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CONTRATOS
PESADOS
A indústria de defesa americana é atualmente a maior
cliente individual de muitas empresas tradicionais, que estão
ampliando suas divisões bélicas |

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A história
mostra que toda potência militar se acha gentil e racional, mesmo
que seja vista como ameaça pelos vizinhos. Quando a supremacia
bélica de uma nação é vista com temor por
todos os outros países, como agora ocorre com os Estados Unidos,
aprofunda-se mais o fosso entre a maneira como a potência se enxerga
e como ela é percebida fora de suas fronteiras. Os líderes
americanos gostam de lembrar que, proporcionalmente a seu produto interno
bruto (PIB), os Estados Unidos gastam com armas menos do que muitas outras
nações. O orçamento de defesa americano é
de 4% do PIB, um esforço bélico menor,
proporcionalmente à riqueza nacional, que o da Rússia e
do Japão. É assim que os americanos se enxergam. Mas como
são vistos? Bem, os 400 bilhões de dólares de gastos
militares diretos anuais dos Estados Unidos são equivalentes à
soma do orçamento de defesa de todos os demais 192 países
da Terra. É assim, como uma nação guerreira, que
os americanos são hoje percebidos por uma parte significativa da
população mundial.
"A máquina
de guerra americana cresceu tanto que está dominando a economia,
influenciando a sociedade e, certamente, moldando a maneira como a atual
geração de americanos encara a vida", escreveu Joseph Nye
Jr., professor da Universidade Harvard e autor do livro The Paradox
of American Power (O Paradoxo do Poder Americano). É uma afirmação
real. Os americanos têm cerca de 2,4 milhões de homens e
mulheres vestindo algum uniforme militar. Quando se somam a eles os militares
reformados e os reservistas que podem ser convocados a qualquer momento,
esse número salta para mais de 10 milhões de pessoas. Acrescentem-se
agora as pessoas que trabalham em empresas do complexo bélico americano,
como a Raytheon, a Northrop, a Lockheed Martin e outras fabricantes de
mísseis, aviões e tanques. Somem-se, por fim, os funcionários
dos setores militares de companhias tradicionais que prestam serviços
e fornecem equipamentos e tecnologia ao Departamento de Defesa, como a
Boeing, a IBM e até a Microsoft. Mais: atualmente, 12% de todos
os universitários americanos que obtiveram ajuda financeira para
se matricular na faculdade são financiados por alguma instituição
militar.
"Sem que
muita gente se desse conta, criou-se nos Estados Unidos o que chamo de
'classe guerreira', formada por milhões de famílias economicamente
dependentes dos gastos do governo com armas", comenta o economista Robert
DeGrasse Jr., autor de um livro sobre o assunto. O estudioso diz que é
muito perigoso para os Estados Unidos e para o mundo ter a nação
mais poderosa do planeta dominada por um núcleo gerador de riquezas
baseado na guerra permanente. "Os gastos do Pentágono são
maiores que o de qualquer empresa americana e, ao contrário do
que ocorre no restante da atividade produtiva, são gastos que não
diminuem quando a economia está em períodos de declínio.
Isso cria em diversos setores da economia uma dependência doentia
dos contratos com o Departamento de Defesa", diz DeGrasse.
Quando a
Guerra Fria acabou pelo desabamento da União Soviética no
começo dos anos 90, terminou com ela a necessidade teórica
de os Estados Unidos gastarem tanto dinheiro com armas. Mas o que se viu
no decorrer dos anos 90 foi que o orçamento militar passou a crescer
em um ritmo maior do que quando existia do outro lado do mundo um "império
do mal", nas palavras do presidente americano Ronald Reagan. "Assustada
com a possibilidade de declínio de sua atividade, a indústria
bélica, com a ajuda dos generais, pregou a necessidade de se criar
um novo ciclo de rearmamento", lembra Harvey Sapolsky, professor do Instituto
de Tecnologia de Massachusetts (MIT). "Passamos a nos preparar para lutar
outro tipo de guerra, e isso custou uma fortuna", diz ele. Atualmente,
os EUA são a única potência militar capaz de atingir
com mísseis nucleares qualquer capital do planeta e de lutar três
guerras convencionais simultâneas longe de seu território.
O orçamento militar americano é cerca do dobro do faturamento
dos três maiores gigantes da economia dos Estados Unidos, a Wal-Mart
(220 bilhões de dólares), a Exxon (190 bilhões) e
a General Motors (177 bilhões).
As análises
mais refinadas dos especialistas sobre a dependência da economia
americana do estado permanente de guerra incluem também a fortuna
que se distribui em contratos de "reconstrução" de países
com os quais os EUA estiveram em conflito. A intervenção
em Kosovo salvou centenas de milhares de vidas de famílias muçulmanas
que vinham sendo disciplinadamente eliminadas pela ditadura sérvia.
A operação militar custou 6 bilhões de dólares.
Depois de restabelecida a democracia na região, empresas americanas
ganharam contratos de construção de estradas, ferrovias
e complexos de comunicação. Esses negócios vão
gerar 30 bilhões de dólares nos próximos dez anos.
A modernização do Iraque depois da saída de Saddam
Hussein e de seus generais vai abrir a caça a contratos orçados
em mais de 150 bilhões de dólares, segundo os cálculos
mais conservadores.
Vistas sob
uma luz mais favorável, as intervenções militares
americanas recentes, como a do Haiti, a de Kosovo e agora a do Iraque,
realmente produzem regimes menos cruéis com seus cidadãos
e menos concentradores de riqueza e poder. Um estudo recente do Banco
Mundial mostra que países sob regimes democráticos, situados
em regiões pacíficas, sofrem mas dificilmente sucumbem às
crises financeiras internacionais. O mesmo estudo estima que, se Israel
e os palestinos conseguirem criar uma paz sólida e duradoura entre
eles, apenas no primeiro ano de armistício entrariam na região
15 bilhões de dólares de investimentos diretos. "Não
se podem baratear os benefícios políticos e humanitários
de pacificar e democratizar países totalitários como o Iraque,
mas é inegável que essas ações produzem ganhos
econômicos notáveis para os Estados Unidos", diz DeGrasse.
Outros estudos
recentes sugerem que o gigantismo do setor de defesa nos Estados Unidos
ajuda a economia americana no curto prazo, mas pode ser um fator de atraso
na recuperação da vitalidade do país nos próximos
anos. O economista Martin McGuire afirmou em artigo publicado no Journal
of Economic Literature que, ao sugar uma parte considerável
do esforço econômico e de consumo da sociedade, o estamento
militar dos EUA pode retardar a competitividade que tem sido a mola propulsora
do capitalismo americano para sua posição de permanente
liderança no cenário mundial. Muitos especialistas sustentam
que o militarismo, especialmente em momentos de economia declinante como
agora, pode estar criando nos Estados Unidos uma espécie de capitalismo
de Estado, com tudo que isso implica de desmandos e ineficiência.
Há tempos ficou célebre no país a expressão
"parafuso Pentágono", quando se descobriu que determinado parafuso
vendido em qualquer loja de ferragens americana por 50 centavos aparecia
nos relatórios militares com o custo de 76 dólares. O parafuso
transformou-se em símbolo da falta de transparência, quando
não de franca corrupção, na maneira como são
fechados os bilionários contratos de fornecimento de equipamentos
militares nos EUA. "Os gastos militares nos níveis que estão
sendo mantidos neste país podem inibir a inovação
tecnológica, exacerbar a inflação e incentivar a
corrupção", escreveu McGuire. O professor Nye enxerga no
gigantismo militar americano outro perigo. "Nenhuma nação,
mesmo a mais imperial, conseguiu permanecer no topo tendo como motor principal
a força militar", diz ele. "Se os Estados Unidos mantiverem sua
exuberância bélica, mas se tornarem econômica e culturalmente
fracos, será o começo do fim de uma era."
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