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Edição 1 795 - 26 de março de 2003
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Os novos imperialistas

Vilma Gryzinski


Reuters
NOVÍSSIMA ORDEM
Bush no telão em Nova York: guerra preventiva contra Saddam é a primeira de uma lista

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A guerra ao alcance de todos
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A formação de um tirano
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A guerra contra o Iraque de Saddam Hussein é a primeira da novíssima ordem mundial. Outras virão, se esta sair a contento, seguindo basicamente o mesmo modelo. Duas doutrinas recentemente criadas amparam a nova política de segurança nacional americana: a da guerra preventiva e a da supremacia incontestada dos Estados Unidos. Seus proponentes fincaram-se no centro do poder americano e conquistaram a aquiescência do presidente George W. Bush. São chamados de neoconservadores, para se diferenciar, pelo ímpeto intervencionista e pelo propósito declarado de reformar o mundo, dos conservadores tradicionais. Também atendem por "imperialistas democráticos" e "unipolaristas", denominações auto-explicativas. São os novos ideólogos do império americano.

Muitos comentaristas que procuram analisar como Bush chegou à situação atual gostam de lembrar que o presidente que assumiu o poder em 2001 é diferente do que está levando os Estados Unidos a uma guerra numa posição de isolamento internacional sem precedentes e sob uma alegação inédita – a de que é melhor estraçalhar um inimigo antes que ele pense em atacar. O Bush original era mais parecido com os republicanos de feitio tradicional e pendor isolacionista, pouco predispostos a usar o poderio militar americano em rincões encrencados do mundo se não houvesse razões vitais para isso. A guinada hoje observada é atribuída ao duplo efeito do choque telúrico propiciado pelo 11 de setembro e de uma campanha de catequização promovida sobretudo por Dick Cheney, considerado o mais influente vice-presidente de todos os tempos. Oriundo ele próprio da turma dos "falcões" da direita convencional, Cheney, ao lado de seu companheiro de linha duríssima, Donald Rumsfeld, o abrasivo secretário de Defesa, encampou as teses dos neoconservadores, reforçando-as com sua excepcional capacidade de transformar idéias em políticas efetivas. Um dos pilares desse pensamento é que, a longo prazo, os Estados Unidos só podem ter segurança num mundo em que os valores americanos estejam amplamente disseminados. Essa propagação da democracia, através de intervenções militares se necessário, foi chamada pelo colunista Joe Klein, ironicamente, de "jihad democrática".

Fotos AP
JIHAD DEMOCRÁTICA
Cheney e Rumsfeld (acima), os "falcões" convertidos, e Wolfowitz (ao lado), o líder intelectual dos neoconservadores no governo Bush: teoria da disseminação da democracia, à força se for preciso, como forma de garantir a segurança dos Estados Unidos

No governo, os luminares mais conhecidos dessa corrente orbitam no Pentágono. São nomes como Paul Wolfowitz e Douglas Feith, subsecretários de Rumsfeld, e Richard Perle, que tem um posto consultivo. "Wolfowitz é o líder intelectual de uma corrente que incorpora objetivos revolucionários à idéia de transformar o mundo à imagem da América", segundo a definição do professor Charles Kupchan, especialista em relações internacionais. Wolfowitz e companheiros são também crias intelectuais da primeira geração de neoconservadores, representada por Norman Podhoretz, criador da revista Commentary, e Irving Kristol, da The Public Interest. Pensadores e polemistas brilhantes, esses patriarcas do novo imperialismo foram trotskistas na juventude. Como os leopardos, que trocam a pele mas não perdem as pintas, eles levaram para a direita várias características do modo de pensar de sua renegada vertente de extrema esquerda: o ímpeto transformacionista, a visão interconectada e globalizada das questões internacionais, a paixão pelo debate intelectual. A vitória de suas teses no governo Bush, notório pela mentalidade de caubói, representa uma espécie de encontro virtual entre Trotsky, com sinal invertido, e John Wayne. Um exemplo desse cruzamento de revolução permanente com estilo texano é a teoria da transformação do Oriente Médio a partir da implantação de um Iraque democrático, defendida pelos neoconservadores e endossada pelo presidente Bush no discurso em que delineou o que seria o futuro pós-guerra da região.

O delfim do movimento neoconservador é William Kristol, que, como o pai, também edita uma revista de idéias, a The Weekly Standard. Com tiragem de apenas 50.000 exemplares, é considerada hoje a mais influente publicação americana ("Dick Cheney manda alguém buscar uns trinta exemplares toda segunda-feira", brinca o editor). A Weekly Standard é publicada pela News Corporation, do supermagnata da mídia Rupert Murdoch. As propostas intelectualizadas do neoconservadorismo têm uma vertente popular, às vezes xenófoba, em outros veículos pertencentes a Murdoch, como o canal de notícias Fox News e os tablóides New York Post e The Sun. Durante os debates na ONU que antecederam a guerra ao Iraque, os dois jornais fizeram uma campanha vitriólica contra a França e o presidente Jacques Chirac, o maior opositor da opção militar. No tablóide The Sun, inglês, Chirac foi retratado como um verme e comparado a uma "prostituta parisiense".

Os ideólogos da novíssima ordem mundial não se metem em baixarias do gênero. Operam no campo das idéias, com enorme sucesso. Suas teses começaram a ganhar os contornos atuais quando o presidente ainda era George Bush pai, e a nova ordem mundial por ele anunciada, depois da implosão da União Soviética e da primeira guerra contra o Iraque, parecia um modelo de cooperação internacional se comparada à arrogância agressiva hoje incorporada por seu filho. "Em 1991, um grupo de anticomunistas de linha dura começou a pregar que os Estados Unidos deveriam usar seu poder militar e econômico para redefinir o mundo e acabar com os inimigos remanescentes da América", escreveu o professor Gary Dorrien, um especialista em história do liberalismo americano que estuda os novos imperialistas. Dorrien identifica num artigo de um dos expoentes do neoconservadorismo, Charles Krauthammer, as bases da proposta de reorientar a política externa da potência americana de forma a implantar "um único pólo de poder mundial que consiste nos Estados Unidos instalados no vértice do Ocidente industrializado". Para quem gosta de teorias conspiracionistas, o título do artigo é uma dádiva – Domínio Universal: Rumo a um Mundo Unipolar.

Em 1997, William Kristol criou o Projeto para um Novo Século Americano (PNAC, em inglês). Tinha a participação de gente do calibre de Cheney, Rumsfeld e Wolfowitz. "Dois meses antes da eleição presidencial de 2000, os unipolaristas do PNAC emitiram um documento intitulado 'Reconstruindo as defesas americanas: estratégia, forças e recursos para um novo século', que enumerava as etapas de uma estratégia global imperial", diz Dorrien. Em um ano de governo, Bush praticamente colocou todas elas em prática, incluindo o repúdio ao tratado de limitação de mísseis antibalísticos com a Rússia e o aumento progressivo do orçamento militar.

Segundo o economista Paul Krugman, que escreve para o New York Times, a guerra contra o Iraque é o "projeto piloto" dos neoconservadores e outras se seguirão dentro do objetivo de consolidar um império pós-moderno cuja hegemonia é absoluta e incontestada. O próprio presidente Bush, ao falar no "eixo do mal" constituído por Iraque, Irã e Coréia do Norte, deu um indício do que pode estar por vir. Intelectuais neoconservadores têm aumentado a lista dos alvos em potencial, incluindo a Autoridade Palestina, a Síria, o Líbano, a Arábia Saudita e até o Egito. Se a "jihad democrática" terá realmente um alcance tão ambicioso depende em parte de como vai ser a ocupação do Iraque. É possível também que a campanha contra Saddam Hussein represente o auge de um surto de intervencionismo imperial, ainda sob o impacto do 11 de setembro, e que depois venha o refluxo. A própria falta de idéias arraigadas sobre a política externa pode levar Bush a ser mais flexível. O presidente foi cooptado pelo projeto neoconservador, que lhe oferece a vantagem adicional de falar em promover o bem, a moral e a paz no mundo – conceitos que combinam com suas convicções religiosas. Mas ele é acima de tudo um político e quer, acima de tudo, o mesmo que todos os políticos: ganhar eleição. Se a invasão e a próxima ocupação do Iraque não forem um sucesso brilhante, o "imperialismo democrático" não passará no teste da realidade e a hiperpotência refluirá para uma versão mais pragmática do exercício do poder global.

 
 
   
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