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Edição 1 795 - 26 de março de 2003
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A guerra ao
alcance de todos

Com a ofensiva americana para
depor Saddam, telespectadores
de todo o mundo acompanham
ao vivo a trituração de Bagdá
por mísseis guiados por satélite

Jaime Klintowitz

 
AFP
O SÍMBOLO DESTRUÍDO
A residência oficial de Saddam queima em Bagdá: ditador sitiado pela ofensiva americana

Acesso rápido
Capas de VEJA
2000 | 2001 | 2002 | 2003
Veja também
Nesta edição
A máquina de guerra
A formação de um tirano
Os novos imperialistas
Herança em perigo
A América precisa da ONU
Na internet
Cobertura on-line da guerra

Os Estados Unidos prometeram triturar o Exército iraquiano e depor Saddam Hussein com uma ofensiva rápida e furiosa – estratégia militar conhecida por seu nome alemão, Blitzkrieg. A expressão, que traz à memória o rolo compressor dos tanques nazistas no fim dos anos 30, é a única velharia nesta guerra. O conflito, em que só na sexta-feira passada foram despejadas centenas de mísseis sobre Bagdá, é de um tipo novo na história da humanidade. Em primeiro lugar, trata-se de uma guerra que os americanos chamam de "preventiva", aquela na qual se mata o adversário na expectativa de que ele, mais cedo ou mais tarde, tentaria nos aplicar algum golpe sujo. Uma segunda característica desta guerra é que ela deixa boa parte do trabalho pesado por conta de equipamentos high-tech e do poderio aéreo, o que diminui drasticamente o risco de baixas nas forças atacantes. Mísseis e bombas guiados pela rede de satélites em órbita permitem que os bombardeios sejam limitados aos alvos estratégicos e militares. Um míssil orientado por informações de computador e por satélites tem margem de erro do alvo inferior a 1 metro. Ou seja, não erra. Com isso é possível reduzir o número de civis mortos. "O ponto é que nós não devemos atacar tudo nem precisamos destruir tudo", explicou o coronel Gary Crowder, comandante da Força Aérea americana. "Bagdá não vai parecer Dresden." A cidade alemã citada pelo coronel foi arrasada até os alicerces pela aviação aliada no fim da II Guerra.


Fotos Reuters
CHUVA DE BOMBAS
Bombardeio arrasa instalações do governo do Iraque, na sexta-feira: baterias antiaéreas são inúteis contra mísseis teleguiados

CHOQUE E TEMOR
Um míssil explode sobre o complexo presidencial: ataque militar com precisão cirúrgica

A guerra que se consolidou nos anos 90 não é uma luta pela sobrevivência nacional, como a II Guerra. Ela é uma ação restrita, com ambições estratégicas cuidadosamente limitadas. Envolve elaborada discussão política, intensa cobertura da mídia e custa tremendamente caro. Só as nações ricas podem se dar ao luxo de combater dessa forma. Com a intensidade com que está sendo travada neste momento no Oriente Médio, o círculo é ainda mais limitado. Só os Estados Unidos – que gastam em armamentos o equivalente à soma dos orçamentos de defesa de todos os demais países – têm o dinheiro, os homens treinados e a determinação política necessários para levar a tarefa até o fim. Desde a Guerra do Golfo, em 1991, os militares americanos estão obcecados pela idéia de que é possível entrar em batalha e vencê-la sem a perda de um único combatente. Deu certo na expulsão dos sérvios de Kosovo, em 1999. Nas dez semanas de bombardeios aéreos morreram apenas dois soldados americanos – e foi num acidente de helicóptero na Albânia. Do lado iugoslavo, de acordo com cálculo da Otan, as baixas chegaram a 5.000 militares e 1.200 civis. Esses números não impressionam tanto se forem comparados com os estimados 35.000 mortos numa única noite de bombardeio de Dresden, em 14 de fevereiro de 1945. A perda de dezoito soldados num conflito de rua na Somália, em 1993, só reforçou a convicção do Pentágono de que não vale a pena lutar à moda antiga.

Os anos 90 apresentaram ao mundo os primeiros ensaios da guerra pós-moderna, cirúrgica, altamente tecnológica e, por isso, precisa, coberta ao vivo pela televisão para bilhões de pessoas, que assistem a ela como a um espetáculo que, para variar, não é de ficção. A dura realidade é o que entra na sala dos espectadores do mundo inteiro. Na semana passada, milhões de telespectadores espalhados pelo planeta viram o presidente Bush avisar ao vivo que estava iniciando a guerra. Em um canal de TV, ele já estava focalizado antes de começar seu discurso, enquanto seu cabelo era penteado para aparecer em seu melhor estado diante das câmeras. Horas mais tarde, viu-se Saddam Hussein jurar resistir até a morte ao Exército invasor. A distância entre os dois era de 10.000 quilômetros. O iraquiano leu sua declaração num bloquinho comum de anotações, que segurava na mão – exposição de intimidade difícil de imaginar que pudesse ter ocorrido aos grandes guerreiros do século XX, como Winston Churchill, Josef Stalin ou Adolf Hitler. Sentado em sua poltrona, o brasileiro, o francês, o americano, o asiático podiam ver não apenas o disparo de um míssil Tomahawk do convés de um navio de guerra americano no Golfo Pérsico como também a chegada desses teleguiados aos alvos em plena capital iraquiana, Bagdá, a 1.000 quilômetros de distância.

A primeira guerra acompanhada por correspondentes foi a da Criméia, um confronto entre a Rússia, de um lado, e a Inglaterra e a França, do outro, na década de 1850. Tanto o Times londrino quanto seu rival, o Morning Herald, dependiam de despachos enviados a cavalo e barcos a vapor, que demoravam uma semana para chegar a Londres. A primeira leva do desembarque aliado na Normandia, em 1944, foi registrada por um único fotógrafo de imprensa, Robert Capa, e boa parte de seu material se perdeu em um erro estúpido de revelação no laboratório em Londres. Os filmes de Capa foram da Praia de Omaha para Londres no navio que levou os primeiros feridos da invasão para ser tratados na Inglaterra.

No início dos anos 70, os cinegrafistas que cobriam a guerra no Vietnã expediam por avião os rolos de filme para ser exibidos nas TVs dos Estados Unidos. Hoje a transmissão por videofone é feita da trincheira. O aparelho funciona como um celular, mas também envia imagens, e se conecta diretamente com um satélite de comunicação. Na quinta-feira passada, usando um equipamento desse tipo, o repórter Marcos Uchôa, enviado da Rede Globo ao Kuwait, pôs no ar, em tempo real, o ruído das sirenes anunciando um ataque de mísseis iraquianos naquele país do Golfo Pérsico.

Submetidas pela imprensa a um tipo de exposição didática e muito precisa, as armas mais sofisticadas deixam de ser novidade para as pessoas comuns. Imagens de satélite, com definição tão excelente que torna possível identificar a marca de um automóvel numa rua de Bagdá, permitem que o telespectador tenha pela televisão uma percepção do cenário da guerra próxima à do piloto de combate. O mesmo tipo de imagem serve para que o general tenha a visão instantânea do resultado dos bombardeios. Em 2001, durante a guerra no Afeganistão, um oficial das Forças Especiais identificou uma base do Talibã, o grupo religioso que dava abrigo aos terroristas de Osama bin Laden. Conferiu a posição no GPS, o aparelho de localização por satélite, digitou as coordenadas e transmitiu para um avião não tripulado. Dali a mensagem seguiu para o centro de controle na Base Aérea de Príncipe Sultan, na Arábia Saudita, que a enviou ao piloto de um bombardeiro. O militar programou uma bomba guiada por satélite, que atingiu o alvo dezenove minutos depois da mensagem original do oficial em campo. Na Guerra do Golfo, em 1991, uma operação de identificação de alvo seguida de bombardeio levava dias. Com a evolução das tecnologias de identificação e ataque de alvos, os bombardeios se tornaram ainda mais letais. "Podemos atingir em 24 horas o mesmo número de alvos que levaríamos uma semana para acertar na Guerra do Golfo de 1991", diz Buster Glosson, general da Força Aérea americana que comandou os ataques aéreos na campanha de 1991.

A tecnologia deu às guerras um aspecto de videogame, em que o teatro de operações é monitorado por meios eletrônicos. A vedete desta vez são os mais de trinta satélites de comunicação, navegação e espionagem em órbita em torno do planeta. Muito antes de a primeira bomba ser lançada, os equipamentos vasculharam por meses a fio o Iraque. Com fotografias aéreas, o serviço de informações americano pôde fazer uma maquete eletrônica da região. Todos os detalhes foram armazenados nesse sistema – o tipo de terreno, os melhores acessos, características de cada prédio de Bagdá. Com esses dados na memória, os mísseis e bombas inteligentes – que representam 90% do arsenal americano contra apenas 10% em 1991 – recebem informações sobre a localização correta dos alvos. O equipamento militar faz ainda o que os militares chamam de "iluminação do teatro de guerra". Ele emite uma freqüência de radar diferente que indica aos caças, como o "invisível" F-117, o local exato para atacar. E, por fim, os satélites servem de importante fonte de informação para ligar o campo de batalha aos centros de informação. Comandantes de tropas de infantaria, munidos de palmtops e laptops, recebem informações e imagens por meio dessa tecnologia. Na guerra iniciada na semana passada, algumas unidades de combate americana, como a Quarta Divisão de Infantaria, estavam equipadas com sistemas de controle ainda mais completos, cujo nome em código é FBCB2. Por esse sistema, não apenas os aviões e helicópteros mas também os tanques e os veículos de transporte de tropas sabem exatamente a posição uns dos outros, mesmo que estejam fora do campo de visão. A integração é feita por satélites e computadores. O próximo passo é dar a cada indivíduo em combate um aparelho em que ele possa ter o mesmo grau de informação visual sobre o teatro de operações. Os americanos dizem que a idéia é dotar os soldados de "total consciência situacional". Um avanço impensável a generais e estrategistas do passado, que tiveram de lutar batalhas inteiras com base em adivinhações e informações de péssima qualidade.


Reuters
AP
AFP
A HORA DA RENDIÇÃO
Soldados iraquianos se rendem às tropas americanas no sul do Iraque no primeiro dia da ofensiva por terra: Saddam concentrou suas tropas de elite em torno de Bagdá, onde planejava resistir ao avanço inimigo

Os ganhos são políticos e militares: o avanço tecnológico obtido com a incorporação do satélite no campo militar representa menos baixas e, conseqüentemente, menor desgaste político. O número de soldados americanos no Golfo é quase a metade do de 1991. Em compensação, a eficiência dos bombardeios e a quantidade de satélites praticamente dobraram. Nos últimos dois anos, o rastreamento por satélite tinha convertido Saddam Hussein num prisioneiro em seu próprio território. Ele não podia aparecer em público nem falar ao telefone, num radiocomunicador, na TV ou no rádio sem que os americanos soubessem seu paradeiro. Esse conhecimento poderia ser usado – como finalmente ocorreu na semana passada – numa tentativa de matá-lo. Com base em informações de seu serviço de inteligência, que acreditava saber o local em que o ditador estaria reunido com figuras graúdas de seu regime, Bush autorizou o lançamento de uma salva de quarenta mísseis sobre pontos específicos de Bagdá, na madrugada de quinta-feira passada. Foi, na terminologia do Pentágono, um "ataque de decapitação". Tivesse dado certo, os Estados Unidos teriam resolvido a guerra num primeiro e único golpe naquela madrugada.


Agência Estado
Reuters
CONFRONTO TELEVISIVO
Bush e Saddam: os dois inimigos foram assistidos por milhões de espectadores em todo o mundo

O ataque terrestre com soldados americanos e ingleses, que na sexta-feira já atingia Basra, no sul do Iraque, mostra que essa guerra não é uma repetição quanto aos métodos e aos fins da de 1991. Há doze anos, as forças aliadas só avançaram para expulsar os iraquianos do Kuwait depois de 39 dias de intensos bombardeios. Isso se deve, em parte, ao fato de os riscos serem menores agora para os atacantes. O poder militar do Iraque é uma sombra do que foi no passado. Três de cada quatro soldados são recrutas do Exército regular, despreparados e sem motivação para enfrentar a máquina de guerra americana. Centenas se renderam no primeiro dia de avanço aliado por terra. O problema são os 100.000 homens da Guarda Republicana, uma tropa de elite posicionada em torno de Bagdá. A ofensiva terrestre também foi antecipada porque os americanos querem impedir que os iraquianos coloquem fogo em poços de petróleo (sete dos mais de 1.000 existentes no sul do Iraque foram incendiados). Mas o principal motivo para o passo acelerado da ofensiva foi o "ataque de decapitação" para matar Saddam. Ocorreu alguns dias antes do planejado pelos generais do Pentágono. A correria é para recuperar um pouco a capacidade de surpreender as defesas iraquianas.

 
 




   
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