
de terra da liberdade e da oportunidade. Nos ambientes mais esclarecidos
dos Estados Unidos, o temor é que a truculência do governo
de George W. Bush enfraqueça a arquitetura montada em torno da
idéia de que o real poder político americano está
na capacidade de moldar convergências em relação a
certos valores, e não em seu incrível arsenal militar.
É
curioso observar que, à parte o antiamericanismo esquerdista, a
fúria islâmica e o pacifismo maluquete, para o qual não
existem guerras justas, um dos motores das manifestações
contra a intervenção dos Estados Unidos no Iraque talvez
seja justamente uma indignação até certo ponto inconsciente
com o esfacelamento da imagem moral americana perpetrado pelo governo
de George W. Bush. Essa imagem foi reforçada quando Bush pai montou
a maior aliança militar da história, para expulsar o Exército
de Saddam Hussein do Kuwait, em 1991, com o aval das Nações
Unidas. Foi preservada quando o presidente Bill Clinton interveio em Kosovo,
sem a permissão do Conselho de Segurança da ONU. Na ocasião,
ninguém foi às ruas para gritar contra os Estados Unidos.
Afinal de contas, a superpotência estava cumprindo o seu papel de
transformar em ação efetiva o que já era opinião
unânime a necessidade de pôr fim a selvagerias. No
caso do Iraque, por mais bárbaro que tenha sido o regime de Saddam
Hussein, não parece haver razão suficiente para a guerra,
a não ser a prepotência do atual ocupante da Casa Branca.
Os protestos contra os Estados Unidos trariam assim embutida a decepção
com o fato de que os americanos estão sendo bem pouco... americanos.
Os russos
são tão mais russos quando calcinam chechenos. Os chineses
são tão mais chineses quando asfixiam o Tibete. Poucos são
os que protestam nas ruas contra essas tragédias, porque nesses
casos nada há de ilógico do ponto de vista histórico.
Rússia e China construíram-se a partir de uma visão
totalitária, e portanto seguem o seu destino. Já os Estados
Unidos, não. Eles forjaram-se em cima de uma esperança
ou, vá lá, de uma miragem de esperança não
só para os americanos, mas para o mundo. Do discurso de posse do
presidente John Kennedy, em 1961, ficou famosa a parte em que ele diz:
"Americanos, meus concidadãos: não perguntem o que o seu
país pode fazer por vocês. Perguntem o que vocês podem
fazer pelo seu país". Mas a frase que veio a seguir também
é admirável e reveladora: "Cidadãos do mundo, meus
amigos: não perguntem o que a América fará por vocês,
mas o que juntos poderemos fazer pela liberdade do homem". Seria bom que
Bush e seu pessoal tivessem o discurso de Kennedy como leitura de cabeceira.
Nas atuais circunstâncias, ele é mais útil do que
a Bíblia.
Com
reportagem de
João Gabriel de Lima
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