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A
guerra ao
alcance de todos
Com a ofensiva
americana para
depor Saddam, telespectadores
de todo o mundo acompanham
ao vivo a trituração de Bagdá
por mísseis guiados por satélite
Jaime Klintowitz
AFP
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O
SÍMBOLO DESTRUÍDO
A residência oficial de Saddam queima em Bagdá: ditador sitiado
pela ofensiva americana |

Acesso rápido |
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Veja também |
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Os Estados
Unidos prometeram triturar o Exército iraquiano e depor Saddam
Hussein com uma ofensiva rápida e furiosa estratégia
militar conhecida por seu nome alemão, Blitzkrieg. A expressão,
que traz à memória o rolo compressor dos tanques nazistas
no fim dos anos 30, é a única velharia nesta guerra. O conflito,
em que só na sexta-feira passada foram despejadas centenas de mísseis
sobre Bagdá, é de um tipo novo na história da humanidade.
Em primeiro lugar, trata-se de uma guerra que os americanos chamam de
"preventiva", aquela na qual se mata o adversário na expectativa
de que ele, mais cedo ou mais tarde, tentaria nos aplicar algum golpe
sujo. Uma segunda característica desta guerra é que ela
deixa boa parte do trabalho pesado por conta de equipamentos high-tech
e do poderio aéreo, o que diminui drasticamente o risco de baixas
nas forças atacantes. Mísseis e bombas guiados pela rede
de satélites em órbita permitem que os bombardeios sejam
limitados aos alvos estratégicos e militares. Um míssil
orientado por informações de computador e por satélites
tem margem de erro do alvo inferior a 1 metro. Ou seja, não erra.
Com isso é possível reduzir o número de civis mortos.
"O ponto é que nós não devemos atacar tudo nem precisamos
destruir tudo", explicou o coronel Gary Crowder, comandante da Força
Aérea americana. "Bagdá não vai parecer Dresden."
A cidade alemã citada pelo coronel foi arrasada até os alicerces
pela aviação aliada no fim da II Guerra.
Fotos Reuters
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CHUVA
DE BOMBAS
Bombardeio arrasa instalações do governo do Iraque,
na sexta-feira: baterias antiaéreas são inúteis
contra mísseis teleguiados |
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CHOQUE
E TEMOR
Um míssil explode sobre o complexo presidencial: ataque militar
com precisão cirúrgica |
A guerra
que se consolidou nos anos 90 não é uma luta pela sobrevivência
nacional, como a II Guerra. Ela é uma ação restrita,
com ambições estratégicas cuidadosamente limitadas.
Envolve elaborada discussão política, intensa cobertura
da mídia e custa tremendamente caro. Só as nações
ricas podem se dar ao luxo de combater dessa forma. Com a intensidade
com que está sendo travada neste momento no Oriente Médio,
o círculo é ainda mais limitado. Só os Estados Unidos
que gastam em armamentos o equivalente à soma dos orçamentos
de defesa de todos os demais países têm o dinheiro,
os homens treinados e a determinação política necessários
para levar a tarefa até o fim. Desde a Guerra do Golfo, em 1991,
os militares americanos estão obcecados pela idéia de que
é possível entrar em batalha e vencê-la sem a perda
de um único combatente. Deu certo na
expulsão dos sérvios de Kosovo, em 1999. Nas dez semanas
de bombardeios aéreos morreram apenas dois soldados americanos
e foi num acidente de helicóptero na Albânia. Do lado
iugoslavo, de acordo com cálculo da Otan, as baixas chegaram a
5.000 militares e 1.200
civis. Esses números não impressionam tanto se forem comparados
com os estimados 35.000 mortos numa única
noite de bombardeio de Dresden, em 14 de fevereiro de 1945. A perda de
dezoito soldados num conflito de rua na Somália, em 1993, só
reforçou a convicção do Pentágono de que não
vale a pena lutar à moda antiga.
Os anos 90
apresentaram ao mundo os primeiros ensaios da guerra pós-moderna,
cirúrgica, altamente tecnológica e, por isso, precisa, coberta
ao vivo pela televisão para bilhões de pessoas, que assistem
a ela como a um espetáculo que, para variar, não é
de ficção. A dura realidade é o que entra na sala
dos espectadores do mundo inteiro. Na semana passada, milhões de
telespectadores espalhados pelo planeta viram o presidente Bush avisar
ao vivo que estava iniciando a guerra. Em um canal de TV, ele já
estava focalizado antes de começar seu discurso, enquanto seu cabelo
era penteado para aparecer em seu melhor estado diante das câmeras.
Horas mais tarde, viu-se Saddam Hussein jurar resistir até a morte
ao Exército invasor. A distância entre os dois era de 10.000
quilômetros. O iraquiano leu sua declaração num bloquinho
comum de anotações, que segurava na mão exposição
de intimidade difícil de imaginar que pudesse ter ocorrido aos
grandes guerreiros do século XX, como Winston Churchill, Josef
Stalin ou Adolf Hitler. Sentado em sua poltrona, o brasileiro, o francês,
o americano, o asiático podiam ver não apenas o disparo
de um míssil Tomahawk do convés de um navio de guerra americano
no Golfo Pérsico como também a chegada desses teleguiados
aos alvos em plena capital iraquiana, Bagdá, a 1.000
quilômetros de distância.
A primeira
guerra acompanhada por correspondentes foi a da Criméia, um confronto
entre a Rússia, de um lado, e a Inglaterra e a França, do
outro, na década de 1850. Tanto o Times londrino quanto
seu rival, o Morning Herald, dependiam de despachos enviados a
cavalo e barcos a vapor, que demoravam uma semana para chegar a Londres.
A primeira leva do desembarque aliado na Normandia, em 1944, foi registrada
por um único fotógrafo de imprensa, Robert Capa, e boa parte
de seu material se perdeu em um erro estúpido de revelação
no laboratório em Londres. Os filmes de Capa foram da Praia de
Omaha para Londres no navio que levou os primeiros feridos da invasão
para ser tratados na Inglaterra.
No início
dos anos 70, os cinegrafistas que cobriam a guerra no Vietnã expediam
por avião os rolos de filme para ser exibidos nas TVs dos Estados
Unidos. Hoje a transmissão por videofone é feita da trincheira.
O aparelho funciona como um celular, mas também envia imagens,
e se conecta diretamente com um satélite de comunicação.
Na quinta-feira passada, usando um equipamento desse tipo, o repórter
Marcos Uchôa, enviado da Rede Globo ao Kuwait, pôs no ar,
em tempo real, o ruído das sirenes anunciando um ataque de mísseis
iraquianos naquele país do Golfo Pérsico.
Submetidas
pela imprensa a um tipo de exposição didática e muito
precisa, as armas mais sofisticadas deixam de ser novidade para as pessoas
comuns. Imagens de satélite, com definição tão
excelente que torna possível identificar a marca de um automóvel
numa rua de Bagdá, permitem que o telespectador tenha pela televisão
uma percepção do cenário da guerra próxima
à do piloto de combate. O mesmo tipo de imagem serve para que o
general tenha a visão instantânea do resultado dos bombardeios.
Em 2001, durante a guerra no Afeganistão, um oficial das Forças
Especiais identificou uma base do Talibã, o grupo religioso que
dava abrigo aos terroristas de Osama bin Laden. Conferiu a posição
no GPS, o aparelho de localização por satélite, digitou
as coordenadas e transmitiu para um avião não tripulado.
Dali a mensagem seguiu para o centro de controle na Base Aérea
de Príncipe Sultan, na Arábia Saudita, que a enviou ao piloto
de um bombardeiro. O militar programou uma bomba guiada por satélite,
que atingiu o alvo dezenove minutos depois da mensagem original do oficial
em campo. Na Guerra do Golfo, em 1991, uma operação de identificação
de alvo seguida de bombardeio levava dias. Com a evolução
das tecnologias de identificação e ataque de alvos, os bombardeios
se tornaram ainda mais letais. "Podemos atingir em 24 horas o mesmo número
de alvos que levaríamos uma semana para acertar na Guerra do Golfo
de 1991", diz Buster Glosson, general da Força Aérea americana
que comandou os ataques aéreos na campanha de 1991.
A tecnologia
deu às guerras um aspecto de videogame, em que o teatro de operações
é monitorado por meios eletrônicos. A vedete desta vez são
os mais de trinta satélites de comunicação, navegação
e espionagem em órbita em torno do planeta. Muito antes de a primeira
bomba ser lançada, os equipamentos vasculharam por meses a fio
o Iraque. Com fotografias aéreas, o serviço de informações
americano pôde fazer uma maquete eletrônica da região.
Todos os detalhes foram armazenados nesse sistema o tipo de terreno,
os melhores acessos, características de cada prédio de Bagdá.
Com esses dados na memória, os mísseis e bombas inteligentes
que representam 90% do arsenal americano contra apenas 10% em 1991
recebem informações sobre a localização
correta dos alvos. O equipamento militar faz ainda o que os militares
chamam de "iluminação do teatro de guerra". Ele emite uma
freqüência de radar diferente que indica aos caças,
como o "invisível" F-117, o local exato para atacar. E, por fim,
os satélites servem de importante fonte de informação
para ligar o campo de batalha aos centros de informação.
Comandantes de tropas de infantaria, munidos de palmtops e laptops, recebem
informações e imagens por meio dessa tecnologia. Na guerra
iniciada na semana passada, algumas unidades de combate americana, como
a Quarta Divisão de Infantaria, estavam equipadas com sistemas
de controle ainda mais completos, cujo nome em código é
FBCB2. Por esse sistema, não apenas os aviões e helicópteros
mas também os tanques e os veículos de transporte de tropas
sabem exatamente a posição uns dos outros, mesmo que estejam
fora do campo de visão. A integração é feita
por satélites e computadores. O próximo passo é dar
a cada indivíduo em combate um aparelho em que ele possa ter o
mesmo grau de informação visual sobre o teatro de operações.
Os americanos dizem que a idéia é dotar os soldados de "total
consciência situacional". Um avanço impensável a generais
e estrategistas do passado, que tiveram de lutar batalhas inteiras com
base em adivinhações e informações de péssima
qualidade.
Reuters
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AP
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AFP
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A
HORA DA RENDIÇÃO
Soldados iraquianos se rendem às tropas americanas no
sul do Iraque no primeiro dia da ofensiva por terra: Saddam concentrou
suas tropas de elite em torno de Bagdá, onde planejava resistir
ao avanço inimigo |
Os ganhos
são políticos e militares: o avanço tecnológico
obtido com a incorporação do satélite no campo militar
representa menos baixas e, conseqüentemente, menor desgaste político.
O número de soldados americanos no Golfo é quase a metade
do de 1991. Em compensação, a eficiência dos bombardeios
e a quantidade de satélites praticamente dobraram. Nos últimos
dois anos, o rastreamento por satélite tinha convertido Saddam
Hussein num prisioneiro em seu próprio território. Ele não
podia aparecer em público nem falar ao telefone, num radiocomunicador,
na TV ou no rádio sem que os americanos soubessem seu paradeiro.
Esse conhecimento poderia ser usado como finalmente ocorreu na
semana passada numa tentativa de matá-lo. Com base em informações
de seu serviço de inteligência, que acreditava saber o local
em que o ditador estaria reunido com figuras graúdas de seu regime,
Bush autorizou o lançamento de uma salva de quarenta mísseis
sobre pontos específicos de Bagdá, na madrugada de quinta-feira
passada. Foi, na terminologia do Pentágono, um "ataque de decapitação".
Tivesse dado certo, os Estados Unidos teriam resolvido a guerra num primeiro
e único golpe naquela madrugada.
Agência Estado
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Reuters
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CONFRONTO
TELEVISIVO
Bush e Saddam: os dois inimigos foram assistidos por milhões
de espectadores em todo o mundo |
O ataque
terrestre com soldados americanos e ingleses, que na sexta-feira já
atingia Basra, no sul do Iraque, mostra que essa guerra não é
uma repetição quanto aos métodos e aos fins da de
1991. Há doze anos, as forças aliadas só avançaram
para expulsar os iraquianos do Kuwait depois de 39 dias de intensos bombardeios.
Isso se deve, em parte, ao fato de os riscos serem menores agora para
os atacantes. O poder militar do Iraque é uma sombra do que foi
no passado. Três de cada quatro soldados são recrutas do
Exército regular, despreparados e sem motivação para
enfrentar a máquina de guerra americana. Centenas se renderam no
primeiro dia de avanço aliado por terra. O problema são
os 100.000 homens da Guarda Republicana, uma
tropa de elite posicionada em torno de Bagdá. A ofensiva terrestre
também foi antecipada porque os americanos querem impedir que os
iraquianos coloquem fogo em poços de petróleo (sete dos
mais de 1.000 existentes no sul do Iraque foram
incendiados). Mas o principal motivo para o passo acelerado da ofensiva
foi o "ataque de decapitação" para matar Saddam. Ocorreu
alguns dias antes do planejado pelos generais do Pentágono. A correria
é para recuperar um pouco a capacidade de surpreender as defesas
iraquianas.
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