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Lula
lá. Mas lá onde?
"Não
dá para julgar o desempenho
de um presidente em três meses.
Porém dá para julgar seus discursos.
Leio todos os discursos de Lula.
Não
entendo uma
palavra"
Cheguei
em terceiro lugar numa enquete sobre o jornalista que mais torce contra
o governo Lula. Como assim? Só terceiro? Tem tanta gente percebendo
a enrascada em que nos metemos que, daqui a pouco, corro o risco de ser
considerado um governista.
Não dá para julgar o desempenho de um presidente em menos
de três meses. Porém dá para julgar seus discursos.
Leio todos os discursos de Lula no site da Radiobrás. Não
entendo uma palavra. Exemplo: "Acho que o meu papel é afirmar que
a maior preocupação que o ser humano possa ter é
que nós vamos mudar este país". O que significa? Que seu
papel é mudar o país? Ou que seu papel é apenas afirmar
que vai mudar o país? E o que isso tem a ver com a maior preocupação
do ser humano?
Na primeira reunião do Conselho de Segurança Alimentar,
Lula disse que, "muitas vezes, a gente não consegue nem detectar
o faminto e se aqueles que estão comendo, estão comendo
as calorias necessárias a uma qualidade de vida humana que as pessoas
têm que ter". O que ele quis insinuar com "vida humana"? Que um
faminto pode ser visto como uma vida animal? Uma vida vegetal? Até
para elogiar seus ministros Lula é ambíguo: "Eu acho que
o Furlan e o Roberto Rodrigues estão para o Brasil como pessoas
da melhor qualidade". Ou seja, é possível que, em termos
absolutos, eles não sejam da melhor qualidade, mas ao menos são
o máximo que o Brasil pode oferecer.
Quando não confunde seus ouvintes, Lula os desarma com obviedades:
"Levanto todo dia de manhã e falo para a Marisa que nós
temos que fazer as coisas muito bem pensadas". Seria bastante surpreendente
se ele dissesse a Marisa que, naquele dia, só pretendia cometer
barbaridades irrefletidas. Lula também dispõe de fórmulas
simples que podem ser empregadas em todas as circunstâncias, como
"O povo está precisando de feijão com arroz e não
de guerra". Daria para substituir "guerra" por "inflação",
ou "juros altos", ou "vôlei de praia", ou "cotonetes", e a afirmação
permaneceria irrefutável.
Ocasionalmente, Lula parece acrescentar uma nova palavra ao seu vocabulário,
mas nem sempre consegue inseri-la no contexto apropriado: "Uma das coisas
que eu mais admiro é um militante que vai para a rua com sua bandeira.
Eu acho uma coisa fantástica e inusitada". O que há de inusitado
num militante com uma bandeira? Outras vezes, o raciocínio de Lula
dá tantas voltas que não é fácil descobrir
aonde ele pretende chegar: "Eu comecei com isso, para dizer que todos
nós aqui, presentes, que os problemas de gênero, além
das questões dos direitos que temos que colocar, nas nossas Constituições,
como um todo, tem um problema cultural".
Lula costuma rechear seus discursos de parábolas futebolísticas.
Revelam o estado de espírito com o qual ele assumiu o poder: "Eu
não tenho pressa. Vejam que, quando a Portuguesa Santista foi atabalhoada,
o São Paulo marcou 5, quando ela jogou corretamente, só
foi 1 x 0". O ambicioso projeto de Lula resume-se a transformar o Brasil
numa retranqueira Portuguesa Santista e, possivelmente, perder de pouquinho.
Se não der certo, ninguém poderá culpá-lo.
Como ele disse em outro pronunciamento oficial, "vou agir assim porque
tenho consciência da responsabilidade que está nas costas
das pessoas que me elegeram". Ouviram? A responsabilidade é dos
eleitores, não dele.
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