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Os
novos imperialistas

Vilma
Gryzinski
Reuters
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NOVÍSSIMA
ORDEM
Bush no telão em Nova York: guerra preventiva contra Saddam
é a primeira de uma lista |

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A
guerra contra o Iraque de Saddam Hussein é a primeira da novíssima
ordem mundial. Outras virão, se esta sair a contento, seguindo
basicamente o mesmo modelo. Duas doutrinas recentemente criadas amparam
a nova política de segurança nacional americana: a da guerra
preventiva e a da supremacia incontestada dos Estados Unidos. Seus proponentes
fincaram-se no centro do poder americano e conquistaram a aquiescência
do presidente George W. Bush. São chamados de neoconservadores,
para se diferenciar, pelo ímpeto intervencionista e pelo propósito
declarado de reformar o mundo, dos conservadores tradicionais. Também
atendem por "imperialistas democráticos" e "unipolaristas", denominações
auto-explicativas. São os novos ideólogos do império
americano.
Muitos comentaristas
que procuram analisar como Bush chegou à situação
atual gostam de lembrar que o presidente que assumiu o poder em 2001 é
diferente do que está levando os Estados Unidos a uma guerra numa
posição de isolamento internacional sem precedentes e sob
uma alegação inédita a de que é melhor
estraçalhar um inimigo antes que ele pense em atacar. O Bush original
era mais parecido com os republicanos de feitio tradicional e pendor isolacionista,
pouco predispostos a usar o poderio militar americano em rincões
encrencados do mundo se não houvesse razões vitais para
isso. A guinada hoje observada é atribuída ao duplo efeito
do choque telúrico propiciado pelo 11 de setembro e de uma campanha
de catequização promovida sobretudo por Dick Cheney, considerado
o mais influente vice-presidente de todos os tempos. Oriundo ele próprio
da turma dos "falcões" da direita convencional, Cheney, ao lado
de seu companheiro de linha duríssima, Donald Rumsfeld, o abrasivo
secretário de Defesa, encampou as teses dos neoconservadores, reforçando-as
com sua excepcional capacidade de transformar idéias em políticas
efetivas. Um dos pilares desse pensamento é que, a longo prazo,
os Estados Unidos só podem ter segurança num mundo em que
os valores americanos estejam amplamente disseminados. Essa propagação
da democracia, através de intervenções militares
se necessário, foi chamada pelo colunista Joe Klein, ironicamente,
de "jihad democrática".
Fotos AP
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JIHAD
DEMOCRÁTICA
Cheney e Rumsfeld (acima), os "falcões" convertidos,
e Wolfowitz (ao lado), o líder intelectual dos neoconservadores
no governo Bush: teoria da disseminação da democracia,
à força se for preciso, como forma de garantir a segurança
dos Estados Unidos |
No governo,
os luminares mais conhecidos dessa corrente orbitam no Pentágono.
São nomes como Paul Wolfowitz e Douglas Feith, subsecretários
de Rumsfeld, e Richard Perle, que tem um posto consultivo. "Wolfowitz
é o líder intelectual de uma corrente que incorpora objetivos
revolucionários à idéia de transformar o mundo à
imagem da América", segundo a definição do professor
Charles Kupchan, especialista em relações internacionais.
Wolfowitz e companheiros são também crias intelectuais da
primeira geração de neoconservadores, representada por Norman
Podhoretz, criador da revista Commentary, e Irving Kristol, da
The Public Interest. Pensadores e polemistas brilhantes, esses
patriarcas do novo imperialismo foram trotskistas na juventude. Como os
leopardos, que trocam a pele mas não perdem as pintas, eles levaram
para a direita várias características do modo de pensar
de sua renegada vertente de extrema esquerda: o ímpeto transformacionista,
a visão interconectada e globalizada das questões internacionais,
a paixão pelo debate intelectual. A vitória de suas teses
no governo Bush, notório pela mentalidade de caubói, representa
uma espécie de encontro virtual entre Trotsky, com sinal invertido,
e John Wayne. Um exemplo desse cruzamento de revolução permanente
com estilo texano é a teoria da transformação do
Oriente Médio a partir da implantação de um Iraque
democrático, defendida pelos neoconservadores e endossada pelo
presidente Bush no discurso em que delineou o que seria o futuro pós-guerra
da região.
O delfim
do movimento neoconservador é William Kristol, que, como o pai,
também edita uma revista de idéias, a The Weekly Standard.
Com tiragem de apenas 50.000 exemplares, é
considerada hoje a mais influente publicação americana ("Dick
Cheney manda alguém buscar uns trinta exemplares toda segunda-feira",
brinca o editor). A Weekly Standard é publicada pela News
Corporation, do supermagnata da mídia Rupert Murdoch. As propostas
intelectualizadas do neoconservadorismo têm uma vertente popular,
às vezes xenófoba, em outros veículos pertencentes
a Murdoch, como o canal de notícias Fox News e os tablóides
New York Post e The Sun. Durante os debates na ONU que antecederam
a guerra ao Iraque, os dois jornais fizeram uma campanha vitriólica
contra a França e o presidente Jacques Chirac, o maior opositor
da opção militar. No tablóide The Sun, inglês,
Chirac foi retratado como um verme e comparado a uma "prostituta parisiense".
Os ideólogos
da novíssima ordem mundial não se metem em baixarias do
gênero. Operam no campo das idéias, com enorme sucesso. Suas
teses começaram a ganhar os contornos atuais quando o presidente
ainda era George Bush pai, e a nova ordem mundial por ele anunciada, depois
da implosão da União Soviética e da primeira guerra
contra o Iraque, parecia um modelo de cooperação internacional
se comparada à arrogância agressiva hoje incorporada por
seu filho. "Em 1991, um grupo de anticomunistas de linha dura começou
a pregar que os Estados Unidos deveriam usar seu poder militar e econômico
para redefinir o mundo e acabar com os inimigos remanescentes da América",
escreveu o professor Gary Dorrien, um especialista em história
do liberalismo americano que estuda os novos imperialistas. Dorrien identifica
num artigo de um dos expoentes do neoconservadorismo, Charles Krauthammer,
as bases da proposta de reorientar a política externa da potência
americana de forma a implantar "um único pólo de poder mundial
que consiste nos Estados Unidos instalados no vértice do Ocidente
industrializado". Para quem gosta de teorias conspiracionistas, o título
do artigo é uma dádiva Domínio Universal:
Rumo a um Mundo Unipolar.
Em 1997,
William Kristol criou o Projeto para um Novo Século Americano (PNAC,
em inglês). Tinha a participação de gente do calibre
de Cheney, Rumsfeld e Wolfowitz. "Dois meses antes da eleição
presidencial de 2000, os unipolaristas do PNAC emitiram um documento intitulado
'Reconstruindo as defesas americanas: estratégia, forças
e recursos para um novo século', que enumerava as etapas de uma
estratégia global imperial", diz Dorrien. Em um ano de governo,
Bush praticamente colocou todas elas em prática, incluindo o repúdio
ao tratado de limitação de mísseis antibalísticos
com a Rússia e o aumento progressivo do orçamento militar.
Segundo
o economista Paul Krugman, que escreve para o New York Times, a
guerra contra o Iraque é o "projeto piloto" dos neoconservadores
e outras se seguirão dentro do objetivo de consolidar um império
pós-moderno cuja hegemonia é absoluta e incontestada. O
próprio presidente Bush, ao falar no "eixo do mal" constituído
por Iraque, Irã e Coréia do Norte, deu um indício
do que pode estar por vir. Intelectuais neoconservadores têm aumentado
a lista dos alvos em potencial, incluindo a Autoridade Palestina, a Síria,
o Líbano, a Arábia Saudita e até o Egito. Se a "jihad
democrática" terá realmente um alcance tão ambicioso
depende em parte de como vai ser a ocupação do Iraque. É
possível também que a campanha contra Saddam Hussein represente
o auge de um surto de intervencionismo imperial, ainda sob o impacto do
11 de setembro, e que depois venha o refluxo. A própria falta de
idéias arraigadas sobre a política externa pode levar Bush
a ser mais flexível. O presidente foi cooptado pelo projeto neoconservador,
que lhe oferece a vantagem adicional de falar em promover o bem, a moral
e a paz no mundo conceitos que combinam com suas convicções
religiosas. Mas ele é acima de tudo um político e quer,
acima de tudo, o mesmo que todos os políticos: ganhar eleição.
Se a invasão e a próxima ocupação do Iraque
não forem um sucesso brilhante, o "imperialismo democrático"
não passará no teste da realidade e a hiperpotência
refluirá para uma versão mais pragmática do exercício
do poder global.
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