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Edição 1 795 - 26 de março de 2003
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A América precisa da ONU

Mario Sabino


Reuters
O Conselho de Segurança
É o coração das Nações Unidas, com cinco membros permanentes: China, Estados Unidos, Rússia, França e Inglaterra. Todos têm poder de veto
Seus dez membros rotatórios são eleitos para um mandato de dois anos
A presidência do Conselho muda mensalmente, de acordo com a ordem alfabética, em inglês, dos países-membros. Atualmente, ele é presidido pela Guiné
Para aprovar uma resolução grave, como a que leva a uma guerra, são necessários nove votos e a concordância de todos os integrantes permanentes
Por decisão do Conselho, a ONU realizou, entre 1946 e 2000, 53 intervenções no mundo
Hoje, estão em curso treze operações
Seu estatuto original previa a criação de um exército supranacional. Essa idéia nunca foi posta em prática

Veja também
Nesta edição
A guerra ao alcance de todos
A máquina de guerra
A formação de um tirano
Os novos imperialistas
Herança em perigo
Na internet
Cobertura on-line da guerra

Os Estados Unidos foram à guerra contra o Iraque de Saddam Hussein sem a aprovação do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas. É comum ler no noticiário que a decisão americana representou um golpe sem precedentes na ONU. Isso porque o Conselho de Segurança está para a instituição assim como o coração para o corpo humano. Ele é a instância responsável pela função primordial das Nações Unidas, a manutenção da paz e da segurança internacionais. Entre os foros da ONU, o Conselho de Segurança é o único cujas resoluções são obrigatórias, de acordo com a carta fundadora das Nações Unidas. Não há dúvida de que é grave o fato de a maior potência mundial, os Estados Unidos, ter voltado as costas para ele. Mas não é verdade que o pecado americano seja original. Desde que o Conselho foi criado, em 1946, um ano após a fundação da ONU, seus membros permanentes, China, Rússia, França, Inglaterra, além dos próprios Estados Unidos, utilizaram em várias oportunidades o poder de veto para anular resoluções. Foram 240 vetos entre 1946 e 1990, a maior parte deles (118) da Rússia, na sua versão União Soviética. Os russos não admitiram a intervenção do Conselho de Segurança, por exemplo, quando ocuparam a então Checoslováquia, em 1968, para impedir que o país saísse de sua órbita. Em 1979, eles também vetaram a resolução que os condenava por invadir o Afeganistão. Em outras ocasiões, simplesmente se fez de conta que o Conselho de Segurança não existia. A França, hoje tão pacifista, nem sequer o consultou quando resolveu usar de força militar na Argélia, nos anos 50, o que resultou na mais sangrenta das guerras entre uma metrópole e uma colônia, no século XX.

AFP
CHECOSLOVÁQUIA E ARGÉLIA
Os russos passaram por cima da ONU em 1968, quando invadiram a então Checoslováquia (foto). Já os franceses nem se deram ao trabalho de consultar as Nações Unidas, antes de usar a força na Argélia, nos anos 50


A política externa de George W. Bush é um desastre sem tamanho. Quando contrariados, os falcões instalados na Casa Branca mostram-se arrogantes e mal-educados até mesmo com aliados fortes, como a Alemanha. Mas nem eles ousaram ignorar o Conselho de Segurança. Na crise com o Iraque, tentaram até o último momento amarrar uma resolução que lhes fosse favorável. E, antes de partir para a guerra sem o seu consentimento, preocuparam-se em afirmar que estavam defendendo a entidade da desmoralização, porque Saddam Hussein, durante doze anos, havia feito de bobos os inspetores da ONU responsáveis por verificar se o Iraque eliminara as suas armas de destruição em massa, conforme determinação do próprio Conselho de Segurança. É um argumento polêmico, para alguns até cínico, mas o que importa aqui não é o conteúdo, e sim a forma. A verdade é que, com o fim da Guerra Fria, a ONU e todo o seu aparato ganharam ainda mais importância para os Estados Unidos, e não o contrário. Nos anos 50 e 60, havia nos meios conservadores americanos quem defendesse a extinção pura e simples das Nações Unidas. Na década seguinte, o senador Jesse Helms, hoje em fim de carreira, adquiriu fama no Comitê de Relações Exteriores do Senado fazendo das críticas à ONU a sua profissão de fé. De lá para cá, nunca mais apareceu um político anti-ONU como ele.

As Nações Unidas são um organismo fundamental para os americanos, porque eles aprenderam que a melhor forma de exercer sua hegemonia no mundo é por meio do consenso – ou pelo menos algo próximo disso. Não foi por outro motivo que, ao fim da II Guerra, Franklin Delano Roosevelt e Harry Truman idealizaram a ONU e outras organizações multilaterais. Os Estados Unidos não são um império colonialista como tantos que surgiram e desapareceram ao longo da história. Impõem-se, principalmente, por força de sua extraordinária economia, pelo apelo universal de sua cultura e por cultivar a imagem de terra da liberdade e da oportunidade. Nos ambientes mais esclarecidos dos Estados Unidos, o temor é que a truculência do governo de George W. Bush enfraqueça a arquitetura montada em torno da idéia de que o real poder político americano está na capacidade de moldar convergências em relação a certos valores, e não em seu incrível arsenal militar.

É curioso observar que, à parte o antiamericanismo esquerdista, a fúria islâmica e o pacifismo maluquete, para o qual não existem guerras justas, um dos motores das manifestações contra a intervenção dos Estados Unidos no Iraque talvez seja justamente uma indignação até certo ponto inconsciente com o esfacelamento da imagem moral americana perpetrado pelo governo de George W. Bush. Essa imagem foi reforçada quando Bush pai montou a maior aliança militar da história, para expulsar o Exército de Saddam Hussein do Kuwait, em 1991, com o aval das Nações Unidas. Foi preservada quando o presidente Bill Clinton interveio em Kosovo, sem a permissão do Conselho de Segurança da ONU. Na ocasião, ninguém foi às ruas para gritar contra os Estados Unidos. Afinal de contas, a superpotência estava cumprindo o seu papel de transformar em ação efetiva o que já era opinião unânime – a necessidade de pôr fim a selvagerias. No caso do Iraque, por mais bárbaro que tenha sido o regime de Saddam Hussein, não parece haver razão suficiente para a guerra, a não ser a prepotência do atual ocupante da Casa Branca. Os protestos contra os Estados Unidos trariam assim embutida a decepção com o fato de que os americanos estão sendo bem pouco... americanos.

Os russos são tão mais russos quando calcinam chechenos. Os chineses são tão mais chineses quando asfixiam o Tibete. Poucos são os que protestam nas ruas contra essas tragédias, porque nesses casos nada há de ilógico do ponto de vista histórico. Rússia e China construíram-se a partir de uma visão totalitária, e portanto seguem o seu destino. Já os Estados Unidos, não. Eles forjaram-se em cima de uma esperança – ou, vá lá, de uma miragem de esperança – não só para os americanos, mas para o mundo. Do discurso de posse do presidente John Kennedy, em 1961, ficou famosa a parte em que ele diz: "Americanos, meus concidadãos: não perguntem o que o seu país pode fazer por vocês. Perguntem o que vocês podem fazer pelo seu país". Mas a frase que veio a seguir também é admirável e reveladora: "Cidadãos do mundo, meus amigos: não perguntem o que a América fará por vocês, mas o que juntos poderemos fazer pela liberdade do homem". Seria bom que Bush e seu pessoal tivessem o discurso de Kennedy como leitura de cabeceira. Nas atuais circunstâncias, ele é mais útil do que a Bíblia.

 

Com reportagem de João Gabriel de Lima

 
 
   
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