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A
formação de um tirano
Eduardo
Salgado

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A
ditadura no Iraque foi fora do comum mesmo em comparação
aos outros regimes fechados do Oriente Médio, uma região
famosa pela produção de déspotas sanguinários.
De longe, a ditadura de Saddam destaca-se como a que mais trucidou opositores.
Estimativas
conservadoras de organizações não-governamentais
de direitos humanos colocam a média de mortes anuais entre 5 000
e 10 000 desde o fim dos anos 60. Saddam Hussein, o responsável
pela carnificina, foi o chefe do aparato de segurança do partido
golpista Baath. Mais tarde, governou o Iraque, primeiro nas sombras e,
a partir de 1979, como presidente. Descontando os países em conflito
armado, não há paralelo na região. Ao longo de sua
carreira política, Saddam, que quer dizer "aquele que confronta",
aprendeu a usar a violência de forma calculada, mas sempre sem escrúpulos.
Utilizou armas químicas contra a própria população
civil, como no caso dos curdos. Mandou matar amigos e até mesmo
os dois genros, acusados de traição em 1996.
Saddam
aprendeu a primeira lição sobre a eficácia da violência
ainda criança. O pai abandonou a família antes do nascimento
do filho e a mãe, Subha, que trabalhava como vidente e andava sempre
de preto e com os bolsos cheios de conchas do mar, casou-se de novo. O
padrasto, conhecido como "Ibrahim, o mentiroso", divertia-se nas surras
que dava no enteado com um pedaço de pau coberto de asfalto. O
próprio Saddam não esconde que foi uma criança triste
que evitava a companhia das outras pessoas. Para se proteger das provocações
por não ter o pai legítimo por perto, saía de casa
sempre armado com uma barra de ferro. "Nos últimos meses, houve,
de fato, um esforço por parte dos americanos para apresentar Saddam
como um grande vilão", disse a VEJA Edward
Luttwak, o estrategista civil incumbido pelo presidente George Bush pai
de escolher os alvos dos aviões americanos durante a primeira Guerra
do Golfo. "Mas o fato é que a biografia do ditador é ainda
pior que a propaganda."
O tio materno
Khairallah Tulfah, um militar simpatizante de Adolf Hitler, foi a figura
mais importante na formação da personalidade de Saddam.
Foi com ele, um fervoroso nacionalista, que Saddam, ainda adolescente,
se mudou para Bagdá. Com 1,90 metro de altura e porte musculoso,
Saddam se destacou no incipiente Partido Baath como o que não recusava
participar dos trabalhos sujos. Acabou o ensino médio já
adulto e conseguiu o diploma em direito na Universidade de Bagdá
com a única fórmula que conhecia. No dia do exame final,
antes de iniciar a prova colocou a arma que carregava em cima da mesa
para se sentir "mais confortável". O professor não precisou
de nenhuma outra informação para aprovar o aluno. "Se tivesse
nascido na Sicília, teria sido um mafioso", disse a VEJA Con Coughlin,
o diretor de redação do jornal inglês Sunday Telegraph,
que publicou a biografia Saddam: King of Terror (Saddam: Rei
do Terror) no fim do ano passado.
O estudo
exaustivo da biografia de um inimigo é crucial para os analistas
militares. Tudo é feito para não repetir o erro do líder
soviético Josef Stalin. Mesmo depois do começo da Operação
Barbarossa, a invasão nazista da União Soviética
na II Guerra Mundial, Stalin instruiu suas tropas a não resistir.
O líder comunista estava convicto de que era apenas uma provocação.
O ataque de Hitler, afinal, não fazia nenhum sentido do ponto de
vista estratégico, porque abria um novo front na guerra. Como cerca
de 20 milhões de soviéticos descobriram mais tarde pagando
com a própria vida, Stalin errou ao julgar as circunstâncias
a partir de sua própria lógica.
Hoje a CIA
tem até psiquiatras responsáveis por avaliações
psicológicas em um centro para a análise da personalidade
e do comportamento. Um dos alvos dos médicos nos últimos
meses foi Saddam. "O ditador iraquiano desenvolveu uma patologia conhecida
pelos especialistas como narcisismo maligno", disse a VEJA o psiquiatra
Jerrold Post, que trabalhou por mais de vinte anos na CIA. As características
de quem sofre dessa patologia são uma visão egocêntrica
e messiânica do mundo, a incapacidade de demonstrar compaixão
pelo sofrimento alheio, a paranóia e a ausência de consciência.
A megalomania foi comprovada na guerra contra os iranianos, nos anos 80,
apoiada pelos Estados Unidos. Manifestou-se outra vez na invasão
do Kuwait, em 1990, o que provocou o primeiro conflito armado com os americanos.
Até
quando tentou fazer o bem, Saddam demonstrou truculência. No posto
de vice-presidente, na década de 70, notabilizou-se por investir
em saúde e educação. Frustrado com o progresso lento
do programa de alfabetização, o então vice-presidente
criou o Dia do Conhecimento como uma tentativa de despertar o interesse
da população. Para não correr riscos, anunciou que
quem ficasse de fora dos cursos seria preso. O número de matrículas
acabou batendo recorde, e Saddam recebeu um prêmio da Unesco em
1977.
Não
dá para entender a personalidade do ditador iraquiano sem perceber
quanto ele sempre adorou a si próprio. As imagens espalhadas por
todos os cantos do Iraque Saddam de terno e gravata, Saddam orando,
Saddam com armamentos, Saddam vestido com roupas árabes etc.
fizeram parte de uma campanha bem planejada de culto à personalidade
aprendida nos livros sobre Stalin, o herói que ele adorou desde
a juventude. Era uma espécie de Big Brother vigiando tudo e todos,
mas também um exemplo da vaidade sem tamanho do ditador. Quando
completou 65 anos, no ano passado, Saddam não tinha nenhum cabelo
branco porque nunca descuidou da pintura. Até o início dos
bombardeios, todos os palácios eram equipados com piscinas em que
o ditador se exercitava diariamente. Elas eram ideais para seu problema
de hérnia de disco. As braçadas também ajudavam a
manter o peso entre os 95 e os 100 quilos.
Casado desde
1963 com a prima Sajida, com quem teve dois filhos homens e três
mulheres, Saddam só dispensou o carinho das amantes nos primeiros
anos de matrimônio. Ciente da preferência do marido por loiras,
Sajida, originalmente morena, decidiu pintar os cabelos de tons claros.
Todos os esforços para manter o lar em ordem, no entanto, foram
abaixo meses depois do fim da guerra entre o Iraque e o Irã, em
1988. O pivô da crise conjugal foi Samira Shahbandar, a mulher do
diretor-geral da companhia aérea do Iraque. Alta, loira, articulada,
na faixa dos 30 anos e casada, Samira estava dentro do padrão Saddam
de qualidade. "Durante um longo período, Saddam fez questão
de se relacionar com mulheres casadas para humilhar seus maridos", diz
o biógrafo Coughlin. Sentindo-se ameaçada, a mulher, Sajida,
pediu ao filho Udai, aquele que mandava bater nos jogadores da Seleção
Iraquiana de Futebol depois das derrotas, que tomasse uma atitude. Udai,
o filho mais parecido com Saddam e famoso pela crueldade nas sessões
de tortura, decidiu se vingar matando o guarda-costas que fazia a ponte
entre Saddam e a amante.
Saddam ficou
furioso, denunciou o filho na televisão e pediu sua prisão
e condenação. Udai ficou apenas alguns meses preso, mas
perdeu a predileção do pai. Caso os planos do ditador não
tivessem mudado com a deflagração da segunda Guerra do Golfo,
tudo indicava que Qusai, o filho mais moço, seria o herdeiro. Sério
e trabalhador, porém igualmente sanguinário, Qusai tornou-se
o chefe do grupo de elite responsável pela segurança do
pai. Os soldados que costumavam aparecer armados atrás de Saddam
nas fotos tiradas antes do início da guerra eram todos parentes
do ditador e tratados com privilégios semelhantes aos dispensados
aos ministros. Periodicamente, recebiam um carro de luxo zero-quilômetro
e viviam em áreas exclusivas. A preocupação de Saddam
com a segurança aumentou depois do fim da primeira Guerra do Golfo
e chegou à loucura após os atentados de 11 de setembro de
2001. A situação não deixava de ter um traço
de ironia. Saddam manteve-se no poder graças a um sistema de terror
em que o delírio persecutório da população
era a chave. Apenas isso explica os quase 100% de votos que obteve na
"eleição" do ano passado. Acabaram seus dias como líder
incontestável do Iraque, também paranóico, vítima
do mesmo mal que propagou.
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