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Edição 1 795 - 26 de março de 2003
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A máquina de guerra

Eurípedes Alcântara

 
General Dynamics
CONTRATOS PESADOS
A indústria de defesa americana é atualmente a maior cliente individual de muitas empresas tradicionais, que estão ampliando suas divisões bélicas

Veja também
Nesta edição
A guerra ao alcance de todos
A formação de um tirano
Os novos imperialistas
Herança em perigo
A América precisa da ONU
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Cobertura on-line da guerra

A história mostra que toda potência militar se acha gentil e racional, mesmo que seja vista como ameaça pelos vizinhos. Quando a supremacia bélica de uma nação é vista com temor por todos os outros países, como agora ocorre com os Estados Unidos, aprofunda-se mais o fosso entre a maneira como a potência se enxerga e como ela é percebida fora de suas fronteiras. Os líderes americanos gostam de lembrar que, proporcionalmente a seu produto interno bruto (PIB), os Estados Unidos gastam com armas menos do que muitas outras nações. O orçamento de defesa americano é de 4% do PIB, um esforço bélico menor, proporcionalmente à riqueza nacional, que o da Rússia e do Japão. É assim que os americanos se enxergam. Mas como são vistos? Bem, os 400 bilhões de dólares de gastos militares diretos anuais dos Estados Unidos são equivalentes à soma do orçamento de defesa de todos os demais 192 países da Terra. É assim, como uma nação guerreira, que os americanos são hoje percebidos por uma parte significativa da população mundial.

"A máquina de guerra americana cresceu tanto que está dominando a economia, influenciando a sociedade e, certamente, moldando a maneira como a atual geração de americanos encara a vida", escreveu Joseph Nye Jr., professor da Universidade Harvard e autor do livro The Paradox of American Power (O Paradoxo do Poder Americano). É uma afirmação real. Os americanos têm cerca de 2,4 milhões de homens e mulheres vestindo algum uniforme militar. Quando se somam a eles os militares reformados e os reservistas que podem ser convocados a qualquer momento, esse número salta para mais de 10 milhões de pessoas. Acrescentem-se agora as pessoas que trabalham em empresas do complexo bélico americano, como a Raytheon, a Northrop, a Lockheed Martin e outras fabricantes de mísseis, aviões e tanques. Somem-se, por fim, os funcionários dos setores militares de companhias tradicionais que prestam serviços e fornecem equipamentos e tecnologia ao Departamento de Defesa, como a Boeing, a IBM e até a Microsoft. Mais: atualmente, 12% de todos os universitários americanos que obtiveram ajuda financeira para se matricular na faculdade são financiados por alguma instituição militar.

"Sem que muita gente se desse conta, criou-se nos Estados Unidos o que chamo de 'classe guerreira', formada por milhões de famílias economicamente dependentes dos gastos do governo com armas", comenta o economista Robert DeGrasse Jr., autor de um livro sobre o assunto. O estudioso diz que é muito perigoso para os Estados Unidos e para o mundo ter a nação mais poderosa do planeta dominada por um núcleo gerador de riquezas baseado na guerra permanente. "Os gastos do Pentágono são maiores que o de qualquer empresa americana e, ao contrário do que ocorre no restante da atividade produtiva, são gastos que não diminuem quando a economia está em períodos de declínio. Isso cria em diversos setores da economia uma dependência doentia dos contratos com o Departamento de Defesa", diz DeGrasse.

Quando a Guerra Fria acabou pelo desabamento da União Soviética no começo dos anos 90, terminou com ela a necessidade teórica de os Estados Unidos gastarem tanto dinheiro com armas. Mas o que se viu no decorrer dos anos 90 foi que o orçamento militar passou a crescer em um ritmo maior do que quando existia do outro lado do mundo um "império do mal", nas palavras do presidente americano Ronald Reagan. "Assustada com a possibilidade de declínio de sua atividade, a indústria bélica, com a ajuda dos generais, pregou a necessidade de se criar um novo ciclo de rearmamento", lembra Harvey Sapolsky, professor do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). "Passamos a nos preparar para lutar outro tipo de guerra, e isso custou uma fortuna", diz ele. Atualmente, os EUA são a única potência militar capaz de atingir com mísseis nucleares qualquer capital do planeta e de lutar três guerras convencionais simultâneas longe de seu território. O orçamento militar americano é cerca do dobro do faturamento dos três maiores gigantes da economia dos Estados Unidos, a Wal-Mart (220 bilhões de dólares), a Exxon (190 bilhões) e a General Motors (177 bilhões).

As análises mais refinadas dos especialistas sobre a dependência da economia americana do estado permanente de guerra incluem também a fortuna que se distribui em contratos de "reconstrução" de países com os quais os EUA estiveram em conflito. A intervenção em Kosovo salvou centenas de milhares de vidas de famílias muçulmanas que vinham sendo disciplinadamente eliminadas pela ditadura sérvia. A operação militar custou 6 bilhões de dólares. Depois de restabelecida a democracia na região, empresas americanas ganharam contratos de construção de estradas, ferrovias e complexos de comunicação. Esses negócios vão gerar 30 bilhões de dólares nos próximos dez anos. A modernização do Iraque depois da saída de Saddam Hussein e de seus generais vai abrir a caça a contratos orçados em mais de 150 bilhões de dólares, segundo os cálculos mais conservadores.

Vistas sob uma luz mais favorável, as intervenções militares americanas recentes, como a do Haiti, a de Kosovo e agora a do Iraque, realmente produzem regimes menos cruéis com seus cidadãos e menos concentradores de riqueza e poder. Um estudo recente do Banco Mundial mostra que países sob regimes democráticos, situados em regiões pacíficas, sofrem mas dificilmente sucumbem às crises financeiras internacionais. O mesmo estudo estima que, se Israel e os palestinos conseguirem criar uma paz sólida e duradoura entre eles, apenas no primeiro ano de armistício entrariam na região 15 bilhões de dólares de investimentos diretos. "Não se podem baratear os benefícios políticos e humanitários de pacificar e democratizar países totalitários como o Iraque, mas é inegável que essas ações produzem ganhos econômicos notáveis para os Estados Unidos", diz DeGrasse.

Outros estudos recentes sugerem que o gigantismo do setor de defesa nos Estados Unidos ajuda a economia americana no curto prazo, mas pode ser um fator de atraso na recuperação da vitalidade do país nos próximos anos. O economista Martin McGuire afirmou em artigo publicado no Journal of Economic Literature que, ao sugar uma parte considerável do esforço econômico e de consumo da sociedade, o estamento militar dos EUA pode retardar a competitividade que tem sido a mola propulsora do capitalismo americano para sua posição de permanente liderança no cenário mundial. Muitos especialistas sustentam que o militarismo, especialmente em momentos de economia declinante como agora, pode estar criando nos Estados Unidos uma espécie de capitalismo de Estado, com tudo que isso implica de desmandos e ineficiência. Há tempos ficou célebre no país a expressão "parafuso Pentágono", quando se descobriu que determinado parafuso vendido em qualquer loja de ferragens americana por 50 centavos aparecia nos relatórios militares com o custo de 76 dólares. O parafuso transformou-se em símbolo da falta de transparência, quando não de franca corrupção, na maneira como são fechados os bilionários contratos de fornecimento de equipamentos militares nos EUA. "Os gastos militares nos níveis que estão sendo mantidos neste país podem inibir a inovação tecnológica, exacerbar a inflação e incentivar a corrupção", escreveu McGuire. O professor Nye enxerga no gigantismo militar americano outro perigo. "Nenhuma nação, mesmo a mais imperial, conseguiu permanecer no topo tendo como motor principal a força militar", diz ele. "Se os Estados Unidos mantiverem sua exuberância bélica, mas se tornarem econômica e culturalmente fracos, será o começo do fim de uma era."

 
 
   
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