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Edição 1 795 - 26 de março de 2003
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A formação de um tirano

Eduardo Salgado

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A ditadura no Iraque foi fora do comum mesmo em comparação aos outros regimes fechados do Oriente Médio, uma região famosa pela produção de déspotas sanguinários. De longe, a ditadura de Saddam destaca-se como a que mais trucidou opositores. Estimativas conservadoras de organizações não-governamentais de direitos humanos colocam a média de mortes anuais entre 5 000 e 10 000 desde o fim dos anos 60. Saddam Hussein, o responsável pela carnificina, foi o chefe do aparato de segurança do partido golpista Baath. Mais tarde, governou o Iraque, primeiro nas sombras e, a partir de 1979, como presidente. Descontando os países em conflito armado, não há paralelo na região. Ao longo de sua carreira política, Saddam, que quer dizer "aquele que confronta", aprendeu a usar a violência de forma calculada, mas sempre sem escrúpulos. Utilizou armas químicas contra a própria população civil, como no caso dos curdos. Mandou matar amigos e até mesmo os dois genros, acusados de traição em 1996.

Saddam aprendeu a primeira lição sobre a eficácia da violência ainda criança. O pai abandonou a família antes do nascimento do filho e a mãe, Subha, que trabalhava como vidente e andava sempre de preto e com os bolsos cheios de conchas do mar, casou-se de novo. O padrasto, conhecido como "Ibrahim, o mentiroso", divertia-se nas surras que dava no enteado com um pedaço de pau coberto de asfalto. O próprio Saddam não esconde que foi uma criança triste que evitava a companhia das outras pessoas. Para se proteger das provocações por não ter o pai legítimo por perto, saía de casa sempre armado com uma barra de ferro. "Nos últimos meses, houve, de fato, um esforço por parte dos americanos para apresentar Saddam como um grande vilão", disse a VEJA Edward Luttwak, o estrategista civil incumbido pelo presidente George Bush pai de escolher os alvos dos aviões americanos durante a primeira Guerra do Golfo. "Mas o fato é que a biografia do ditador é ainda pior que a propaganda."

O tio materno Khairallah Tulfah, um militar simpatizante de Adolf Hitler, foi a figura mais importante na formação da personalidade de Saddam. Foi com ele, um fervoroso nacionalista, que Saddam, ainda adolescente, se mudou para Bagdá. Com 1,90 metro de altura e porte musculoso, Saddam se destacou no incipiente Partido Baath como o que não recusava participar dos trabalhos sujos. Acabou o ensino médio já adulto e conseguiu o diploma em direito na Universidade de Bagdá com a única fórmula que conhecia. No dia do exame final, antes de iniciar a prova colocou a arma que carregava em cima da mesa para se sentir "mais confortável". O professor não precisou de nenhuma outra informação para aprovar o aluno. "Se tivesse nascido na Sicília, teria sido um mafioso", disse a VEJA Con Coughlin, o diretor de redação do jornal inglês Sunday Telegraph, que publicou a biografia Saddam: King of Terror (Saddam: Rei do Terror) no fim do ano passado.

O estudo exaustivo da biografia de um inimigo é crucial para os analistas militares. Tudo é feito para não repetir o erro do líder soviético Josef Stalin. Mesmo depois do começo da Operação Barbarossa, a invasão nazista da União Soviética na II Guerra Mundial, Stalin instruiu suas tropas a não resistir. O líder comunista estava convicto de que era apenas uma provocação. O ataque de Hitler, afinal, não fazia nenhum sentido do ponto de vista estratégico, porque abria um novo front na guerra. Como cerca de 20 milhões de soviéticos descobriram mais tarde pagando com a própria vida, Stalin errou ao julgar as circunstâncias a partir de sua própria lógica.

Hoje a CIA tem até psiquiatras responsáveis por avaliações psicológicas em um centro para a análise da personalidade e do comportamento. Um dos alvos dos médicos nos últimos meses foi Saddam. "O ditador iraquiano desenvolveu uma patologia conhecida pelos especialistas como narcisismo maligno", disse a VEJA o psiquiatra Jerrold Post, que trabalhou por mais de vinte anos na CIA. As características de quem sofre dessa patologia são uma visão egocêntrica e messiânica do mundo, a incapacidade de demonstrar compaixão pelo sofrimento alheio, a paranóia e a ausência de consciência. A megalomania foi comprovada na guerra contra os iranianos, nos anos 80, apoiada pelos Estados Unidos. Manifestou-se outra vez na invasão do Kuwait, em 1990, o que provocou o primeiro conflito armado com os americanos.

Até quando tentou fazer o bem, Saddam demonstrou truculência. No posto de vice-presidente, na década de 70, notabilizou-se por investir em saúde e educação. Frustrado com o progresso lento do programa de alfabetização, o então vice-presidente criou o Dia do Conhecimento como uma tentativa de despertar o interesse da população. Para não correr riscos, anunciou que quem ficasse de fora dos cursos seria preso. O número de matrículas acabou batendo recorde, e Saddam recebeu um prêmio da Unesco em 1977.

Não dá para entender a personalidade do ditador iraquiano sem perceber quanto ele sempre adorou a si próprio. As imagens espalhadas por todos os cantos do Iraque – Saddam de terno e gravata, Saddam orando, Saddam com armamentos, Saddam vestido com roupas árabes etc. – fizeram parte de uma campanha bem planejada de culto à personalidade aprendida nos livros sobre Stalin, o herói que ele adorou desde a juventude. Era uma espécie de Big Brother vigiando tudo e todos, mas também um exemplo da vaidade sem tamanho do ditador. Quando completou 65 anos, no ano passado, Saddam não tinha nenhum cabelo branco porque nunca descuidou da pintura. Até o início dos bombardeios, todos os palácios eram equipados com piscinas em que o ditador se exercitava diariamente. Elas eram ideais para seu problema de hérnia de disco. As braçadas também ajudavam a manter o peso entre os 95 e os 100 quilos.

Casado desde 1963 com a prima Sajida, com quem teve dois filhos homens e três mulheres, Saddam só dispensou o carinho das amantes nos primeiros anos de matrimônio. Ciente da preferência do marido por loiras, Sajida, originalmente morena, decidiu pintar os cabelos de tons claros. Todos os esforços para manter o lar em ordem, no entanto, foram abaixo meses depois do fim da guerra entre o Iraque e o Irã, em 1988. O pivô da crise conjugal foi Samira Shahbandar, a mulher do diretor-geral da companhia aérea do Iraque. Alta, loira, articulada, na faixa dos 30 anos e casada, Samira estava dentro do padrão Saddam de qualidade. "Durante um longo período, Saddam fez questão de se relacionar com mulheres casadas para humilhar seus maridos", diz o biógrafo Coughlin. Sentindo-se ameaçada, a mulher, Sajida, pediu ao filho Udai, aquele que mandava bater nos jogadores da Seleção Iraquiana de Futebol depois das derrotas, que tomasse uma atitude. Udai, o filho mais parecido com Saddam e famoso pela crueldade nas sessões de tortura, decidiu se vingar matando o guarda-costas que fazia a ponte entre Saddam e a amante.

Saddam ficou furioso, denunciou o filho na televisão e pediu sua prisão e condenação. Udai ficou apenas alguns meses preso, mas perdeu a predileção do pai. Caso os planos do ditador não tivessem mudado com a deflagração da segunda Guerra do Golfo, tudo indicava que Qusai, o filho mais moço, seria o herdeiro. Sério e trabalhador, porém igualmente sanguinário, Qusai tornou-se o chefe do grupo de elite responsável pela segurança do pai. Os soldados que costumavam aparecer armados atrás de Saddam nas fotos tiradas antes do início da guerra eram todos parentes do ditador e tratados com privilégios semelhantes aos dispensados aos ministros. Periodicamente, recebiam um carro de luxo zero-quilômetro e viviam em áreas exclusivas. A preocupação de Saddam com a segurança aumentou depois do fim da primeira Guerra do Golfo e chegou à loucura após os atentados de 11 de setembro de 2001. A situação não deixava de ter um traço de ironia. Saddam manteve-se no poder graças a um sistema de terror em que o delírio persecutório da população era a chave. Apenas isso explica os quase 100% de votos que obteve na "eleição" do ano passado. Acabaram seus dias como líder incontestável do Iraque, também paranóico, vítima do mesmo mal que propagou.

 
 
   
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